Política

Entenda os detalhes da viagem presidencial de Bolsonaro aos EUA

Especialistas da Universidade Veiga de Almeida analisam primeira viagem do presidente brasileiro aos Estados Unidos

Especialistas da Universidade Veiga de Almeida analisam primeira viagem oficial do presidente brasileiro à terra de Trump

O presidente Jair Bolsonaro iniciou na última terça-feira (19), nos Estados Unidos, a política de alinhamento ao governo de Donald Trump, mediante a assinatura de acordos, troca de gentilezas e, principalmente, promessas do líder americano em apoiar o Brasil em sua  integração à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e de torná-lo um aliado prioritário extra-OTAN dos Estados Unidos.

Além das promessas citadas acima, Bolsonaro conseguiu um acordo de salvaguardas tecnológicas para uso comercial do Centro de Lançamento de Foguetes de Alcântara, no Maranhão — sujeito à aprovação do Congresso Nacional brasileiro — e a assinatura de protocolos de intenções nas áreas de segurança pública, comércio, energia e meio ambiente, com vistas a futuros acordos comerciais.

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Bolsonaro cumprimenta Trump em sua primeira visita oficial aos Estados Unidos. Foto: Divulgação Planalto

Em contrapartida, o governo brasileiro ofereceu aos Estados Unidos: isenção de vistos para os americanos viajarem ao Brasil a turismo, importação de uma cota anual de 750 toneladas de trigo sem tarifação, estabelecimento de bases para importação de carne suína. Além de concessões na cooperação para a tentativa de destituição de Nicolás Maduro do governo da Venezuela, assunto do qual o presidente Bolsonaro não deu detalhes, mas avalizou a retórica de Donald Trump de “varrer o socialismo das Américas”.

Muito se tem especulado sobre a viagem presidencial, uns contra e outros a favor, especialmente nas redes sociais. Os especialistas ouvidos pela Agência UVA recomendam cautela:

Relações internacionais
André Sena, doutor em História Política e professor de Relações Internacionais da Universidade Veiga de Almeida, não vê grande mudança nas relações diplomáticas Brasil-Estados Unidos, que é uma relação histórica, inclusive tendo sido os Estados Unidos o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil. Para ele, trata-se mais de uma afinidade ideológica entre as administrações Bolsonaro e Trump do que propriamente de uma mudança nas relações entre os dois países.

Com relação ao ingresso do Brasil na OCDE, André assinala que este não é um pleito novo, o atual governo está requentando uma reivindicação antiga da diplomacia brasileira. Já a posição de aliado prioritário extra-OTAN, o Brasil não tem capital diplomático para reivindicar qualquer participação naquela organização. Tratando-se, portanto, e apenas, de uma “proposta” do governo Trump — acenando com uma compensação às generosas ofertas recebidas sem contrapartidas — que será votada pelos demais países membros da aliança e, possivelmente, indeferida.

Quanto ao apoio do Brasil a uma possível intervenção americana na Venezuela, André esclarece que essa possibilidade foi apenas ventilada nas conversas entre os dois presidentes, não havendo nenhum protocolo formal nesse sentido. E que, em segundo lugar, essa medida vai contra os princípios históricos da diplomacia brasileira, que são a resolução pacífica de controvérsias, o respeito à autodeterminação dos povos e ao direito internacional.

Porém, André destaca outro aspecto importante a considerar: ao fazer um discurso de apoio explícito ao presidente autoproclamado da Venezuela Juan Guaidó e ventilar a possibilidade de uma ação militar para destituir Maduro do poder, Bolsonaro está contribuindo para uma possível “revolução de veludo”, sem necessariamente a intenção de chegar a uma intervenção direta.

Sobre as concessões feitas sem contrapartidas, André reconhece que fazem sentido com a política anunciada durante a campanha eleitoral pelo então candidato Bolsonaro e com as propostas liberais do ministro da economia Paulo Guedes:  a isenção de vistos aos americanos (e também a canadenses, australianos e japoneses) pode ser benéfica por atrair pessoas, bens e serviços para o país, favorecendo a fraca indústria brasileira do turismo.

Balanço: Para o professor André, a viagem é muito rápida, com agenda muito curta, e tem basicamente dois significados: o primeiro é confirmar o alinhamento ideológico da direita brasileira com a direita americana e o segundo é reorganizar a relação entre os ideólogos do governo, especialmente Olavo de Carvalho e os militares. É, portanto, uma viagem de cunho profundamente ideológico. No campo das relações internacionais tenta parecer o começo de uma nova relação entre os dois países, quando na verdade é mais do mesmo.

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Comércio internacional: China é o maior parceiro comercial do Brasil na atualidade / Foto: Freepik

Economia internacional
Fernando Padovani, professor de Economia Internacional da UERJ e da Universidade Veiga de Almeida, avalia a estratégia do presidente Bolsonaro como uma sinalização de mudança nos rumos da política externa do Brasil, no sentido de se alinhar com os países de alta renda, principalmente os Estados Unidos, e não mais com os emergentes, como os BRICS. Aliás, no que se refere aos BRICS, a tendência é que o Brasil abandone a coalizão — a Índia já abandonou — e se afaste da Rússia e da China nas votações do bloco, diminuindo, a longo prazo, as relações comerciais com todos os países emergentes.

No caso da mudança de status na Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil abre mão de vantagens como prazos maiores para negociação, licenças para praticar protecionismo a certos produtos e não ser obrigado a adotar certas medidas. Abandonando essa carta, o Brasil busca um comércio de maior valor, mais parcerias e mais investimentos, com os Estados Unidos e outros países (trade-off).

Segundo Padovani, é difícil prever o que vai acontecer no comércio internacional, mas seguindo por esse novo caminho, o Brasil provavelmente deixará os benefícios imediatos da OMC e da escala nas relações comerciais com os emergentes —  como a China, por exemplo — em troca de vantagens futuras e incertas advindas dos Estados Unidos e de outros países. Pode haver recomposição nos resultados do comércio exterior, mas as perdas são imediatas e as compensações são futuras e incertas. A grande incógnita é exatamente o resultado dessa aposta.


Francisco V. Santos / 7º período

2 comentários em “Entenda os detalhes da viagem presidencial de Bolsonaro aos EUA

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