Um lado quase esquecido: profissão ‘Polícia’

O drama dos policias que sofrem com a brutalidade do trabalho, legado da Ditadura Militar

A violência não ocorre apenas com os manifestantes e moradores de comunidades, no Brasil, a rotina dos agentes penitenciários são cheias de pressões internas que acabam levando milhares deles a procurarem tratamentos psicológicos. Foi o que aconteceu com Júlio Salvatore, de 40 anos, que teve que se afastar do presídio onde trabalha há seis anos, por desgaste físico e emocional. “Eu não conseguia separar o ambiente profissional do doméstico. Chegava em casa estressado, o que me distanciou do meu filho, tornando a relação ainda mais difícil”, explicou.

Quem comanda o presídio são os presos. Negociam acordos e a direção é obrigada a aceitar às propostas (Júlio Salvatore)

Segundo ele, a falta de efetivo dentro dos presídios sobrecarregam os agentes durante os dias de visita, sem falar que não podem reclamar com os diretores que, cobram sem oferecer o mínimo. Ele acrescenta que presenciou vários colegas de trabalho receberem punição regional após questionarem às irregularidades; além de receber constantes ameaças dos detentos e ser obrigado a criar diálogo com os criminosos. “Quem comanda o presídio são os presos. Negociam acordos e a direção é obrigada a aceitar às propostas. Afinal de contas, é de praxe o Estado usar paliativos para abafar escândalos. Enquanto dá para esconder esse cadáver vão fazer, uma hora atrairão às moscas, e todos verão o quanto é podre o sistema”.

O sonho de trabalhar próximo de casa era satisfatório. Julio gastava de sua casa até o Complexo de Gericinó meia hora. Mas com o tempo, o que era próximo se tornou distante. “Difícil era dirigir todas as manhãs e saber que durante às próximas 24 horas estaria preso ali”, desabafou. Não demorou muito para que a escala sofresse alterações. Os plantões se tornaram inquietantes devido à possíveis rebeliões. “Fomos treinados para lidar com os monstros que todos temem; somos nós que olhamos nos olhos de assassinos cruéis”. Para ele, o presídio deixou de punir e passou a cumprir a função de colônia de férias.

O salário dos profissionais de segurança é um outro fator que tira o sono de Júlio, que diz estar trabalhando além da carga horária que é de 40 horas semanais; atualmente, chega a trabalhar 44 horas, sem adicional noturno e recebe apenas R$100 de insalubridade. “Nossa profissão possui o maior grau de risco e quem recebe mais benefícios são os detentos”. Ele acrescenta que lidar com a ilegalidade dos colegas de profissão é uma tarefa de resistência. “Os agentes penitenciários se tornaram os serviçais dos criminosos; várias organizações criminosas coexistem lá dentro. Uma relação simbiótica entre carcereiros e criminosos”, disparou.

No dia desta entrevista, Júlio estava com as malas prontas e o caminhão da mudança estava estacionado na frente de sua casa. Se mudaria definitivamente para um balneário. Quando questionado sobre o que faria em sua nova fase,  foi enfático: “Vou desintoxicar minha alma, vou me dedicar ao Direito, minha primeira profissão”. O motivo da mudança só foi dito quando já havia desligado o gravador: “Durante um plantão, realizei uma revista em um colega de trabalho, encontrei dois aparelhos de celulares que se tornariam armas nas mãos dos presos”, finalizou.


Matheus Ambrósio 

Reportagem realizada para a disciplina de Oficina Multimídia

 

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