A pornochanchada e a manutenção do cinema nacional

Na década de 70, o Brasil passava por um momento de forte repreensão e falta de liberdade de expressão. Uma época em que a arte era pouco explorada, pois praticamente tudo era censurado. Não foi diferente com a indústria cinematográfica, já que parte dos filmes eram cortados por cenas consideradas inadequadas, o que prejudicava em muito a obra por completa. Havia também neste período uma cota para exibição de filmes nacionais, o que e de certa maneira aumentava a bilheteria das produções em geral.

Um gênero que ganhou prestígio foi a pornochanchada – uma mistura da chanchada, que era influenciada pelos musicais de Hollywood, com o erotismo. Mas mesmo assim, a questão erótica dos filmes não era exatamente o sexo explícito. A pornochanchada se caracterizava muita das vezes por ser apelativa, maliciosa e com mensagens de duplo sentido, além de ter como prioridade a exibição dos corpos femininos.

Um cinema completamente diferente deste era o movimento Cinema Novo, que se consolidou na década de 60, e, assim como as pornochanchadas, também se baseava em um modelo de produção de baixo orçamento, mas que era pautado pelos acontecimentos reais da época. Um cinema revolucionário que naturalmente não poderia se sustentar em um regime totalitário como a Ditadura Militar. “A pornochanchada nacional nasce num momento de supressão da liberdade, de conservadorismo e implacável censura, o AI-5”, analisa o crítico de cinema Adolfo Gomes em entrevista concedida ao Ponto C de Cinema. Segundo ele, era preciso buscar caminhos para continuar a produção. “O cinema brasileiro se polarizava entre a reputação que conquistou, sobretudo no cenário internacional, e a necessidade de sobreviver”.

E para manter “vivo” o cinema nacional, os jovens cineastas procuravam entreter o público muito mais que informar, as pornochanchadas, em grande maioria, se limitavam a seguir a mesma fórmula clichê, sem nenhuma invenção, mas assim como cita Adolfo Gomes, existem muitas películas interessantes e inovadoras para a época. “ É um trabalho de garimpagem mesmo, mas sempre com a possibilidade de descoberta de algumas pepitas genuínas, ocultas, só esperando por um olhar livre e despojado de preconceitos”. O crítico cita filmes como “O palácio de vênus”, “A dama da zona” e “O Mulherengo”. Mas elogia mesmo Jean Garret, responsável por filmes sofisticados como “Noite em Chamas” e “Mulher, Mulher”.

Grandes sucessos da Pornochanchada

 

Os cineastas não tinham medo do ridículo, e está é uma grande característica das obras das pornochanchadas. “ Às vezes ser autor é prejudicial, aprisiona o olhar. Um bom cineasta é sempre inventivo, não importa as limitações econômicas e imposições externas”, explica Adolfo Gomes. Com a temática sempre interessada no feminino, o filme de maior destaque do gênero é “A Dama da Lotação” (1978), de Laville de Almeida, que conquistou um público de 6.509.134 e foi o terceiro filme brasileiro com maior bilheteria da história. É protagonizado por Sônia Braga e conta a história de Solange, uma mulher que é estuprada na noite de núpcias. Depois da violência sofrida pela personagem, esta fica traumatizada, e mesmo não conseguindo mais ter relações com o marido continua a amá-lo. Solange passa a sair com homens que conhece dentro dos transportes públicos.

Não há um consenso entre os críticos de cinema sobre a real relevância dos filmes da pornochanchada, já que para alguns, as obras serviram para desviar a atenção da população sobre os reais conflitos e problemas sociais que o país enfrentava. “Por esses motivos, e por ter substituído o Cinema Novo como ponto principal do cinema brasileiro, muitos filmes da pornochanchada são comumente tachados de arte menor pela crítica de cinema”, ressalta o jornalista e editor do site Vortex Cultural, Filipe Pereira. Mas por outro lado há quem acredite que alguns filmes possuíam mensagens interessantes, pois discutiam questões importantes da época, como o papel da mulher na sociedade. “A postura de Solange após ter sido estuprada é se culpar, imitando a realidade de inúmeras mulheres que se sentem responsáveis por sofrer violência sexual, ainda mais num ambiente domiciliar”, explica Pereira.

Mas ainda neste conflito de ideias, ele concorda que de modo geral muitas das obras do gênero soam sexistas, mesmo contendo muita ironia. E ainda cita outras obras baseadas nos contos de Nelson Rodrigues, que é também conhecido como o “anjo pornográfico”. Mesmo se dizendo reacionário, Nelson possuía contos evocando a revolução sexual que corria o mundo. “A liberdade de Solange é mais uma dessas manifestações dúbias. Por um lado, a mulher é tratada como libertina e infiel, por outro, a revanche é abordada como um ato de justiça pela violência inicial”, explica o jornalista.

Assim como a ditadura, ao fim da década de 80 o gênero não teve continuidade. Além de extinta as cotas de exibição dos filmes nacionais, outro fator contribuiu para o declínio do gênero: a produção de filmes de sexo explícito, conhecido como pornô hardcore. E a temática se esgotou, já que de um modo geral não existiam autores nas pornochanchadas. “Eles não se levavam assim tanto a sério, não tinham uma reputação a zelar, por isso se arriscavam a filmar a paixão de uma mulher por seu cavalo com tanta naturalidade e elegância”, ressalta Adolfo Gomes, citando o filme “Mulher, Mulher” de Jean Garret.


 Thayssa Freitas 

Reportagem realizada para a disciplina de reportagem multimídia

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