Influenciadores da Contracultura: entenda a correlação entre a moda dos astros hollywoodianos e o comportamento do jovem sessentista

Em um período marcado pela voz ativa dos estudantes e pela militância crescente, os jovens de 1968 encontravam novos objetivos, novas lutas e se inspiravam em toda e qualquer forma de revolução que pudesse levá-los a um recomeço. Seja na atitude, no pensamento, na forma de se vestir ou em quem idolatravam, cada um era atravessado pelas diferentes manifestações que ocorriam no fim da década de 60 e, claro, o cinema, como representação da realidade, e a moda, como forma de externalizar a subjetividade humana, eram as maneiras encontradas por muitos para demonstrar a rebeldia que fora trancafiada por anos de repressão.

Como se sabe, o século XX foi marcado por uma série de fatores. Quando a década de 60 se iniciou, o mundo já tinha passado, em pouco espaço de tempo, pela Guerra da Coréia, a Revolução Cubana e a Guerra do Vietnã. Era um período de muita tensão e conflitos e os jovens vivenciavam isso de uma forma ainda mais forte. Quem explica essa situação é o historiador Carlos Pinho. Para ele, a repressão vinha de tais fatos e cabia ao adolescente o descontentamento. “Essa geração teve os ecos desses acontecimentos e ainda lidava com a Guerra Fria. Haviam desigualdades de cunho racial, socioeconômico e sexual. Então, naturalmente, isso gerava uma insatisfação”, explica.

E essa insatisfação era refletida nas telonas. Os filmes sessentistas traziam em suas tramas as vidas de jovens seguros, fashionistas, independentes e contraculturais. Suas narrativas indicavam mais do que um estilo de vida e influenciavam outros a seguirem o mesmo padrão sem regras e cheio de liberdade. Só que essa influência ia muito além. Para a socióloga Renanda Carvalho, a vida perfeita divulgada no American Way Of Life transbordava barreiras e ia, até mesmo, para outras camadas além do comportamento. “Os estereótipos hollywoodianos vendem a perfeição e, assim, influenciam nos hábitos, nos pensamentos, na alimentação e até nas roupas”.

“A moda é um conjunto de atitudes que o sujeito adota, é sua autoimagem refletida através da vestimenta”

Mas como o comportamento da época poderia ser refletido no que as pessoas vestiam? A psicóloga Raquel Gomes explica que a interdependência entre moda e conduta tem um fundo na psique humana. “A moda nestes casos se torna um conjunto de atitudes que o sujeito adota, é a sua identidade pessoal, seu humor e sua autoimagem que estão refletidos através da vestimenta”, analisa. Com base nisso, fica possível compreender, não apenas no passado, mas também nos dias de hoje, como se dava a correlação entre influenciadores e sociedade e por que ainda é tão frequente até hoje, levando milhares de pessoas a seguirem e adotarem o que determinado famoso opta ou não por usar.

Considerando que no momento em questão, os influenciadores digitais sequer eram conhecidos ou esperava-se que existissem e a web não era presente, inspirar-se nos ícones das telonas era o que restava para uma juventude ainda tão carente de ídolos e tão demandante de renovação. O redator Rodrigo Torres, do site Adoro Cinema, aponta o papel da sétima arte nesse contexto: “A internet só se tornaria popular meio século depois. Não havia espaço para subcelebridades nos programas televisivos ou influenciadores no YouTube. As grandes estrelas estavam nos filmes e na música. Assim, a partir do momento que o cinema passa a estimular um comportamento rebelde que é muito inerente aos jovens, eles se sentem encorajados a isso”.

E este encorajamento não veio em vão. Apesar da década de 1960 ter sido um tanto quanto rica nos longas-metragens, os filmes de destaque que ganharam o coração dos adolescentes e ficaram registrados em suas memórias foram lançados no fim dos anos de 1950. Mesmo que isso possa significar um espaço de tempo consideravelmente longo para os dias atuais, é preciso ter em mente que em décadas anteriores o tempo não parecia passar tão depressa quanto agora e que um filme lançado, por exemplo, em 1957 poderia continuar reverberando por muitos anos.

Por isso, ao considerar a influência do cinema na moda seguida pelos jovens sessentistas, é preciso ver em quem se inspiravam, quais eram os ícones a serem seguidos, quais protagonistas incentivavam e levantavam a bandeira do ativismo e por que eles eram tão relevantes. Partindo deste princípio, estrelas como Marlon Brando, Brigitte Bardot, James Dean e Audrey Hepburn se tornaram inspiração e ganharam títulos de prestigio ao se transformarem nos influenciadores não-digitais de uma era pré-internet.

O REBELDE COM CAUSA

Cena de “Juventude Transviada” (Reprodução do Tumblr Gyllenhoal)

Nascido em 1931 e com uma curta trajetória tanto no cinema quanto pela vida, James Dean se consagrou como a representação de todas as angústias vividas pelos jovens da época. Sucesso nos cinemas durante a década de cinquenta, o ator deu voz a uma geração perdida e aglomerou uma quantidade de fãs que o acompanha até hoje, mesmo tantos anos após sua morte.

Exemplo disso é o inglês Alex Carratu, que com apenas vinte e três anos encontrou no ícone um objeto de devoção. “Ele era um rebelde sensível com um coração de ouro. James falava para aqueles que desejavam ser compreendidos e aceitos”, relembra o técnico em computação.

Com o longa ‘Rebel Without a Cause’, ‘Rebelde Sem Causa’, em tradução literal, e ‘Juventude Transviada’, como título brasileiro; Dean vivia um jovem problemático que se envolvia com uma jovem revoltada com o pai. A trama conquistou o público que se identificou com a história; e o estilo do ator, marcado por um pattern básico, ganhou o mundo. O famoso traje composto pela jaqueta vermelha, o jeans, a camiseta branca e o topete perfeito foi projetado para refletir o que o adolescente estava usando, principalmente em uma época na qual todos queriam se distanciar da forma como os pais se vestiam.

Assim, Dean e seu estilo arrojado se transformaram em uma forma acessível, e muito estilosa, dos jovens se rebelarem, adotando artigos casuais que foram incorporados, antes de mais nada, pelo galã. Mas não foram apenas os itens básicos que fizeram a diferença. Um dos fãs mais ativos de James nas redes sociais, Michael Perry, aponta o que o atraiu em seu estilo. “Suas roupas eram simples e práticas. No entanto, mesmo no meio da simplicidade, o jeito com o qual ele as usava foi que fez de Dean um homem poderoso”, explica o americano, que apelidou o ídolo de The King of Cool.

E James Dean, de fato, era um rei. Se para os historiadores da moda, aquele era um homem cujas roupas resumiam perfeitamente a primeira década em que os jovens se distinguiam de seus pais, para os que o idolatravam, ele era muito mais. O pintor e cineasta Andy Warhol, autor da obra “Rebel Without A Cause 355”, chegou a opinar certa vez sobre a forma como Dean traduzia os ideais adolescentes da época. “Ele não era nosso herói porque era perfeito, mas sim porque representava perfeitamente a bela e danificada alma do nosso tempo”, declarou.

“A juventude passa a ser influenciada pela rebeldia retratada no cinema e pelas canções de rock. Isso culminou em transformações comportamentais profundas”

E como era danificada! A geração anterior, conhecida como Silent Generation, ou a geração silenciosa, havia vivenciado os horrores de regimes políticos violentos que mostravam que permanecer em silêncio era a saída. Por sua vez, para os Baby Boomers, aqueles que haviam nascido após 1945 e que estavam atingindo a juventude justamente no auge dos anos sessenta, a enxurrada de acontecimentos era o empurrão que faltava para mudar a realidade da época. Aqueles jovens eram finalmente aptos a recorrer pela liberdade e, por sorte, o cinema estava ali como a válvula de escape perfeita ao mostrar que o mundo já não os representava mais e que não havia alternativa senão mudá-lo.

“O Baby Boom virou o Teenager Boom, uma explosão de juventude, que passa a ter mais voz, que é contestadora e crítica, influenciada, por exemplo, pela contracultura, pelo movimento hippie, pelo existencialismo de Sartre, pelos ideais socialistas, pela rebeldia retratada no cinema e pelas canções de Rock desde fins da década de 1950. Esse caldo de cultura culminou em transformações comportamentais profundas”, explica o historiador Carlos Pinho.

Para o estudante americano Sonny Brady, de 19 anos, não há como não concordar e ele, claro, usa James Dean como exemplo. “O estilo e a atitude dele eram incríveis. Dean é a razão pela qual os Beatles existiram, a razão pela qual as jaquetas de couro são tão maneiras, pela qual os homens usam o cabelo mais curto nas laterais e com um topete em cima”, vislumbra. Sobre o rock, ele não estava errado.

A moda da época estava, de fato, se rendendo ao novo estilo, seja de vida ou musical, e isso é o que aponta Rodrigo Torres. “Filmes como ‘Uma Rua Chamada Pecado’ e ‘Juventude Transviada’ eram a anunciação do Rock ‘n roll e do Iê-Iê-Iê dos Beatles como um movimento popular no mundo inteiro”, compara o jornalista.

E se esse movimento ficou popular no mundo todo, James sequer pôde comprovar. Com apenas três filmes na carreira, o suficiente para alçá-lo como moviestar, o ator teve uma morte prematura que ajudou a imortalizar a figura de rebelde. Imagem esta da qual nunca se desvencilhou e que o acompanha até hoje. “Ele morreu exatamente como um ‘rebelde sem causa’, em um acidente de carro. Isso é muito poderoso! Uma coincidência que mexe com as pessoas até hoje, sessenta anos depois”, relembra Rodrigo. Para endossar a afirmativa, Michael Perry, o fã mencionado anteriormente, conclui: “James era um visionário, não é surpresa que seja relevante ainda atualmente e que seja uma lenda que inspira gerações”.

Sobre as gerações atuais, não é mesmo uma novidade que a inspiração permaneça. Em uma época na qual os artistas colocavam muito de si nos personagens e não contavam tanto com figurinos, James era básico. Não abria mão de suas camisetas brancas e pretas, dos jeans desgastados, das jaquetas de couro e dos cabelos penteados para trás. As palavras-chave em seu estilo eram personalidade e atitude, tal qual a fama de autêntico bad boy americano lhe permitia. O cigarro pendurado na boca, então, era um detalhe crucial e marcante. Tudo que um rapaz durão poderia querer ser e tudo que muitos ainda querem.

Atualmente, a moda vive um verdadeiro revival e o estilo de Dean continua marcante. No entanto, quando se diz respeito a novos famosos copiando as características do ator, há quem discorde da tentativa. Kathy Haney, fã fervorosa de James, bate o pé do auge de seus setenta anos e argumenta: “Justin Bieber até tenta manter esse visual, mas isso é algo que não se pode copiar. Ou você tem esse estilo ou não tem!”. Será?

DO HIPPIE AO CLÁSSICO

O delineado “gatinho”, de Brigitte Bardot, se tornou um sucesso atemporal (Reprodução do Tumblr CinemaGifs)

Outro elemento que marcou os anos sessenta e influenciou, definitivamente, na forma como os jovens se vestiam foi Brigitte Bardot. Os cabelos, a maquiagem e as roupas usadas pela atriz francesa, em uma época em que o cinema europeu ganhava tanta força até mesmo em Hollywood, se tornaram uma verdadeira referência da beleza natural e despretensiosa.

Com um estilo atemporal, a femme-fatale ignorava o título e fazia de sua moda uma mistura entre o diurno e o confortável. Além do biquíni, que ficou eternizado em suas curvas ao ser usado pela primeira vez nas telonas, o closet de Brigitte era basicamente composto por batinhas, vestidos de algodão e roupas listradas. Nos pés, dava valor a andar descalça. Nos jeans, cortou a bainha para andar de maneira mais prática pelas ruas. A regra era não ter regras.

Em suas atitudes simplistas e discretas, Bardot, com todo seu cabelo loiro bufante e um delineado gatinho que seguiria por décadas, conseguiu influenciar toda uma geração não apenas no visual, mas também na maneira de pensar. Ainda vida, a atriz se empenha em defender os direitos dos animais e, apesar de não ter mais a pele sedosa de antes e de acumular alguns anos além dos que ficou conhecida, é facilmente fotografada com gatos e cachorros no colo, mostrando que o ativismo nunca sai de moda e que sua fama menos ainda.

Prova disso é a maneira como sempre é lembrada com carinho por aqueles que a acompanharam, como a fã e pintora Marie-Rose Borrego. “Ela tinha uma beleza magnífica, um rosto suave e ao mesmo tempo tão frágil. Bardot é uma grande dama do cinema francês”, afirma ao idolatrar a atriz. No entanto, há controvérsias quanto o termo “dama”. Brigitte primava pelo espontâneo e desconstruído, não pela beleza montada que Hollywood oferecia. Ela fora a sentença para a morte da alta-costura, dos grandes ateliês e do visual elegante muitas vezes adotado por outras atrizes, como Audrey Hepburn.

Este pensamento de contracultura, por sua vez, era o que fazia com que a francesa se destacasse. Ao defender o posicionamento que a atriz mantinha, o redator Rodrigo Torres vai além: “Brigitte Bardot possuía uma sensualidade intrínseca. Do tipo ‘acordei linda e sexy’. Era atrevida sem fazer muita força e, mesmo assim, fazia força com fotos seminua, declarações polêmicas e uma vida amorosa movimentada”.

“Quanto mais hipócrita e machista é a sociedade, mais visada essa pessoa se torna. Foi o caso da Brigitte Bardot e Audrey Hepburn”

Mas essa “força” feita pela atriz não era em vão. Em meio a um universo ainda repleto de homens, ter este espaço era necessário. Ao menos, é o que aponta Carlos Pinho. “A mulher teve mais destaque em produções e, com um enfoque diferenciado sobre seu papel na sociedade, conectava-se também às demandas e anseios dos jovens”, justifica o historiador. Quem concorda e reafirma o argumento é Rodrigo. Para ele, a quebra de tabus realizada pela famosa em um momento ainda tão conservador foi o que fez a diferença. “Quanto mais hipócrita e machista é a sociedade, mais visada essa pessoa se torna. Foi o caso da Brigitte Bardot, por sua imagem e seu comportamento, e também da Audrey ao fazer Bonequinha de Luxo”.

Audrey Hepburn em cena de “Bonequinha de Luxo” (Reprodução do site Giphy)

E por falar na eterna bonequinha, Hepburn jamais poderia ser esquecida. Na contramão da moda básica e simplista de Bardot, Audrey veio para dar à alta-costura o destaque necessário. Com um estilo elegante e beleza singela, seu nome se tornou um sinônimo do glamour do século XX, ao passo em que grandes estilistas disputavam para serem vinculados ao status que a famosa adquirira.

A atriz era o rosto impecável em propagandas da Givenchy e foi essa união que deu origem a um dos vestidos mais emblemáticos já conhecidos. Prova viva – e costurada – disso é o tão conhecido vestidinho preto eternizado pela artista belga. A peça, simples e atemporal, se tornou coringa no guarda-roupa feminino e virou referência no que se diz respeito à elegância.

Mas para aqueles que pensam que o estilo da artista era puramente baseado nos adereços e tecidos requintados, aí vem a surpresa. Por mais que algumas pesquisas, como a do site Entenda Os Homens, apontem que oito em cada dez mulheres encontram na atriz uma grande inspiração para se vestir e que ela seja quase uma realeza da alfaiataria, Audrey, como muitas das moças que vivem longe dos holofotes, fugia dos padrões de beleza de sua época.

Em entrevista a São Paulo Fashion Week, em 2018, a neta de Hepburn, Emma Ferrer, declarou que a imagem elegante da atriz era bem diferente no dia a dia: “Minha avó era contra tendências de moda”. Ainda de acordo com ela, a lógica da famosa era algo como “para que se espremer em um vestido justo se você pode ser linda com uma calça, uma camisa listrada e sapatilhas?”. Longe do trabalho, a belga muitas vezes era encontrada assim, mas o visual nem sempre é recordado.

Para Rodrigo Torres, isso se justificaria pela forma com a qual sua atuação em Bonequinha de Luxo a marcou significativamente. “O escândalo de interpretar uma garota de programa ingênua e fofa tornou sua figura mais complexa e atraente. Ainda assim, Audrey Hepburn tinha uma beleza mais próxima da mulher comum, pela suavidade e pelos traços angelicais. Ela era deslumbrante sendo ela mesma e isso é cativante”, se derrete o redator.

E quem também não poupa palavras para descrevê-la é a fã Valentina Ruperti. Aos 19 anos, a estudante elogia: “Ela era inteligente, elegante e tinha estilo. Além disso, Audrey era uma pessoa doce, que gostava de ajudar os outros. Apesar de ser famosa e uma excelente atriz, ela ainda se mantinha como uma pessoa normal, ela era real, diferente das atrizes que vemos hoje em dia”.

Essa admiração, no entanto, tem explicação. De acordo com Rodrigo, isso acontece justamente pelas qualidades que os personagens, e consequentemente os atores que os interpretam, possuem. Em geral, eles são bem-sucedidos, altivos e aceitos. Tal descrição era encontrada com facilidade, em especial, nos filmes da época, já que os jovens retratados eram sempre corajosos, desafiavam a lei e as autoridades, eram donos de si e lutavam por ideais sociais. Quem não sonharia com isso?

A ERA BRANDO

Marlon usava, frequentemente, camisas simples e claras (Reprodução do Tumblr Babeimgonaleaveu)

E por falar em personagens fortes e reconhecidos, não há como esquecer de Blanche, do longa “A Rua Chamada Pecado”. Ou melhor, de Marlon Brando. Nascido em 1924, o ator americano mostrou a que veio. Reconhecido atualmente como “um dos rebeldes que mudou a forma como os homens se vestem”, de acordo com o site Complex, Brando revolucionou o estilo e se destacou ao usar as mesmas camisas e jaquetas de couro que Dean usava.

Se as semelhanças já parecem muitas por aí, acrescente também a paixão por carros e pela alta velocidade. Ser rebelde, naqueles tempos, também significava pisar fundo no acelerador. De acordo com a socióloga Renanda Carvalho, esta ideia pode ser atribuída ao movimento acelerado de se contrapor à estagnação. “Trazendo à realidade da época, poderíamos fazer um paralelo da luta por mudanças efetivas contra a estagnação política”, analisa.

Por outro lado, o historiador Carlos Pinho aborda a industrialização crescente, especialmente no Brasil. “Com o governo JK, o país deu um passo importante com foco na indústria automobilística. Esse mercado passou a se movimentar intensamente para a sua promoção e o imaginário dos carros e da velocidade se fez cada vez mais presente na música, nos filmes, no rádio e na TV”.

Mas para os que estão se perguntando como a indústria brasileira tem a ver com a influência Hollywoodiana e com a moda que o cinema espalhou ao redor do mundo, é bem simples. Seguindo a lógica de ambos os especialistas, o Brasil ainda se deixa influenciar – e muito – pela cultura americana, principalmente pelo que absorve através do cinema. Para Renanda, inclusive, o público buscava, e ainda busca, alcançar os padrões americanos por vezes sobrepujando-o em face à cultura nacional. Já Carlos explica que esta é uma cadeia de elementos que inclui a potência do mercado dos Estados Unidos e a forma como ele dita tendências em todo o mundo.

Assim, não seria nenhuma novidade pensar que os jovens brasileiros, em meio aos anos sessenta, assistiam aos longas citados anteriormente e se inspiravam nas roupas e comportamentos adotados pelos personagens. Muito pelo contrário, isso é o que mais acontecia. Seja homem ou mulher, ninguém estava de fora de se enquadrar nas novas tribos que estavam se formando e a dos rapazes desafiadores, velozes e donos de si era a que estava no poder.

Com a masculinidade em alta, figuras como Marlon Brandon mudaram o conceito de estilo e trouxeram peças básicas e essenciais ao must list do universo de centenas de adolescentes. Antes dele, era comum que os homens fossem escravos dos ternos e camisas de abotoar. Na era pós-Marlon, todavia, peças básicas como as t-shirts viraram padrão. O fato é que, nos Estados Unidos, é comum utilizar camisetas, especialmente as claras, embaixo das roupas como se fossem, mesmo que mal comparando, similares à cueca. O que o ator fez foi pegar um item de base e torná-lo uma peça pública, quase como decidir que as cuecas boxer são os novos shorts e que estão permitidas para serem usadas onde for.

Além dessa inovação, o rebelde deu um novo significado também aos óculos de sol, assim como Audrey Hepburn fizera. Foi graças a ele que o estilo Aviador caiu nas graças das estrelas de Hollywood, ainda mais quando estava associado às vestimentas de couro que o deixavam com um ar de roqueiro presunçoso. Não é à toa que, em uma fala depois citada pela jornalista Anna Predergast no site Therake, o cineasta Martin Scorcese comentou que “existe um pré-Brando e um pós-Brando”. Ele, sem dúvidas, não estava errado. Apesar de estar falando sobre a forma com a qual o jovem atuava, a referência também caberia perfeitamente no que diz respeito ao estilo, às roupas e à postura. A ser Marlon Brando, por si só.

Ainda assim, o que mais chocava a todos não era o talento abundante, mas sim a humildade. Para a fã Verônica Medina, a questão ultrapassava os limites da tela de cinema. “O fato dele nunca ter pensado em si mesmo como um homem maravilhoso e de ter mantido os pés no chão é o que o torna incrível”, comenta em um ar saudosista.

E se a saudade é muita para um ator só, que dirá para os que idolatravam todos os quatro citados acima. A falta, às vezes, parece ser impossível de suportar. Enquanto alguns como Anne Brookner, de 75 anos, se enchem de nostalgia ao relatar: “Eu ainda me lembro que a primeira vez que vi James Dean nos cinemas foi no filme East of Eden. Eu tinha treze anos na época e o assisti três vezes em sete dias. Quando ele morreu, chorei por semanas e semanas. Foi justamente no Porsche que tanto amava! Acho que o levarei sempre comigo em meu coração”. Outros que não os conheceram, como Mason Teague, de 27 anos, lamentam: “Tudo o que eu queria era que Brando e Dean tivessem feito um filme juntos”.

“Estes ídolos se conectam com os anseios de mudança que a juventude possuía”

Mas esse lamento não vem em vão. Desejar os longas era como desejar mais dos próprios ídolos, do que eles representavam e de como influenciaram e engajaram centenas de jovens em um universo ainda repleto de questões sociais que precisavam ser debatidas, especialmente por aqueles que tinham nas mãos a chance de revolucionar. O historiador Carlos Pinho explica esta subversão. “O grande canhão de comunicação com o público no cinema é Hollywood e estes ídolos se conectam com os anseios de mudança que a juventude possuía e com a revolta contra uma série de paradigmas”.

Para a socióloga, essa conexão chegava a outro patamar. “A grande maioria dos jovens, ativos politicamente ou não, se identificavam com a postura avessa às regras vigentes. Aqueles que se apresentavam na figura do rebelde tinham maior visibilidade entre os que se sentiam representados na contrariedade”, conceitua Renanda.

Dessa maneira, milhares de adolescentes e jovens adultos, seja no Brasil ou em outro país, encontraram nestes ícones, a inspiração para seguir. Em comum eles possuíam camisas simples e listradas, jaquetas, cigarros, posturas de malvados, rebeldia, talento e belezas naturais que faziam inveja a qualquer um, mas acima da moda e da forma como ela é capaz de ilustrar a maneira como cada um se apresenta no mundo, estava a vontade de transformar esse ambiente em que viviam.

Para Rodrigo, a força do cinema é facilmente explicada em uma formula mágica: “Quando um personagem tinha um novo corte de cabelo, um visual mais arrojado, dirigia um carro bacana e passava a adotar uma postura mais afrontosa a costumes conservadores, o público se sentia representado e influenciado a fazer o mesmo”. Por sorte, esta vontade de ir contra os padrões estabelecidos e institucionalizados na sociedade foi grande e o poder da sétima arte foi capaz de influenciar uma geração, mesmo que alguns anos depois, a lutar pela mudança e a fazer a diferença.

Sim, 1968 seria conhecido como o ano que não acabou e que bom que ele ainda não teve este fim, caso contrário, ainda não estaria sendo debatido cinquenta anos depois. Para alguns, James, Audrey, Brigitte e Marlon são apenas nomes, placas na calçada da fama, imagens em um filme retrô, mas para os que cresceram nos anos sessenta, eles eram sinônimo de revolução. Uma revolução interna, externalizada em peças simples que gritavam ao mundo um desejo de mudança que a maioria deles sequer viveu para ver.


 Juliana Costa 

Reportagem desenvolvida para a disciplina de Oficina Multimídia

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