A crise de identidade estudantil e os reflexos de 1968

Nos últimos cinco anos, os estudantes brasileiros voltaram às ruas do país. Universitários e secundaristas ocuparam novamente os espaços a fim de bradar contra reformas políticas conservadoras, ao mesmo tempo em que clamam por mais verbas, mais direitos, pedindo para serem ouvidos. Ao longo desse período, esses estudantes recuperaram um protagonismo há muito tempo perdido.

Desde os caras pintadas, em 1992, quando jovens de todo o país foram as ruas pedindo o impeachment do então presidente Fernando Collor, um hiato de quase 20 anos marcou os movimentos estudantis. Segundo a professora da Universidade Veiga de Almeida e doutora em História, Elisa Goldman, o movimento estudantil atual vive um momento de desarticulação política.

“Os estudantes hoje em dia parecem muito mais individualizados, atomizados e um pouco descrentes com as utopias coletivas. Acredito que a gente precise repensar em que medida a universidade é responsável por essa alienação, em que medida ela incorpora ou não um debate político profundo e mais amplo, ou se ela desempenha um papel de apenas preparar esses estudantes para o mercado de trabalho de forma pragmática e utilitária”, explica.

Elisa afirma que o problema que afeta o pensamento crítico dos jovens de hoje é o mesmo que afasta a população das instituições políticas. “O Brasil vive um momento muito obscuro do ponto de vista político. Existe uma descrença generalizada com relação a democracia, não só entre os estudantes como em todo e qualquer cidadão brasileiro. Mas a gente precisa recuperar essa crença no processo político porque a gente precisa dele para fortalecer nossa já fragilizada democracia”, completa.

A falta de uma militância mais engajada, que participe das discussões políticas do país, voltou a fazer parte do cotidiano do jovem brasileiro depois de quase cinco anos de intensas manifestações. Desde 2013, quando uma onda de protestos se espalhou pelo Brasil, mobilizando milhares de pessoas contra, num primeiro momento, o aumento na passagem de ônibus, as pautas políticas ganharam força no imaginário da população, principalmente dos jovens e estudantes.

Três anos depois, em 2016, uma manifestação originada no movimento estudantil ganhou força em todo o país: a Primavera Secundarista. Iniciada na cidade de São Paulo, o movimento se espalhou pelo país. Estudantes secundaristas ocuparam escolas, ruas e praças contra a reforma do ensino médio e as demissões de professores e funcionários das escolas públicas, principalmente na capital paulista.

Figuras marcantes sempre foram sinônimos desses movimentos. José Dirceu, Vladimir Pereira e José Serra, na década de 1960; Lindberg Farias, na década de 1990; e até a estudante Ana Júlia na Primavera Secundarista são exemplos de lideranças verticais que são constantemente relacionadas a essas épocas específicas. Entretanto, essa verticalidade e a presença de lideranças carismáticas têm deixado de existir.

A estudante de Direito Juliane Portella, integrante da União da Juventude Revolucionária (UJR), acredita que, apesar de parecerem pouco interessados e organizados, os estudantes de hoje em dia – e em consequência os movimentos estudantis – ainda se fazem presentes no cenário de discussões políticas do país.

“A questão é que os movimentos estudantis só ganham visibilidade, principalmente da mídia hegemônica, quando um assunto muito específico vem à tona, como a reforma do ensino médio ou os descasos nas escolas e universidades públicas. Mas eles não estão desorganizados, nem sumiram. Ainda existem, mesmo com menos visibilidade”, finaliza.


 Tiago Augusto 

Reportagem para a disciplina de Oficina Multimídia

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