Poeta e escritor Caio Fernando Abreu resiste ao tempo

Caio Fernando Abreu completaria 70 anos na última quarta-feira (12). Nascido no interior do Rio Grande do Sul, o menino que sempre quis ser poeta faleceu em 1996, aos 47 anos, de complicações decorrentes do vírus da Aids. Sua história, porém, não morreu com seu corpo: Caio deixou para trás uma vasta produção textual, indo do conto ao romance e se aventurando pelos caminhos da poesia e da crônica.

Não é por acaso que sua cidade natal, Santiago do Boqueirão, ficou conhecida como a “Terra dos Poetas”. Apesar de ter começado a produzir textos ainda criança, e até mesmo ganhado um concurso de romances aos 13 anos, foi só quando se mudou para Porto Alegre, inicialmente para cursar Letras, que passou a viver do que amava. Um ano depois, largou a universidade para colaborar com revistas e jornais.

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Foto: Instagram/Ana Clara Tissot

Escreveu para as revistas Manchete, Nova e foi também um dos primeiros colunistas da revista Veja. Caio estava próximo de atingir a maioridade quando ocorreu o golpe militar, em 1964. O recrudescimento da ditadura, em 1968, fez com que a censura se intensificasse e os textos do escritor, que abordavam temas como o sexo e a solidão, viraram alvo.

Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como – eu estou aqui, eu te toco também.

Caio Fernando Abreu em crônica publicada no Estadão, em 29/07/87

Encontrou refúgio na Casa do Sol, sítio que a amiga e também escritora Hilda Hilst mantinha no interior de São Paulo. Já nos anos 70, se exilou e passou por diversos países da Europa, como Inglaterra, Suécia e França. As experiências estrangeiras tiveram profundo impacto na escrita de Caio: ele sentia e falava sobre a experiência do diferente, sobre o medo da vida, o medo da morte.

– Caio, por meio de uma linguagem mais solta, próxima ao coloquial, mesclou poesia e prosa em suas produções, explicitando uma intensidade única, característica marcante em uma produção literária de caráter reflexivo, intimista, mas, sobretudo, libertária – explica Jéssica Accioly, professora de Literatura.

Talvez por ironia do destino, o fascínio por Caio alcançou seu ápice mais de uma década após sua morte. Impulsionado pela internet, ele passou a ser curtido, repercutido e compartilhado, nessas atitudes tão caras às redes sociais. Afinal, quase tudo sobre o que escreveu é atual como nunca. A forma de ver o mundo que o escritor possuía acaba ressonando entre muitas pessoas hoje em dia.

– De uns anos pra cá, observou-se o “boom” Caio F. Abreu na internet. Pessoas vêm postando, em diferentes redes sociais, trechos de obras do autor que abordam temáticas como relacionamentos, felicidade e solidão, além de trechos com colocações do escritor sobre política e desigualdades, questões incessantemente discutidas nos dias atuais. Os temas atemporais abordados por Caio em seus textos explicam o interesse dos jovens por suas colocações que, mesmo compartilhadas fora de contexto, fazem com que o escritor se torne cada vez mais popular entre as novas gerações – complementa Jéssica.

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Doodle do Google em homenagem ao aniversário de Caio Fernando Abreu em 12/9.

Mas, como não podia deixar de ser, a internet também funciona de forma traiçoeira. Muitos textos apócrifos são atribuídos a Caio, e até mesmo textos conhecidos de outros autores são compartilhados com a assinatura dele. Apesar disso, é certo que o crescente interesse por sua obra fez com que ela fosse tratada com mais cuidado. Quase todos os livros de Caio, entre eles o célebre “Morangos Mofados” (1982) e seu primeiro romance, “Limite Branco”, (1970) ganharam reedições.

Materiais inéditos, como poemas, contos e cartas, foram publicados. Também foram lançados, nos últimos anos, peças, espetáculos e filmes, como o documentário “Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes” (2013), de Bruno Polidoro. Em comemoração ao seu 70° aniversário, as irmãs de Caio ajudaram a organizar a exposição “Doces memórias”, em cartaz no Museu Nacional da República, em Brasília, e o Google mudou sua logo para um doodle do autor. Sem falar nas biografias, a mais completa delas feita por Paula Dip, amiga de longa data de Caio. “Para sempre teu, Caio F.” é uma ode não só ao escritor, mas também ao ser humano que ele foi.

E a mágica de Caio F. foi sua caneta.

 

 


Camilla Castilho – 8º Período

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