Craques da “melhor seleção de todos os tempos” negam interferência da ditadura militar

O ano era 1970. O Brasil vivia um momento político conturbado por causa da ditadura militar implantada em 1964. O presidente era Emílio Garrastazu Médici, conhecido como o “homem do povo” e “apaixonado por futebol”. Desta forma, o uso da propaganda política militar se aproveitou da legião comandada por João Saldanha, antes da Copa do Mundo, e Mário Jorge Lobo Zagallo, durante o campeonato mundial.

O poder da mídia era limitado. Mesmo com a primeira Copa do Mundo televisionada ao vivo e em cores, a censura se fazia presente. Todos os jornalistas responsáveis por cobrir a “canarinho” tinham o controle dos soldados para que não veiculassem matérias contra o governo vigente. Não só a televisão foi importante, mas também, os jornais e revistas que deixavam o povo antenado sobre os horários dos jogos da seleção e propagavam mensagens nacionalistas.

A propaganda política foi tão eficaz, que a imagem dos jogadores repercutia como “mitos”, “heróis” e o presidente da República se aproveitou da popularidade causada pela grande exibição na Copa do Mundo de 1970. Além disso, a coletividade, a organização e o patriotismo do elenco canarinho eram passados como exemplo para a nação e firmavam a relação de afetividade com a “melhor seleção de todos os tempos”, segundo os estudiosos do futebol.

Pelé, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Carlos Alberto Torres… tantas estrelas num só Mundial. A taça Jules Rimet levantada pelo “Capita”, apelido concedido ao extraordinário lateral-direito da seleção Carlos Alberto Torres, também foi erguida pelo presidente Médici. Inclusive, um caso curioso movimentou o cenário do futebol antes do tricampeonato Mundial conquistado pelo Brasil.

Como acontece atualmente à convocação, naquela época também eram escolhidos 23 jogadores para fazer parte do grupo. Entre os nomes convocados por João Saldanha, a ausência de Dario, conhecido como Dadá Maravilha, repercutiu na imprensa e, ao ser abordado por um repórter sobre a não convocação do centroavante, que vivia o auge da carreira, e até o presidente Médici, pedindo sua convocação, “João Sem Medo”, como era apelidado o treinador, respondeu ironicamente que “ele escala os ministros e eu escalo a seleção”.

Então, a resposta teve um resultado negativo para o treinador. Demitido e substituído por Zagallo, a seleção mudou de comando e a forma de jogar e ainda contou com o nome do atacante do Atlético Mineiro, que causou a demissão, na convocação final para representar o Brasil no Mundial de 70.

A saída do João Saldanha deixou arestas no ar sobre, a influência ou não, da política na seleção, devido à “simpatia” do ex-jornalista e ex-treinador do Botafogo com o partido Comunista. Mas a verdade seja dita: os jogadores não se abalaram com o momento complicado vivido pelo país e fizeram sua parte. Se jogar futebol era a alegria dos convocados de Zagallo, o povo recebeu o tricampeonato de “braços abertos” para uma mudança de paradigma da nação.

Visão dos craques que disputaram a Copa de 70

A seleção era a esperança da nação. Os astros comandados por Zagallo não se envolviam em polêmicas, só faziam o esperado: exibições de alto nível e resultados positivos que levariam ao tricampeonato Mundial. A política do país não era escondida dos atletas, porém eles se preocupavam, apenas, com às partidas e o amparo do governo militar ajudou para a “tranquilidade”.

O brilho da seleção não foi ofuscado pela ditadura. Com a presença de 5 camisas “10” no grupo (Gérson, Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino), a canarinho tinha a pressão de conquistar os resultados, nada que envolvesse pressão do governo. O momento crítico do país não abalou o desempenho dos atletas, e reforçou o comprometimento e a disciplina de cada um em voltar com a glória de “campeão”.

Glória conquistada pelo “furacão da copa de 70”. Irreverente e “sem-papas” na língua, Jairzinho foi o único jogador a marcar em todas as partidas de uma Copa do Mundo, feito inédito até hoje, afirma a inexistência de pressão dentro do elenco canarinho e a alegria em representar à nação. “Não teve influência da ditadura nos jogadores. Se influenciava a CBD, atualmente CBF, isso não foi passado para nós. A alegria sempre existiu no povo brasileiro, eu nunca me preocupei com a ditadura na seleção”, aponta o furacão.

Dono de um projeto social para revelar atletas na vila olímpica de Sampaio, Zona Norte do Rio de Janeiro, Jairzinho explica sobre a saída do comandante antes da Copa de 70. “Nós tínhamos o Saldanha como um parceiro por saber se comunicar e lutar pelos atletas. A saída dele para entrada do Zagallo foi um problema político. Ainda o intitularam como comunista”, destaca.

Outro jogador importante da época foi o Gérson. Conhecido como o “canhotinha de ouro” e atualmente, comentarista esportivo, nega a interferência do governo militar nas atuações da legião de craques brasileira e deixa uma mensagem impactante. “Nós não fizemos propaganda para a ditadura. Atuávamos como profissionais com a missão de um trabalho a se fazer. A pressão não existia, a não ser, a pressão de buscar o resultado”, revela.

“Se tivesse pressão, nós não jogaríamos”, afirma o canhotinha de ouro que não aponta a saída do treinador João Saldanha por causa de um motivo específico. “Não sei dizer o porquê da demissão, mas acredito que não houve ofensa dele para o presidente e vice-versa. A resposta irônica para o repórter fazia parte da personalidade dele, por isso era chamado de ‘João Sem Medo'”, disse.

Professor credita a propaganda política aliada ao futebol como “oportunista”

População alvoroçosa com a seleção brasileira e coberta de esperança com a mudança do país. Situação política violenta e o futebol aparece como uma alegria em meio a tanto caos. A mídia manipulada para veicular informações de cunho favorável aos governantes e a novidade da televisão, ao vivo e à cores, para transmitir as partidas da Copa do Mundo de 1970.

Esse novo jeito de reunir a nação brasileira foi uma mudança cultural ressaltada por Marcos Cavalcante, de 60 anos. No entanto, ele também avalia a sua percepção de criança na época. “Essa mania de todos se reunirem para assistir os jogos começou nesta Copa. Mas também analiso a falta de clareza do que estava acontecendo no país, pois minha família não tocava em assuntos políticos e eu tinha apenas 12 anos de idade”, disse.

O professor de Produção e Gestão de Conhecimento relembra que “viveu sem saber” um dos momentos políticos importantes na história do país. “Em 1974, eu percebi o que a Copa do Mundo fez com a população. A alienação desenvolvida por falta de criticidade da imprensa, que passava àquilo que não era censurada, escondia acontecimentos violentos no país”, destaca.

Marcos esclarece como “Maio de 68” foi importante para o desenvolvimento da sociedade e aponta os que defendem à volta desse governo no país. “É o momento da liberdade, principalmente da mulher, naquela época. Quem quer o retorno da ditadura, com certeza, se beneficiou desse regime militar”, opina o professor.

“A palavra principal daquela época foi ‘oportunismo” (Marcos Cavalcante, professor)

Então, sem espírito crítico no ano de 1970, mas construído ao passar dos anos, o professor define o Mundial com um argumento. “A palavra principal daquela época foi ‘oportunismo’. Eles aproveitaram o sentimento das pessoas para ocultar a violência nas ‘masmorras’ da ditadura. Além da força bruta para silenciar os meios de comunicação”, finaliza Marcos.


 João Pedro Marques 

Reportagem realizada para a disciplina de Oficina Multimídia

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