Oficina para combater Fake News acontece em várias cidades brasileiras

Projeto leva o ensino e o debate sobre o jornalismo para dentro das salas de aula

No atual momento, em que muito se discute sobre fake news, poucas propostas concretas surgem para solucionar o problema. Isso não quer dizer que não haja ninguém procurando reverter o atual cenário da comunicação, que está inundado de notícias falsas. Assim, o Énois, Escola e Laboratório aberto de Jornalismo, lançou oficinas gratuitas para professores (principalmente do Ensino Médio) para a aplicação da metodologia da Escola de Jornalismo em sala de aula, em diversas cidades.

O projeto visa oferecer o conhecimento das teorias e práticas jornalísticas, como o processo de criação da pauta e de distribuição da notícia, aos professores e às professoras do Ensino Médio, possibilitando a construção de projetos que apliquem o conteúdo aprendido em sala de aula. Baseado na interdisciplinaridade do ensino, a oficina pretende aproximar as escolas da sociedade e incentivar o aproveitamento de recursos multimídia, além de oferecer ferramentas para que os professores possam ensinar aos alunos qual a melhor forma de agir diante de uma fake news. A inscrição para participar das oficinas pode ser feita aqui.

Dentro da Escola de Jornalismo (EJ), o Énois criou o projeto ChecaZap, onde os jovens participantes da EJ fazem a checagem semanal de fatos e boatos distribuídos por meio do aplicativo de conversas WhatsApp. Durante as eleições, diversas fake news foram detectadas pelo grupo. Vinícius Cordeiro, jornalista e videomaker no Énois, explica que a formação da Escola de Jornalismo dura cerca de dez meses e é dividida em três módulos. Cada módulo termina com a entrega de um produto jornalístico, que pode ser um mini documentário, uma reportagem multimídia ou, por exemplo, um projeto de checagem de notícias que circulam por aplicativos e que possam interferir no processo eleitoral, como foi o caso do Checazap.

“O módulo passado contemplou desde debates sobre ‘como a gente pensa como pensa’, ‘sistema político brasileiro’, ‘retórica’ e, mais precisamente, sobre ‘fake news’, para, no fim, apurar em mais de 300 grupos, fatos e boatos que estavam circulando. As checagens foram publicadas em veículos como CBN, Huffpost Brasil, Quebrando o Tabu e também na rede social Twitter. Durante esse processo, a galera entendeu a importância da checagem do que chega para nós nas redes sociais, pra que não espalhemos desinformações”, explica Vinícius.

Além do trabalho no desenvolvimento jornalístico, o Énois realiza, através da plataforma Diversa, estudos sobre diversidade racial e sexual nas redações do Brasil e do mundo. O último newsletter da Diversa, de junho de 2018, intitulado “Precisa-se de jornalistas negros além da raça”, apontou que 74% das redações do país não possuem ações voltadas à diversidade e que cerca de 40% dos jornalistas já sofreram alguma discriminação racial no trabalho.

Turma Escola de Jornalismo 2018

Alunos da turma de 2018 da Escola de Jornalismo Foto: Divulgação / Énois

A Agência UVA conversou com Amanda Rahra, co-fundadora da Escola de Jornalismo da Énois, sobre as inspirações do coletivo, assim como sobre soluções para minimizar os efeitos das fake news em nossa sociedade.

Agência UVA: Quais são as bases teóricas da Escola de Jornalismo e de onde veio a inspiração para criá-la?

Amanda Rahra: Nossa base teórica é a prática, a gente não vem da educação, criamos uma figura de interesse público com a Escola de Jornalismo. Há 10 anos, em janeiro de 2009, fomos fazer um trabalho voluntário na Casa do Zezinho, no Parque Santo Antônio (SP), para fazermos uma fanzine e então, começamos a conversar sobre jornalismo e produção. De cinco semana que iríamos ficar, acabamos passando cinco meses com eles e os cinco jovens que queriam fazer a fanzine, acabaram se tornando trinta jovens que queriam produzir uma revista completa com as pautas. Então fomos apoiando e conseguindo parcerias com gráficas, fotógrafos, publicitários e aí fizemos três mil exemplares, que os jovens distribuíram em suas escolas. Esse episódio mudou nossa vida e nos levou para a formação em jornalismo, ou seja, nos tirou da redação e nos colocou na Oficina de Jornalismo, que foi criada a partir daí.

Zzine (primeira revista)

Primeira fanzine criada pelos jovens da Casa do Zezinho Foto: Divulgação / Énois

AU: Pode falar um pouco sobre a metodologia? Quais tópicos são ensinados?

AR: Dez anos depois do início na Casa do Zezinho, conseguimos lançar a Oficina de Jornalismo nas escolas e entender o processo. Nossa metodologia é formada em 3 U’s, que são três processos investigativos: a descida do U é um processo de abertura, onde trazemos profissionais do mercado e contextos de temas, recortes da pauta, especialistas do tema e, assim, temos aulas de pauta, técnica de entrevistas, apuração de dados, roteiro em vídeos e áudios, técnicas de som. Ou seja, a descida do U é sempre a parte de formação e a parte teórica.

Na parte da base do U, no centro dele, é nossa imersão, quando tiramos o jovem do contexto de sala de aula. Uma vez levamos eles para um restaurante coreano, por exemplo, para eles entenderem os quesitos de gastronomia desse território, ou seja, retiramos eles do contexto de sala de aula, para uma reunião de pauta dentro do objeto de estudo. Na subida do U, junto às duas etapas anteriores, a questão teórica aprendida na primeira etapa é praticada agora com base na reunião sob imersão da “base do U”, e então, decidimos o que podemos fazer com sua pauta, com os processos de apurações e subimos até a produção e os tópicos teóricos são praticados até o processo de distribuição.

AU: Em tempos de difusão de fake news, como a Escola de Jornalismo pode auxiliar a educação a se tornar crítica e ajudar os jovens a identificar informações falsas?

AR: Em tempos de fake news, a existência da Escola de Jornalismo é fundamental. Como jornalistas, estamos fechados em um mundo bastante restrito econômica, social e politicamente, porém, nosso trabalho na escola é com jovens vindos de periferias e que vão ocupar estes espaços nas redações, tornando-as mais diversas, assim como dando às pautas novos olhares, inclusive inserindo nelas o discurso e o debate sobre gênero e raça – pois quando se fala de mulheres e negros, estamos falando das maiorias populacionais do país, e assim, traz à essa nova visão sobre pautas, o interesse público de poder falar com essas populações.

Ou seja, levamos interesse público para dentro das redações, que é uma das funções do Énois, que inclusive solidifica o combate às fake news, pois dá mais complexidade ao diálogo e diversidade aos pensamentos jornalísticos. Por outro lado, como sintetizamos nossa metodologia, esse é o primeiro ano de formação de professores, em que explicamos onde tem todas essas informações, para que os professores as levem para dentro das salas de aula formais, assim como em seus projetos sociais, ONG’s e outros espaços educativos. É muito importante reforçarmos e mostrarmos os códigos do jornalismo para poder educar as pessoas no sentido do que é fake news, da diferença entre repórter e o cidadão comum. É fundamental que a Escola de Jornalismo exista em tempos de fake news e também que o jornalismo se posicione de forma mais complexa e aprofundada nessa leitura da realidade, pois já há uma varredura das redes sociais sobre a informação. O trabalho do jornalista nos tempos atuais é de como organizá-las.

AU: Qual a relação do Énois com a Escola de Jornalismo?

AR: O Énois é a nossa “marca maior” e no guarda-chuva da Énois, há a Escola de Jornalismo, que é uma associação sem fins lucrativos onde os jovens podem passar por esse processo de formação durante um ano e passam também por um processo seletivo para entrar na escola. Também temos a Agência de Jornalismo Énois, em que vendemos pautas para grandes veículos e onde colocamos o pessoal em formação para trabalhar.


Daniel Romão – 8º período  (Texto para a disciplina de ED de Oficina de Jornalismo)

 

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