As diferenças entre o cinema de 1970 e o atual

O cinema está presente na vida dos brasileiros desde o ano de 1896. E durante todos estes anos apenas conseguiu consolidar sua posição de um dos entretenimentos prediletos das pessoas. Os anos 70 no Brasil eram muito diferentes dos que temos a oportunidade de ter hoje, para começar, as grandes salas, que de tão grandes acabaram se transformando em teatros em muitos casos, eram acessadas diretamente da rua. Por isso eram chamados de cinema de rua, pois não ficavam dentro de outros complexos comerciais. “Temos tendência a colocar os anos 70 como dominados pela pornochanchada, mas não é verdade. Essa década tem outros prismas de produção como o cinema marginal e a influência da Embrafilme.” Ressalta Marcelo Muller, crítico e professor de cinema da escola darcy Ribeiro.

Além disso, os cinemas que existiam no país iam acompanhando as evoluções apresentadas no estrangeiro aos poucos, com um certo atraso. O mesmo valia também para agenda de estreias. Outra característica do comportamento nas salas de cinemas dos anos 70 era o fato de que as pessoas podiam fumar dentro das salas. Aliás, nesta década as pessoas podiam fumar em praticamente qualquer lugar fechado. Apesar de existir a estrutura física, nessa década os brasileiros conviviam com a ditadura militar, por isso nem todos os filmes feitos no exterior conseguiram estrear por aqui. Todos tinham que passar pela análise dos censores, e isso acabava sendo um grande filtro. Uma outra característica do cinema da década de 70 no Brasil é o fato que os brasileiros passaram a fazer mais filmes nacionais.

O Cinema Novo tinha conseguido um reconhecimento inédito além de ser consagrado em festivais considerados artísticos, como Veneza e Cannes. Embora agradasse plateias estudantis e intelectualizadas, ainda carecia de uma penetração maior entre o público mais amplo de classe média no Brasil. O Estado dominado pelos militares, por sua vez, sabia que não podia sufocar completamente o cinema brasileiro, já cercado pela grande indústria de Hollywood, que dominava o mercado. Era preciso apoiar a indústria do cinema, sempre evitando que ela radicalizasse suas críticas ao regime. Para isso mesmo é que havia a censura. Nosso cinema vivenciou um paradoxo. Era apoiado financeiramente pelo mesmo Estado autoritário que praticava a censura.

Abordando o tema da sexualidade de uma forma mais questionável, do ponto de vista estético e dramático, surgiu no início dos anos 1970 o gênero cinematográfico que ficou conhecido como “pornochanchada”. A origem de seu nome vêm da mistura da chanchada (forte influência dos musicais de Hollywood) com o erotismo, o que na época acabou marcando o cinema brasileiro como sinônimo de nudez e palavrões, usando quase sempre temáticas parecidas, como sexo, violência, extorsão, elementos estes que representavam bem a região da “ Boca do Lixo ”, onde teve seu auge. De acordo com Marcelo: “Os filmes eram cômicos e irônicos mas que também serviam para fazer críticas de cunho social.”

Geralmente, esses filmes eram produções muito baratas, feitas em estúdios improvisados, com atores e atrizes desconhecidos, a maioria deles sem talento dramático, mas com alguma beleza física. As histórias eram variações dentro do mesmo tema: a traição conjugal, as estratégias de conquista amorosa, as moças do interior que se “perdiam” na cidade grande, as relações entre patrões e empregadas ou entre chefes e secretárias. Curiosamente, nem a censura oficial, nem os cineastas de esquerda gostavam dessa estética, julgada imoral pela primeira, e alienada e grotesca pelos segundos.

Em comparação com as décadas seguintes, durante o governo Collor, os filmes brasileiros e seus diversos públicos praticamente desapareceram. A partir da segunda metade dos anos 90, as produções nacionais que surgiram passaram a retratar mais a fundo o Brasil, que se encontrava em franca expansão neoliberal e tecnológica, com o advento da internet. Filmes independentes que marcaram a retomada que refletiam a urgência de tratar de temas que eram prementes e calavam fundo no país pós-redemocratização, tais como os bastidores da ditadura, o exílio, a violência urbana e o resgate da nossa própria história, sempre omitida ou mal contada. Apesar da importância desses diretores e do sucesso de seus filmes entre uma parcela do público, eles estavam longe de ter o grande alcance desfrutado pelo cinema nacional em décadas anteriores, principalmente entre os anos 1950 e 1970.

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(Crédito: Larissa Mendes)


A partir dos anos 2000, o Brasil passa a produzir seus blockbusters com a ascensão da Globo Filmes, que estrategicamente transportou para o cinema a estética televisiva das novelas e minisséries da Rede Globo, trazendo aos cinemas um público ávido por ver seus ídolos da TV na tela grande. Filmes como O Auto da Compadecida (2000) e Lisbela e o Prisioneiro (2003), ambos dirigidos por Guel Arraes, ou Os Normais (2003) de José Alvarenga Junior e Sexo, Amor e Traição (2004) de Jorge Fernando, tiveram grande sucesso comercial e foram os embriões de várias comédias “globais” de apelo fácil e pouca criatividade que viriam nos anos seguintes e se estendem até os dias atuais.

Outra vertente popular do cinema brasileiro a partir do início deste século é o chamado favela movie, que mistura ação policial, guerra ao tráfico e violência, em produções caprichadas que tendem a espetacularizar a miséria e o cotidiano das favelas, usando narrativa realista e tratamento estilizado da forma. Cidade de Deus (2002) dirigido por Fernando Meirelles, fundador da prestigiada produtora O2 Filmes, inaugurou este gênero, que caiu no gosto do público. Outros dois filmes polêmicos dentro deste gênero, dirigidos por José Padilha e de grande sucesso no Brasil, foram Tropa de Elite (2007) e sua continuação Tropa de Elite 2 (2010), a maior bilheteria do cinema nacional até hoje, com 11 milhões de espectadores, desbancando o recorde de 10.3 milhões de espectadores que assistiram à versão cinematográfica do livro de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), dirigida por Bruno Barreto.

Um filme brasileiro importante lançado no começo do século, de grande sucesso comercial e que foge da estética do blockbuster e do favela movie, foi Carandiru (2003), dirigido pelo veterano Hector Babenco. O filme narra a dura realidade dos presídios do país, que culminou com o massacre de 111 presos pela polícia de São Paulo na Casa de Detenção do Carandiru em 1992. O filme teve a façanha de levar quase 5 milhões de espectadores aos cinemas na época do seu lançamento.


Reportagem de Larissa Mendes para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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