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“Maria & João – O Conto das Bruxas”: entre exageros e ideias recicladas

Mais uma adaptação do clássico conto dos irmãos Grimm tenta inovar, mas se perde nas próprias ideias

O conceito do folclore busca, na sua essência, representar a identidade social de uma comunidade por meio de costumes e tradições que percorrem gerações. Na tentativa de entender a cultura e o idioma de seu próprio povo, os irmãos Grimm se dedicaram a pesquisar sobre as lendas locais e criaram, ainda no Século 18, histórias que se tornariam alguns dos contos infantis mais populares no mundo todo. Naturais de uma região que corresponde atualmente à Alemanha, eles ganharam seu reconhecimento, inicialmente, por produzir versões mais adultas dessas histórias.

Um desses contos, que ao longo dos anos seria adaptado das mais diversas formas para as telas do cinema, é “João e Maria” (ou Hansel & Gretel, no original). Em sua versão de 2020, o filme, dirigido por Oz Perkins (“O Último Capítulo”), embora tome como base as histórias dos irmãos, segue caminhos diferentes de seu material fonte. A começar pelo título, que, ao inverter a ordem dos nomes dos personagens principais, já demonstra a clara intenção dos criadores de explicitar a quem será dado o protagonismo.

Sophia Lillis (“It: A Coisa”) interpreta Maria. Foto: Divulgação

O longa abre com uma história sobre a “linda criança com o pequeno capuz rosa” que vivia em um vilarejo cercado de florestas. Todos da região acreditavam que tinha algo de especial na menina, até que, ao ser atingida por uma terrível doença, seus pais decidem levá-la a uma feiticeira, que a cura sob o preço de uma maldição. Anos depois, a trama nos apresenta à jovem Maria, interpretada por Sophia Lillis (“It: A Coisa”), e seu irmão mais novo João (Samuel Leakey). Após serem postos para fora de casa pela própria mãe – que alega não ter mais condição de sustentá-los –, os dois precisam se virar sozinhos para encontrar comida e moradia.

Ao se mostrar ciente de que está adaptando uma história já replicada inúmeras vezes em diversas mídias, o roteirista Rob Hayes procura inserir novos elementos, na tentativa de trazer um grau de frescor à trama. Uma dessas novidades é o fato de tornar Maria uma personagem mais madura em relação à já conhecida dos contos infantis, e isso se reflete na interpretação de Lillis. Ao ter um irmão mais novo e indefeso, a atriz é eficaz ao conferir uma certa dose de confiança à Maria – embora mais à frente isso venha a se revelar quase um tiro no pé, já que em alguns momentos não é possível sentir a fragilidade da personagem quando posta em situações de perigo.

As cores primárias são bem marcantes na fotografia de “Maria & João”. Foto: Divulgação

Aliás, o talento de Lillis também contribui para que a química entre os irmãos funcione bem, tornando genuína a preocupação que um tem com o outro. Mas, se por um lado, o filme acerta a mão na relação entre seus protagonistas, quase todo o resto parece fora de sincronia. É notável como, por exemplo, o longa desperdiça ideias interessantes – teria sido muito mais eficiente se a história do prólogo tivesse sido explorada a fundo em vez de só narrada às pressas – e aposta em repetições que não têm outra função a não ser anestesiar o espectador. Os trabalhos de fotografia, juntamente com o design de produção, que à primeira vista tentam criar ambientes assustadores, fazendo uso do contraste entre as sombras e as luzes amareladas das velas, só se tornam cansativos, à medida que são super utilizados.

O mesmo acontece quando, ao fazer um uso exagerado das cores primárias (vermelho, azul e amarelo) – talvez em uma clara tentativa de emular o que Dario Argento fez no filme “Suspiria” (1977) –, o diretor só demonstre um esforço de expressar um objetivo que nem mesmo ele parece saber o que é. Aliás, enquanto algumas ideias são apressadas em demasia ou apenas inseridas sem o menor contexto e continuidade – a cena do caçador é um claro exemplo disso – outras poderiam parecer menos óbvias. Bem interpretada por Alice Krige (“Thor: O Mundo Sombrio”), a bruxa, chamada aqui de “Holda”, apesar do bom trabalho de maquiagem, que a torna mais intimidadora, sofre pelo roteiro pobre, que faz com que sua superexposição em tela a diminua para o que parece ser apenas uma “tia malvada”.

Se era para passar a mínima sensação de terror, “Maria & João – O Conto das Bruxas” falha, ao deixar o espectador bem relaxado, sem temer em momento algum pela segurança de seus protagonistas. Há ainda, no terceiro ato, a tentativa de criar uma reviravolta na história, que só transmite a sensação de que os criadores estavam perdidos nos seus próprios caminhos. Talvez tenha faltado dosagem e equilíbrio em uma trama que poderia simplificar para focar no desenvolvimento de sua atmosfera, e sua própria mitologia – “A Bruxa” (2015), de Robert Eggers, dá um belo exemplo de como fazer isso de uma forma que funcione. Talvez as aparentes boas ideias do diretor deem certo quando encontrar um bom roteiro. Por enquanto, o que vale não é apenas a intenção.

Márcio Rodrigues – Colaborador Agência UVA

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