Crise no mercado editorial brasileiro é reflexo de modelo que não funciona mais

Instabilidade do segmento atingiu editoras, livrarias e até a maior gráfica do país. Agência UVA compilou dados e ouviu especialista. Confira nossa reportagem especial.

No início deste mês, o mercado editorial brasileiro sofreu mais um baque. A RR Donnelley, maior gráfica do país, decretou falência, o que acarretou na demissão de centenas de funcionários e prejuízo para diversas editoras. Até o governo figurou entre os atingidos pelo fechamento repentino da gráfica: a empresa era responsável pela impressão das provas do ENEM. A saída da RR Donnelley do Brasil é resultado de uma sucessão de eventos negativos que mexeu com todo o setor.

Fnac, Livraria Cultura, Saraiva e outras: o mercado de varejo livreiro anda mal das pernas, atingindo editoras, livreiros menores e gráficas. A crise dessas três gigantes foi tão importante que muita gente se esqueceu da falência da Laselva, decretada em março ou que uma das mais relevantes distribuidoras do país, a Bookpartners, também pediu recuperação judicial em 2018.  

Fnac
A francesa Fnac chegou ao país no fim da década de 1990 e foi a primeira grande varejista do setor a encerrar suas atividades em solo brasileiro, em outubro de 2018. A companhia sofreu com prejuízos por anos e após conversas ficou decidido que a Livraria Cultura assumiria a marca no Brasil. Na transação, os franceses pagaram R$130 milhões para a família Herz, donos da Cultura, para assumirem as operações por aqui.

Fnac fechou suas 20 lojas no Brasil, bem como seu e-commerce. Foto: Divulgação. 

A Cultura, querendo dar foco para o e-commerce, aos poucos, começou a fechar as lojas físicas restantes da Fnac. O pensamento era de que a marca continuaria no Brasil, só que fazendo presença apenas no ambiente virtual. Com o fechamento da última loja, localizada em Goiânia, a Cultura também encerrou o e-commerce da marca. Assim, encerrando de forma definitiva, a presença da Fnac por aqui. A saída dos franceses foi o primeiro sintoma da crise que atingiria com força o mercado livreiro do Brasil.

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Livraria Cultura e Saraiva
As duas maiores livrarias do país entraram com pedidos de recuperação judicial no fim do ano passado. Ambas representavam 40% do faturamento das principais editoras do Brasil. A partir disso, é possível mensurar o tamanho do problema.

A Cultura foi a primeira a agir. Poucos dias depois de finalizar por completo a participação da Fnac no mercado, a empresa pediu recuperação judicial, tendo suas dívidas estimadas em pelo menos R$285 milhões. Um mês depois, foi a vez da Saraiva entrar com o pedido de recuperação judicial. A principal concorrente da Cultura apresenta uma dívida de, aproximadamente, R$675 milhões.

Em 2017, reclamações sobre a falta de pagamento por parte da Cultura às editoras começaram a aparecer. Procurando aliviar as contas e mascarar a situação em que a livraria se encontrava, a Cultura aceitou assumir as operações da Fnac. A iniciativa, porém, serviu apenas para aumentar ainda mais os problemas que a livraria brasileira enfrentava.

A Saraiva, procurando reestruturar as operações da companhia, fechou 20 lojas que ocasionaram na demissão de 700 funcionários. A livraria também abandonou segmentos menos rentáveis como o de tecnologia. A Saraiva, no primeiro momento, tentou entrar com um pedido de recuperação extrajudicial ao Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), mas a entidade recusou a proposta alegando que demoraria muito tempo para a livraria quitar suas dívidas ao seus credores e assim forçá-la a entrar com o pedido de recuperação judicial.

Edmour Saiani, sócio-diretor da Ponto de Referência e um dos maiores estudiosos brasileiros do mercado varejista, adverte que a quebra dessas empresas era esperada.

“Esse movimento já era previsível pelo que aconteceu nos Estados Unidos. As grandes livrarias americanas quase desapareceram a partir do fenômeno da Internet. Tanto os livros digitais quanto os livros analógicos são achados e comprados na internet muito mais facilmente. Lá nos Estados Unidos, a Borders desapareceu e quem sobreviveu perdeu muita relevância”, diz Edmour.

Editora Abril

Editora Abril também foi atingida pela crise no mercado editorial. Foto: Reprodução site Editora Abril.

Se a crise chegou aos grandes varejistas, certamente acabaria atingindo também as editoras. A Editora Abril também entrou com pedido de recuperação judicial no meio do ano passado: suas dívidas chegaram a somar cerca de R$1,6 bilhão.

Buscando equilibrar as despesas, a Abril reformulou o seu portfólio de marcas. O objetivo segundo a própria empresa era de “garantir sua saúde operacional em um ambiente de profundas transformações tecnológicas, cujo o impacto vem sendo sentido por todo o setor da mídia”. A lista de 24 títulos, que iam de revistas impressas a sites, foi reduzido para 15. Essa redução ocasionou nas demissões de centenas de funcionários.

Mas a solução final encontrada pelo Grupo Abril foi a venda de 100% das ações da empresa para o empresário Fábio Carvalho, especialista em recuperação de empresas. A família Civita, que era fundadora da marca, recebeu um valor simbólico de R$100 mil pela venda.

Ainda há esperança para o mercado editorial?
A recessão enfrentada pelo setor é o fruto de um modelo de negócios que se mostrou insustentável com o tempo. Livrarias adquiriram o conceito de megastores, oferecendo uma grande variedade de produtos, o que aumentou seus custos de funcionamento, mas não a receita gerada por elas. As editoras concentravam suas vendas em poucos canais, e no momento em que esses canais começaram a ter uma demanda menor, elas passaram a ser as prejudicadas. Uma demanda menor de leitores gera um número menor de publicações, assim atingindo as gráficas. No momento em que uma parte desse mercado entra em crise é questão de tempo até as outras sofrerem o mesmo.

Para Edmour, o mercado editorial também falha na forma como entrega seu produto e opina sobre como mudar esse quadro:

“Acredito que todo o setor deveria pensar em novas formas de entregar seu conteúdo. A leitura é apenas uma das formas pelas quais se absorve informação. É muito fundamentalismo achar que um livro só deve ter palavras escritas, quando se sabe que explorando as inteligências múltiplas, as possibilidades de chegar a um novo cliente se expandem. De certa forma, o livro repetiu o erro das escolas insistindo numa única forma de transmitir conhecimento. A escola no quadro negro e o livro nas letras no papel”, diz ele, enfático. 


Breno Silva – 6° período

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