“YouTubers mirins” ganham cada vez mais espaço

A popularidade crescente do site de vídeos YouTube deu início a um fenômeno: o aumento dos chamados “YouTubers mirins”. Com a facilidade de comunicação oferecida pelos meios digitais, a publicidade infantil tem sido motivo de preocupação. Existem diversos canais comandados por crianças e seus próprios pais, que recebem produtos por partes das empresas e, às vezes, até mesmo pagamento para que o objeto seja mostrado.

O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (Conar) pode intervir nesses casos específicos, pois existem leis que proíbem a publicidade infantil. Muitas vezes, as empresas praticam a “publicidade velada”, que é feita de forma implícita. A questão infantil relacionada ao YouTube já virou um embate entre empresas, advogados e poder público.

Em maio de 2016, o Instituto Alana fez uma denúncia ao Ministério Público Federal do Rio de Janeiro contra 15 empresas de diversos setores. O caso está em andamento, hoje, no Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Uma outra representação, contra a empresa Mattel, foi feita em março de 2017. O Promotor de Justiça do MP-SP, Eduardo Dias de Souza Ferreira entendeu que se tratavam de dois procedimentos abertos para investigar o mesmo fato.

As 15 empresas citadas na denúncia de 2016 ao MPF foram: Biotropic (cosméticos), C&A (roupas), Cartoon Network (canal de TV a cabo infantil), Foroni (material escolar), Kidzania (entretenimento), Long Jump e Mattel (brinquedos), McDonald’s (comida), Pampili (sapatos), Puket (meias e pijamas), Ri Happy (loja de brinquedos), SBT (canal de TV aberta), Sestini (mochilas) e Tilibra (papelaria).

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A facilidade de acesso ao celular faz com que muitas crianças passem horas assistindo vídeos do YouTube Foto: FreePik

O papel do CONAR vem sendo questionado, já que, no YouTube o volume de conteúdo é enorme e os próprios YouTubers têm pouco ou nenhum conhecimento das regras. No Reino Unido, a ASA (Advertising Standards Authority) criou, em 2015, uma série de regras voltadas especificamente para o meio dos vloggers, o que até então não existia.

OS ESPECTADORES DO SEGMENTO

Com apenas três anos de idade, Mariana Barcelos já ama assistir vídeos no YouTube e faz questão de escolher seus canais preferidos. No início, ela via episódios de desenhos no celular da mãe, até que aprendeu a usar a plataforma e fazer suas próprias escolhas por meio das sugestões do aplicativo.

“A pior coisa que eu fiz foi deixar Mariana assistir isso”, diz a mãe.

Hoje, a esteticista Melissa Barcelos, de 31 anos, tenta fazer com que Mariana deixe de assistir aos chamados “YouTubers mirins”, pois já nota que a paixão da filha pelos produtos apresentados cresce a cada dia. Os vídeos são basicamente os mesmos, com adultos e crianças se divertindo com brinquedos de determinadas marcas.

A mãe observa que a filha passou a fazer coisas sem sua autorização depois dos vídeos e que hoje quer comprar tudo o que vê pela frente. Melissa afirma que a menina não era assim antes disso, e que, quando a pergunta onde aprendeu, ela confirma que foi no YouTube.

Mesmo apagando o histórico, os registros e afirmando que não há interesse no conteúdo, Melissa diz que as sugestões dos vídeos voltam a aparecer. Ela conta que, em muitos casos, é nítido que as crianças estão sendo forçadas pelos próprios pais a gravar.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

“A criança, por não ter consciência crítica ainda muito desenvolvida, se torna vulnerável e facilmente persuadida”, analisa a pedagoga Hozana Cavalcante, de 51 anos.

A especialista diz que os pais e responsáveis devem monitorar constantemente as crianças. Hozana afirma ainda que a publicidade voltada ao público infantil é geralmente abusiva e conduz a um consumismo prejudicial e sem medidas. Ela alega que é muito importante que a educação contribua com campanhas de sensibilização e conscientização dos próprios estudantes, os orientando sobre os cuidados e abusos presentes nesse meio.

“Precisamos formar sujeitos éticos, conscientes e com participação social, que visam a transformação”, afirma a pedagoga.

Hozana acredita que os professores, que lidam diariamente com as crianças, percebem quando algo está fora da normalidade e que a escola deve aproveitar momentos oportunos, quando percebe que um tema deve ser melhor explorado. O objetivo de tais ações seria ensinar as crianças a ter um pensamento crítico e a não serem facilmente manipuladas e engolidas por uma sociedade de extremo consumo.

Para a advogada do programa Criança e Consumo do Instituto Alana, Livia Cattaruzzi, as  leis existentes são suficientes para regular a publicidade infantil. Ela cita o Parágrafo 2° do Artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor, que diz: “É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.”

“As empresas precisam ter respeito pela lei já existente, os órgãos públicos tem o dever de fiscalizar e o judiciário de aplicar as leis quando necessário”, admite Livia.

O Instituto Alana, por meio do seu programa Criança e Consumo, atua identificando casos e tenta algum tipo de diálogo com as empresas. Quando isso não dá certo, é enviada uma representação ao órgão público competente para que investiguem e resolvam o caso.

A advogada ainda lembra a resolução de 2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA, que ajuda na identificação dos casos de publicidade infantil e tem poder de lei. “Dispõe sobre a abusividade do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente”.

Para Livia, o uso da plataforma por crianças não é o problema, pois ela acredita ser bom que a mesma tenha voz e espaço para se expressar. O perigo está nas empresas que veem ali uma oportunidade de fazer publicidade infantil. Outros riscos como vídeos com conteúdo impróprio também são um problema, já que as crianças navegam livremente pelo aplicativo.


Thaiane Barcelos – 6º período

 

 

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