“Verão” é narrativa russa cativante sobre o ícone do rock Viktor Tsoi

O longa difere da imagem que muitos têm de um filme alternativo russo – chato. “Verão”, apesar de ficção, surpreende com um enredo baseado em fatos e quebra de expectativas, tanto narrativas como fotográficas. Além de trabalhar de forma criativa com trilha sonora e ruídos, conta com críticas ao governo da época e um triângulo amoroso.

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Banda Kino Foto: Divulgação

O filme se passa em Leningrado, no início dos anos 80, quando o rock underground fervia antes da abertura promovida pela Perestroika, política introduzida na União Soviética. Diferente do rock ocidental, o contexto russo era marcado pelo contrabando de discos (LP’S) de grandes nomes da música.

Levando em conta esse cenário, o jovem Viktor Tsoi (Teo Yoo) com o apoio de Mike (Roma Zver) e Natasha (Irina Starshenbaum), personagens principais da trama, transformaram os rumos da música na antiga União Soviética.

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O diretor Kirill Serebrennikov Foto: Divulgação

Dirigido por Kirill Cerebrostenia, o filme começou a rodar no verão de 2017, porém as filmagens foram interrompidas em agosto do mesmo ano. Isso porque o diretor foi preso e acusado de apropriação indébita de fundos orçamentários e terminou de montá-lo em prisão domiciliar.

Apesar da polêmica fora das telas, dentro delas ele utiliza uma linguagem quase sarcástica para criticar o governo da época. Diferentemente dos jovens no filme, que parecem não ser afetados com a política e estão mais preocupados com as discussões das letras, os melhores instrumentos e estúdios de gravação.

De maneira ousada e quase despercebida, a narrativa não possui conflitos e nos leva de forma cativante e leve até o seu fim. Os músicos no filme são apresentados longe das imagens esteticamente associadas ao rock ocidental de “sexo, drogas e rock’n’roll”.

A trama caminha sem ter um lugar específico para chegar, apenas mostrar um pouco da história de vida desses rockeiros na época. De forma simplista e sem muitos dramas, fica quase que evidente uma sobreposição de emoções sobre os fatos.

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Viktor, Natasha e Mike em um momento de “tensão” Foto: Divulgação

Exemplo disso, é a forma como o triângulo amoroso é tratado. São três pessoas nitidamente diferentes. Discordam quase que totalmente quanto aos seus gostos musicais, porém têm uma relação um tanto passiva entre eles.

Natasha, esposa de Mike (espécie de mentor de Viktor), aceita tranquilamente a omissão do marido na criação do filho e Mike permite que a esposa dê um beijo em Viktor, até facilitando o encontro entre os dois. Mesmo quando mentor e pupilo discordam, acatam a vontade alheia sem muitas discussões.

Porém, o filme é muito mais que um triângulo amoroso, é uma história de harmonia, conciliações e sobreposições. Rodado em preto e branco, o diretor decide em diversos momentos dividir a tela em três inserindo além da cena, letras de músicas e inserts coloridos trabalhando com aspectos de videoclipe. Se aproveitando desse aspecto, sintetiza isso e sua crítica nas cenas musicais. Caso da cena no trem, em que os jovens cantam “Phyco Killer” – Talking Heads – de forma vibrante, bem filmada e usando recursos que remetem à estética do rock.

A quebra de expectativa, porém, vem sempre após uma cena musical como essa que, ao começarem interativas e animadas, um personagem aparece com uma placa escrito “isso não aconteceu”. Buscando de certa forma um ruído, uma contraposição de cenas, que facilmente será notado pelos espectadores.

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Personagem levantando a placa “Isso Não Aconteceu” em uma das cenas Foto: Divulgação

Além disso, o diretor usa a câmera para focar em coisas que parecem banais, mas com o propósito de dar um tom contemplativo ao filme. A trilha sonora também colabora para uma experiência diferente do que se espera para o filme russo. Com sensibilidade, pontuando pequenos prazeres do dia a dia, de forma simples e divertida, “Verão” traz, sem pudor, a história do artista Viktor Tsoi.

O filme esteve no Festival do Rio do dia 3 ao dia 10 de novembro. Concorre ao Festival de Cannes de 2018 e ao Festival de Hamburgo de 2018 e estreou no Brasil dia 15 de novembro.


Leticia Heffer – 7° período

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