Sombras da violência: heranças da ditadura

Há exatamente 35 anos os brasileiros davam adeus à ditadura militar. O período que durou 21 anos de opressão, censura e perseguições, finalmente chagava ao fim; graças às inúmeras manifestações que aconteceram após a derrubada da ementa ‘Diretas Já’. No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente, com 480 votos, e prometeu que esta seria a última eleição indireta do país.

Apesar do término do período ditatorial, ainda existem  violações crônicas dos direitos humanos que persistem no país e abusos das forças de segurança, é o que aponta o relatório anual da ONG Human Rights Watch. Em seu Relatório Mundial, a ONG analisa a situação dos direitos humanos em 90 países, ao longo de mais de 600 páginas. Sobre o Brasil, destaca: “A violência policial continua sem freios”.

Em 2016, denuncia a HRW, a polícia matou ao menos 4.224 pessoas, 26% mais que no ano anterior. Uma prova irrefutável de que, apesar de velada, a intervenção militar faz parte do cotidiano da estudante de história Flávia Ribeiro, de 23 anos, moradora da Maré desde de que nasceu, e diz enfrentar junto com o irmão mais novo os abusos praticados por policiais que realizam operações na comunidade. “Volta e meia ele me liga desesperado, dizendo que tem um homem de farda querendo entrar. Fico em pânico e, assisto o restante da aula preocupada”. Para ela, o fato de seu irmão ser negro e estar sozinho em casa com apenas 17 anos, é algo que para a polícia é inadmissível, é sinônimo de “ser meliante”, disparou.

São diversas às formas de agressão constitucionalizada. Suas formas de atuações são consideradas antidemocráticas para a estudante de Yara Lannes, de 20 anos, que enfrentou perseguições durante as manifestações na Cinelândia e Centro do Rio. Apesar de ter sido atingida por bombas de efeito moral, na escadaria da Alerj, a estudante de História não desiste de expressar sua posição política mesmo sofrendo opressões por parte dos policias. “Recentemente fiquei ferida após pisar em uma garrafa de vidro, enquanto fugia de cerca de trinta policiais que vinham em minha direção”, contou.

Na busca de encontrar a estação de metrô mais próxima, desmaiou por asfixia devido ardência ao Spray de pimenta, mas logo foi socorrida por uma ambulância. Retornando para casa, conseguiu encontrar um bar que na ocasião estava com as portas fechadas. “Resolvi bater. O dono do estabelecimento logo nos cedeu um lugar em meio aos senhores que afirmavam nunca terem visto uma ‘intervenção policial tão ferrenha como aquela”.

Do lado de dentro era possível ouvir o estrondo que faziam na porta na tentativa de derrubá-la.  Noutra ocasião, de maior repercussão, quando os áudios do Temer e do Aécio vieram a público, grupos gritavam palavras de ordem e políticos realizavam discursos; a polícia enfrentava brutalmente grupos de manifestantes do ‘Anarco’ que, buscavam se aproximar do palco principal da praça da Candelária. “A participação destes grupos é muito importante, permitem a maior duração do ato que, sem a presença deles, passaria despercebido”, explicou.

Para a doutora em História Política, Elisa Goldman, a forma autoritária de atuação dos policiais não passa de uma herança do período da ditadura. “A separação da Polícia Civil e Militar são reflexos dos Anos de Chumbo. A truculência das operações militares está atuante ainda hoje, por meio das políticas de extermínio, como os Esquadrões da Morte, realizados nas regiões da Baixada Fluminense, Zona Oeste e Zona Norte”, explicou.

As irregularidades das operações policiais foram naturalizadas desde de a Ditadura, foi o que levou o estudante Gustavo Felício, de 27 anos, se mudar de Acari, comunidade da Zona Norte, onde nasceu e foi criado. A região pertence ao 41° Batalhão de Polícia Militar, que, de acordo com o estudante, é conhecido como o mais brutal e mortífero nas operações. “Os agentes possuem uma tática de execução específico, o objetivo deles é alvejarem no peito, para que pareça um disparo de contenção. Em seguida, ao invés de oferecer socorro ao baleado, derramam água gelada sobre o corpo, que gera choque térmico levando à morte”, desabafou.

Para Goldman, o quadro atual de insegurança pública no Brasil vem se fortalecendo desde à falência das UPPs e se mostra bem longe de ser resolvida. “Vivemos sob a égide de uma política que enxuga gelo e que não pretende evitar o aumento da violência”, explica. Ela acrescenta para reverter a situação é começar a pensar historicamente sobre o que representa a polícia hoje. “Uma polícia que possui uma justiça própria e que não é punida quando é corrupta. Temos também, uma corregedoria comprometida com vícios internos dos mesmos, e que infelizmente, não vejo outra saída senão a de  buscar políticas públicas voltadas para às classes sociais”, finalizou.


 Matheus Ambrósio

Reportagem realizada para disciplina de oficina multimídia

 

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