Cultura Geral

Simplicidade não diminui o impacto de “O Preço da Verdade”

Filme aposta em fórmula de “Spotlight” para mostrar o quão difícil é enfrentar uma grande corporação

Historiadores relatam que Golias, ao lutar com Davi, usava uma cota de malha de bronze com mais de 57 quilos, um enorme escudo, além de uma lança, cuja ponta de ferro chegava a pesar seis quilos. No clássico conto bíblico, poucos acreditavam que Davi seria capaz de derrotar o “gigante”, campeão dos filisteus, com seus quase três metros de altura. Em proporção parecida, a história da humanidade provou que dinheiro e poder podem ser os “Golias” da sociedade, e a exemplo da famosa passagem presente no livro sagrado, “O Preço da Verdade”, novo filme do diretor Todd Haynes (“Carol”), revela uma batalha que à primeira vista também parece ser impossível de ser vencida.

A trama do longa gira em torno de Robert Bilott (Mark Ruffalo), um advogado da “Taft Stettinius & Hollister”, empresa de advocacia que representa grandes corporações, incluindo a “DuPont”, companhia química que está sendo acusada de despejar resíduos tóxicos no terreno de Wilbur Tennant (Bill Camp), um humilde criador de gados da região de West Virginia, nos Estados Unidos. O fazendeiro alega que suas vacas ficaram doentes, agressivas e muitas até morreram por conta do envenenamento, fato que ainda se somaria à descoberta da contaminação da água de toda a região.

Robert Bilott (Mark Ruffalo) à frente e Wilbur Tennant (Bill Camp) ao fundo.
Foto: Divulgação

Apesar de demonstrar vontade de ajudar o sujeito – inclusive indo de encontro à ideologia da própria empresa na qual trabalha –, o personagem de Ruffalo vai, aos poucos, encontrando a motivação necessária que o faz decidir tomar a frente do caso. Com isso, é interessante notar que o roteiro foge de algumas soluções mais fáceis, como, por exemplo, fazer com que Bilott tomasse essa decisão logo de cara, algo comum em roteiros preguiçosos. O advogado entende o quão difícil seria enfrentar uma empresa com a grandeza e o poder da “DuPont” e o filme não tem pressa para explorar as injustiças que só vão se mostrando cada vez mais absurdas.

Ao definir o ponto de vista da trama a partir da visão de Bilott, o diretor muitas vezes abre mão do aspecto humano e aposta no elemento “burocrático” do caso, o que faz com que o espectador sinta o peso de um processo como esse – não à toa ele faz questão de destacar a passagem dos anos, algo que comprova sua intenção de nos dar a dimensão do quão exaustiva foi a ação. Essa sensação também é trazida graças ao trabalho seguro de Ruffalo, que, embora pareça uma cópia do que fez em “Spotlight”, demonstra, por meio de um sutil trabalho corporal, o esgotamento de quem está há tanto tempo em busca de respostas que parecem inalcançáveis.

Personagem de Mark Ruffalo em cena no tribunal.
Foto: Divulgação

As similaridades com o filme que revelou os escândalos de pedofilia envolvendo a igreja católica ficam ainda mais óbvias quando Haynes repete até alguns clichês, como, por exemplo, colocar o personagem rodeado de caixas e documentos enquanto a trilha sobe e evoca o tom de investigação, algo que não chega a ser ruim, mas não deixa de ser um recurso inegavelmente previsível. Ou o que falar do discurso motivacional do chefe de Bilott, que apenas soa como piegas, ao passo que algumas cenas atrás era ele um dos mais céticos com relação à continuidade do caso.

Assim como em “Spotlight”, “O Preço da Verdade” chama mais atenção pela grandeza e importância de seu tema do que por sua forma. A simplicidade da condução de Haynes é eficiente e contribui para aquilo a que o roteiro se propõe. Não há exageros, o que faz com que o desenvolvimento se dê inteiramente por intermédio da trama e dos personagens envolvidos. Ainda que o caso seja pouco conhecido por aqui, não é difícil se familiarizar com o enredo – acontecimentos recentes no Brasil envolvendo uma certa mineradora ajudam a entender a raiva de quem convive com o descaso e a negligência.

É como diz o próprio Robert Bilott em uma cena específica: “O sistema é fraudado. Eles querem que acreditemos que vão nos proteger, mas isso é uma mentira. Nós nos protegemos. Nós. Ninguém mais. Não as grandes empresas, não os cientistas, não o governo. Nós”. Quem somos nós, senão pequenos “Davis” diante de “Golias”, afinal.

Os acontecimentos do filme geraram um artigo do The New York Times chamado “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare” (“O Advogado Que Se Tornou o Pior Pesadelo da DuPont”) que pode ser lido aqui.

Márcio Rodrigues – Colaborador da Agência UVA

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