As manifestações políticas dentro dos estádios e a opinião pública

O esporte está ligado à cultura de um país. Estádios cheios, a paixão que exala das arquibancadas e toda mídia que o espetáculo atrai. Isso faz pensar no papel dos atletas na construção social. Desde o fim do século XIX, quando o esporte se estruturou na forma que é conhecido atualmente, os eventos desportivos têm sido palco de diversas manifestações políticas. Diante disso, surge a dúvida: será que política e esporte combinam?

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Esporte x Política: Manifestações nos Estádios – por: Thayná Duarte

O jornalista Tiago Leifert, em fevereiro, fez uma publicação em sua coluna, no site GQ, da Editora Globo, que acabou gerando um grande debate. Ele se pronunciou, dizendo acreditar que manifestações políticas e esportes não combinavam, sendo um momento para descontração do público e não para discussões, pois o atleta veste a camisa de um clube e não deve envolver interesses individuais nisso, podendo comprometer seu trabalho, ou até perder a admiração de torcedores que possuem uma posição contrária. Mas para Luiz Rojo, especializado em antropologia do esporte, da Universidade Federal Fluminense (UFF), não há como separar o esporte da política: “o esporte como qualquer esfera da sociedade é atravessado pela política, logo inexiste a possibilidade de se desligar de assuntos que afetam a sociedade. A questão está na forma como esses assuntos são abordados.”

Na publicação, Tiago Leifert ainda citou o caso da manifestação em que Colin Kaepernick, jogador de futebol americano protesta contra o racismo, se ajoelhando enquanto o hino nacional tocava, e que após o ato acabou desempregado. Para o jornalista, nenhum time irá contratar o atleta novamente, pois ninguém gostaria de ter um causador de problemas. Dessa forma, Luiz Rojo comenta que o atleta pode e tem o dever como cidadão de se expressar politicamente, pois o esporte é uma parte muito importante da sociedade, como tal é atravessado pela política, logo também se torna uma via para expor indignação ou até mesmo promover mudanças sociais, como houve com os Panteras Negras nas Olimpíadas ou com as Coreias jogando sob uma mesma bandeira nos jogos de inverno: “proclamar-se um cidadão que não liga para questões políticas não caracteriza um ato político, pelo contrário”.

 

 

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O colunista do blog “Condição Legal”, Leonardo Leal, fanático por futebol, discorda completamente da opinião de Tiago Leifert: “não tem como não ligar esporte a política”, mencionando a origem da “Libertadores da América” – principal competição da América do Sul – cujo o nome surgiu em honra aos líderes da independência dos países latino-americanos, entrando inclusive nessa homenagem Dom Pedro I (proclamador da independência do Brasil). Ainda, diz não gostar da seleção da Itália por realizar duas Copas do Mundo pela ditadura na época, onde nos anos de 1934 e 38 ocorreram roubos absurdos e ninguém podia anular por ameças de Mussolini. Leonardo finaliza  contando: “o goleiro da Hungria (vice em 1938), disse que ao aceitar a derrota salvou 11 vidas”.

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Em março deste ano, quando ocorreu o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes – a morte deles significou algo contraditório num país que se diz democrático, como o Brasil – após, diversos atos de manifestações em defesa das vítimas aconteceram dentro dos estádios, como no de Minas Gerais e outro no Rio Grande do Sul, e dessa vez o ato veio por parte da torcida, que estendia uma faixa com a #MariellePresente –  a hashtag ganhou grande visibilidade rapidamente nas redes sociais – e foi retirada pelos seguranças do local. No Rio de Janeiro, ao cantar, a torcida do Bangu foi reprimida. Certamente, as atitudes de repressão foram duramente criticadas, e os administradores dos estádios foram acusados de ir contra a lei do Estatuto do Torcedor, além de ferir a liberdade de expressão.
O clube do Vasco se posicionou estendendo em um dos seus jogos, uma faixa com a frase “Somos Todos Marielle”,  enquanto o time do Flamengo, no jogo do dia 18 de Março, utilizou uma fita preta em seu uniforme.

 

O professor de sociologia (CAp-UERJ), Walace Ferreira, acredita que o atleta possui um papel importante no cenário político da sociedade, e, se for renomado, influenciará no comportamento do indivíduo, relembrando um acontecimento do Brasileirão de 1977, onde o artilheiro Reinaldo, atacante do Atlético -MG, celebrava seus gols com os braço erguido e punho cerrado, um símbolo socialista, referência dos Panteras Negras (partido revolucionário fundado para proteger negros dos abusos policiais nos Estados Unidos). O ato fez com que o jornal independente ‘Movimento’ publicasse uma entrevista com o atleta, com o título ” Reinaldo, bom de bola e bom de cuca”. Na Copa de 1978, ao repetir o gesto, acabou sendo retirado do time pela Confederação Brasileira de Desportos, e ao ser apresentado ao presidente da época, general Ernesto Geisel, recebeu um aviso do próprio, pedindo para que ele cuidasse apenas do futebol.

O sociólogo, que elaborou o artigo “Esporte e Política em ano de Copa do Mundo” , também comenta que o papel tanto de atletas, quanto ex-atletas, é o de expor um movimento político que precisa de notoriedade. Ao falar com a população, esses atletas possuem uma maior influência, conscientizando o indivíduo em relação dos seus direitos e deveres. Porém, é importante que o cidadão, e toda a sociedade tenha opinião própria, sem deixar se levar apenas pela posição política de “famosos”, devendo romper com o efeito de alienação, sendo capaz de exercer com independência a cidadania política.


 Pablo Iago / Thayná Duarte 

Reportagem desenvolvida para a disciplina de Oficina Multimídia

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