Maio de 68: A influência nas relações sexuais e de gênero

Conservadora, assim a França chegava ao ano de 68. Com uma estrutura de valores rígidos, o país se dividia entre a geração mais tradicionalista e os jovens que traziam ideias revolucionárias para a época. Desde o início daquele ano, ficava evidente que em algum momento o embate entre duas gerações ocorreria. Pois então, no dia 2 de maio os estudantes franceses da Universidade de Nanterre fizeram um protesto que mudaram o curso da sociedade ocidental. Reivindicando contra a divisão dos dormitórios entre homens e mulheres, os manifestantes viram o movimento ser abraçado por outros estudantes e operários que queriam melhoras nas condições de vidas da época.
A manifestação ecoou e se tornou um marco nacional. Diante de outras pautas, a questão sexual e gênero foi caindo em segundo plano. Porém, a luta por direitos iguais nos dormitórios universitários estigmatizou Maio de 68 como o propulsor da Revolução Sexual.
“Goze sem impedimentos”, slogan símbolo da luta pela liberdade, corresponde as múltiplas formas de indignação com o padrão social da época, inclusive, com a questão sexual. Mas ainda há muita controvérsia sobre reinvindicações contra o sexismo no movimento. Os especialistas debatem e divergem sobre o surgimento da Revolução durante o período. Diante da discussão, qual foi a real importância do protesto emblemático na questão de gênero na sociedade mundial?
“Nos países que à contrarrevolução ecoou, surgiu uma lógica na revolução dos costumes. A liberação sexual foi antes de tudo uma liberalização sexual: no lugar dos dogmas religiosos presentes. Passa a vigorar a ideia do consentimento esclarecido como moralidade de qualquer prática sexual”, afirma Rodrigo Lemos, professor de sociologia da UFCSPA (RS).
Outro movimento que é gerado pós-68 foi a flexibilização dos relacionamentos. Segundo Michael Bozon, antropólogo, sociólogo e sexólogo, o que realmente muda a sociedade francesa em termos de sexualidade no pós-68 parece sair do contexto do casamento clássico heterossexual.
“A aparição do PACs, um contrato mais leve do que o do casamento, também transforma as relações. O PACs não exige fidelidade entre os parceiros. Isso é simbolicamente importante. E se antes acreditávamos que ele seria destinado unicamente aos homossexuais, hoje em dia sabemos que os casais heterossexuais se passam na mesma proporção. O declínio do casamento formal é uma das grandes alterações da vida sexual na França”, aponta Michael.
Relacionamentos mais leves, contratos matrimoniais mais flexíveis, os franceses pareciam iniciar uma forma mais suave e descompromissada de se relacionar. Porém, questões sérias como pedofilia e estupro não foram esquecidas, o tratamento mudou e melhorias surgiram. Um exemplo marcante foi lei que permitiu as mulheres o direito de utilizar métodos contraceptivos nas suas relações sexuais.
“Antes da ascensão das revoluções a sociedade possuía mais tabus do que atualmente. Pedofilia é um deles. A proibição de tocar no assunto cai com essa revolução e isso não quer dizer justificar. Pelo contrário, foi a ascensão de movimentos de igualdade e liberdade de pensamento que permitiram o deslocamento dessas ideias de tabus para alvos de estudo e compreensão”, garante Ronald Fonseca, historiador e sociólogo.
Com todas essas influências, é inegável que Maio de 68 estimulou um novo modo de relacionamento e estabeleceu mudanças na vida sexual da sociedade. Mas quando questionamos Michel Bozon sobre o nascimento da Revolução Sexual no movimento, ele é taxativo: “Um clichê que se tornou nostálgico e mesmo conservador”.
Para o especialista, as mulheres já vinham lutando pelos seus direitos anterior as manifestações. Desde o início do século XIX, elas já se preocupam muito com a questão do estupro dentro do casamento, o direito ao emprego e ao voto. Maio de 68 foi um movimento que buscou melhoria na educação e não na sexualidade.
“O desejo de revolução encontrava eco especialmente no meio estudantil, num contexto em que a situação era difícil, haviam poucas universidades e poucas vagas disponíveis dentro delas. Foi depois de Maio de 68 que criaram faculdades para acolher toda essa geração do baby boom , pós-Segunda Guerra mundial, que era muito numerosa”, esclarece Michel.
Sobre o período entre o começo dos movimentos feminista até o período de Maio de 68, Ronald Fonseca revela que com o mundo em constante instabilidade política, com a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o debate foi adormecido por falta de espaço. Porém, afirma que a primeira onda feminista foi fundamental na que veio posteriormente, no período de 68.
“A base deixada pela primeira onda feminista sustentou a segunda. No entanto, o intervalo entre os dois movimentos é marcado por um mundo em ebulição. Duas guerras mundiais, crise econômica, ascensão do fascismo, do nazismo. Não havia sequer espaço para fomentar um movimento em meio ao caos”, afirma o historiador.
Trazendo o debate para a atualidade, as mulheres já possuem um espaço social maior do que no início dos debates feministas. Porém, os desafios ainda estão presentes. Dois dos grandes obstáculos enfrentados hoje são a violência e a desigualdade no ambiente de trabalho.
Sobre a questão do mercado de trabalho Paula Tavares, advogada e especialista em Gênero do Grupo Banco Mundial, acredita a falta de políticas dificultam o desenvolvimento da temática: “Com a lei não prevendo licença parental, igualdade de remuneração para o trabalho masculino e feminino, trabalho dos pais em regime flexível e não havendo uma regulamentação que proíba a discriminação com base no gênero ou no estado civil no acesso ao crédito, o empoderamento feminino continuará sendo desfavorecido”.

Apesar dos desafios que ainda estão na sociedade, sem dúvidas, as questões debatidas em Maio de 68 alterou o modo como a sexualidade é vista. Atualmente, a liberdade de escolha e a individualidade se tornaram praticamente uma ideologia. Ainda assim o conservadorismo e o liberal continuarão tendo seu espaço social, porém, que o respeito na discussão de contrapontos que haverão de existir seja preponderante.


 Jorge Abel da Costa Pinto 

Reportagem realizada para a disciplina de Oficina Multimídia

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