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“O Melhor Está Por Vir” é um doce e sincero retrato da amizade

O potencial clichê sobre câncer e protagonistas de personalidades opostas é na verdade uma história sobre amigos quase irmãos

“Para os antigos, a amizade parecia ser o mais feliz e o mais completamente humano de todos os amores, a coroa da vida e a escola da virtude”, declara o linguista C. S. Lewis no livro Os Quatro Amores. Se para Hollywood a amizade serve como alívio cômico e apêndice de relacionamentos românticos, os diretores franceses Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patelliére aparentemente preferem a visão de Lewis sobre o assunto.

Arthur Dreyfus (Fabrice Luchini), médico divorciado, metódico e de refinado moralismo, e Cesar Montesiho (Patrick Bruel), bon-vivant extrovertido e desregrado, cuja irresponsabilidade o levou ao confisco de bens por cobradores, são amigos desde 1976, quando se conheceram no internato. Os dois concordam: “se não nos conhecêssemos, não acreditaria que somos amigos”. Porém, o forçado companheirismo dos tempos do colégio se tornou a matriz de uma amizade profunda e duradoura.

Pôster do filme estrelado por Luchini e Bruel. (Foto: Isabela Jordão/Agência UVA)

O enredo do filme se desenrola a partir da extravagante diferença entre os dois. Quando Cesar utiliza o plano de saúde de Arthur — que aceita o pedido a contragosto — um câncer é revelado nos exames. É Arthur quem recebe a notícia, pelo fato de os exames estarem registrados no nome dele. Cabe então a este dizer a Cesar que só lhe restam três meses de vida. Porém, devido à inabilidade comunicativa de Arthur e à falta de atenção de Cesar, cria-se uma situação na qual cada um crê na morte iminente do melhor amigo.

Só então o filme começa de fato. Na perspectiva da morte do outro, cada um reserva a si mesmo o objetivo de realizar os sonhos daquele que tanto ama. Sim, “O Melhor Está Por Vir” é uma história de amor. Se esta frase logo lhe remete ao romance, só mostra o quanto nossa época despreza uma das formas mais sublimes de afeto. O já citado C. S. Lewis dizia que “poucas pessoas modernas pensam que a amizade é um amor de valor comparável [ao romance] ou mesmo que seja um amor”. Observando a temática persistentemente romântica de filmes, livros e músicas contemporâneas, somos obrigados a concordar. Apesar deste déficit cultural e afetivo de nossos tempos, o longa francês capta muito bem a essência da verdadeira amizade.

Na trajetória de Cesar e Arthur até que o outro morra, a vida de ambos é analisada, e até mesmo reorganizada, através de infindáveis conversas na estrada, festas e viagens percorridas pela dupla. Se para os personagens bíblicos Davi e Jônatas a amizade era de tal modo valiosa, “ultrapassando o amor de mulheres” segundo a narrativa bíblica, para Cesar e Arthur o sentimento tem intensidade semelhante. Enquanto a ex-esposa de Arthur, Virginie, declara amá-lo, “mas não o suficiente para lhe suportar”, Cesar declara: “Você me cansa”, mas ama Arthur mesmo assim. Se trata puramente da amizade em sua essência. E afinal, não é nisso que consiste o amor? 

Ao longo de duas horas, avançamos com os protagonistas na compreensão da amizade. É abrir mão dos próprios gostos e desejos, ceder oportunidades para beneficiar o outro, falar verdades dolorosas, saber a hora de corrigir e de ser corrigido, perdoar e pedir perdão. É encontrar no amigo um amparo para enfrentar os fantasmas do passado e as agonias do presente, assim como compartilhar as alegrias mais genuínas. Não dá pra chamar de amizade algo que seja menos que isso, e Cesar e Arthur não cometem este grave deslize.

É a partir da relação entre os dois protagonistas que, Julie, filha de Arthur, descobre o lado divertido e carinhoso do pai. É a partir do incentivo de Arthur que Cesar se reconcilia com o pai, Bernard. O verdadeiro amigo nos torna melhores e mais transparentes até mesmo para quem está fora do relacionamento. Enquanto pensamos como Arthur: “Eu não suportaria ser amigo de mim mesmo”, um amigo como Cesar nos ampara e divide conosco o fardo, ao mesmo tempo em que apoiamos aquele que para nós é tão precioso. Como diz a personagem Randa Ameziani (Zineb Triki), “quando amamos uma pessoa, trazemos a dor dela para nós”.

Como toda obra que se pretenda a retratar pessoas reais, o filme também revela: amigos erram, e erram feio. Para medirmos um ao outro quando estamos certos ou errados, precisamos de um parâmetro comum, sem favoritismos. Nenhuma amizade se sustenta em uma moralidade parcial. “O Melhor Está Por Vir” equilibra o tom filosófico da abordagem do relacionamento de Cesar e Arthur com as bobeiras da amizade. O filme é doce ao mostrar aquele humor espontâneo, reservado para os mais queridos em nossas vidas. Não é um drama exagerado e nem uma comédia pastelão. A produção é simples, não há nenhum espetáculo de cores e fotografia. Os recursos técnicos servem apenas de moldura para a história. 

O enredo também não é exatamente inovador, mas traz ao público uma preciosa reflexão. Em um século no qual o amor ao próximo deu lugar ao amor próprio, e assim casamentos acabam e amizades não florescem, Cesar e Arthur são um ponto fora da curva. Eles descobriram que se doar em benefício do outro é ser muito mais feliz, e ganharam a bênção de descobrir que, ao cuidar de quem amamos, descobrimos nossas próprias doenças. Foram fiéis um ao outro, até a morte. A morte está próxima de todos nós, mesmo que nenhum câncer esteja envolvido. A quem você ama?

Isabela Jordão – 7º período

3 comentários em ““O Melhor Está Por Vir” é um doce e sincero retrato da amizade

  1. Bruno Interlandi

    Estava procurando exatamente um resumo sobre, pra minha apresentação essa semana 🙌🙌 Obrigadíssimo!!

  2. Nossa! Esse texto me emocionou demais, como alguém pôde escrever com tanta referência e riqueza sobre a amizade? Mt bom!! Parabéns a essa jornalista

  3. Ana Caroline

    Que texto incrível! Impecável e emocionante. Uma grande jornalista vem surgindo. Parabéns!

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