Jovens se distanciam das urnas em 2018

O Brasil passa por momentos turbulentos e decisivos. Neste ano, a responsabilidade de definir os novos governantes está nas mãos de 10.219.925 eleitores de todo o país e 7,02% são jovens entre 16 e 18, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).  Uma juventude cada vez mais conectada e com acesso à informação tem o poder de renovar a política brasileira, entretanto, essa não tem sido a realidade,; muitos deles estão desacreditados e se mostram apáticos em relação ao poder que o voto tem para mudar o futuro. É possível enxergar isso a partir da diminuição do número de eleitores dessa faixa etária. Segundo dados do TSE, em 2018 a representatividade dos idosos nas urnas será de 18% de eleitores contra 15,3% com idade entre 16 a 24 anos.

O descontentamento atual gera uma juventude cada vez mais distante de conquistar a mudança. De acordo com uma pesquisa realizada in-loco (no próprio local) por um grupo de alunos da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca, com jovens de ambos os sexos, de 18 anos a 27 anos e sem classe social definida, metade das pessoas não tem interesse por política e a outra metade não tem nem pouco e nem muito interesse. O estudante de fonoaudiologia Antonio Sabadini, 18, é um desses jovens desencantados. Ele relata que sua principal dificuldade é encontrar alguém em quem confiar para depositar seu voto. Mesmo sabendo da importância de exercer seu papel como cidadão, preferiu abdicar nas eleições municipais de 2016, quando, por ter apenas 16 anos, seu voto era opcional. “Política não é um assunto do meu interesse, mas vi algumas matérias sobre candidatos e pretendo, este ano, votar nulo por medo de votar em alguém que possa piorar ainda mais a situação do país”.

Esse medo pode ter uma influência do que é visto pelos jovens durante suas vidas em relação à política brasileira. Ainda de acordo com a pesquisa feita por alunos da Veiga, 89,8% dos entrevistados disseram que não votariam se o candidato estivesse enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Há quatro anos foi deflagrada no Brasil uma das maiores operações contra a corrupção, denominada Lava Jato. Políticos já foram condenados e presos, esquemas de pagamentos de propinas expostos. De acordo com a professora de ciências políticas Altineia Maria, 50, isso reflete a falta de interesse da juventude somado à ausência de uma cultura abrangente e igualitária para todas as classes. Os poucos que ainda se engajam de alguma forma não vêem uma solução concreta, mas isso pode ser um fator motivador para que eles sejam os próprios agentes modificadores no futuro. “O desencanto está muito presente na cultura brasileira, mas acompanha uma tendência mundial e se agrava com a conjuntura local em relação à corrupção”.

Política não se limita apenas a interesses partidários, é essencial também intervenções que atendam às necessidades sociais, como relata Denner Cezar Gonçalves, 32, que é  assessor no gabinete do vereador Rodrigo Pessoa, na Câmara Municipal de Paracambi, e trabalha desde cedo no meio político por acreditar que a mobilização é fundamental para trazer mudanças. Ele afirma que a falta da garantia de direitos básicos de bem estar da população, previstos na Constituição Federal, é um dos principais aspectos de desmotivação, não só dos jovens, mas da população brasileira em sua grande maioria. “A junção de diversos fatores desmotivacionais pode ser um impulso para que jovens queiram renovar, queiram ser eles próprios a diferença e desejem entrar no cenário político, mas não só como eleitores”, finaliza.

O olhar dos jovens sobre esses problemas que estão enraizados na cultura brasileira consegue tirar a esperança em mudanças significativas, porém o poder de inverter essa situação é deles, por isso é imprescindível que eles sejam ativos na participação da política. Mas, muitas das vezes, não é o que acontece. A professora e doutora em comunicação, pesquisadora do tema internet e política, Adriane Figueirola Buarque de Holanda, explica que atualmente o país passa por um déficit de representatividade política para a juventude, o que acarreta em consequências lastimáveis para o meio político, para renovação e para os próprios adolescentes. “As redes sociais deveriam ser usadas como espaço para debates políticos, do interesse do público mais jovem, o que seria essencial para engajar esses jovens no meio político”, afirma ela, que acredita ser muito importante estimular a reflexão da importância do voto como forma de exercer o papel de cidadão.

Em diversos momentos da história nacional, os jovens foram protagonistas de mudanças, como o movimento estudantil contra a ditadura militar no Brasil em que os estudantes se uniram por seus ideais e para contestar a repressão que sofriam na época. A partir disso, eles se tornaram um símbolo de luta e resistência. O ex-deputado estadual Felipe Peixoto acredita que a juventude precisa acordar para lutar pelos seus direitos, da mesma forma que era feito antigamente. “O jovem não vai mais para as ruas, ele não se sente representado pelas entidades. É preciso renovar, ter partidos que lutem pelas causas estudantis e acredito que o jovem pode contribuir muito para esse processo de renovação política que o país está vivendo.”

 

Arthur Rodrigues busca informações sobre a política nacional nos jornais. Foto: Stella Gomes

Arthur Rodrigues busca informações sobre a política nacional nos jornais. Foto: Stella Gomes

 

Mesmo que o jovem queira uma mudança, ele ainda vive incertezas. Para o estudante Arthur Henrique Rodrigues, 16, estar informado é essencial para saber o que acontece no país em que vive e procurar candidatos que consigam representar os ideais que ele acredita. Entretanto, como muitos outros adolescentes, ele não sabe em quem votar ainda, por não se sentir representado e achar que o seu voto é apenas mais um. No momento em que o jovem desacredita da importância do seu voto, se perde mais uma pessoa que poderia fazer a diferença. “Eu tenho vontade de votar, mas acho que meu voto não vai valer de nada”. Ele relata que sente falta de um diálogo familiar, um debate para entender melhor as questões de sua família e entender política como uma organização administrativa funcional.

Os jovens estão desacreditados em razão de um  discurso político que não o envolve, ou seja, não fala para ele. Contudo, ainda é possível considerar que eles  acreditam em uma transformação da conjuntura política atual brasileira. A alternativa para a estudante Nathália Rodrigues, 17, é a busca por informações. “Eu acredito que votando conscientemente, posso mudar o futuro do meu país”, relata. Ela escolheu tirar o seu título e votar nessas eleições presidenciais de 2018, mesmo o seu voto não sendo obrigatório. Para ela, a importância em estar conectada  aos meios informacionais pode fazer a diferença na hora de ir para as urnas, o que é necessário que os jovens façam, pois saber quais são as propostas e quem é o candidato é essencial para um voto responsável.

Fake news

Em 2016, a pós-verdade foi eleita a palavra do ano pelo dicionário de Oxford.  Esse termo está ligado às fakes news por significar “relativo a circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”. O movimento que já influenciou nas eleições presidenciais do Estados Unidos, onde pesquisadores descobriram que 46,5% do conteúdo de informações apresentadas eram constituídos por notícias falsas, chega ao Brasil como uma forte ameaça. Segundo Adriane Figueirola essas eleições serão marcadas pelas redes sociais, e há uma chance muito grande de que inteligência artificial seja usada para compartilhar notícias falsas que tenham um poder de persuasão devido ao seu apelo.

Ainda que os jovens desacreditem do plano político que é oferecido no momento pelos candidatos, eles estão sempre atualizados e buscando constantemente conhecimentos, notícias e fatos nos meios de comunicações. Com o advento da internet o poder da informação tem se tornado cada vez mais acessível, mas as fakes news tem sido uma barreira a ser ultrapassada.  Essa distorção da verdade que se propaga rapidamente pode influenciar diretamente no voto, como muitas pessoas não procuram saber a legitimidade dos fatos abordados nas matérias, elas podem ser enganadas sobre os seus candidatos tanto positivamente quanto negativamente.

A situação fica mais grave quando os eleitores se veem encurralados, sem saber como distinguir as notícias, não conseguem entender em que lugar pode checar se informação é verdadeira.  O problema é grande quando se trata de buscar notícias apenas em redes sociais, o que acontece bastante hoje em dia. Os usuários se prendem ao que recebem de dados, tudo o que é visto ou curtido é analisado e normalmente o que se vê nas páginas iniciais são assuntos relacionados ao que o indivíduo se relaciona, prendendo ele a um ciclo de informações parecidas, o que normalmente aumenta as chances de proliferação das fake news.  

Esse ciclo de postagens, de acordo com a preferência e gosto do usuário, causa uma inércia no pensamento de algumas pessoas. É imaginável que eles pressupõem que o que visualizam, em seu feed, seja uma verdade absoluta. Sem analisar diversos pontos de vista, não é possível formar uma ideologia daquilo que é melhor para um todo, e o jovem acaba preso em opinião que só busca o benefício de uma pequena parcela da sociedade. Por isso se dá a importância de debates com uma didática interessante e atrativa nos mais variados ambientes, como em família, na escola e na universidade, para que eles possam formar um pensamento crítico que contribua para o bem geral da nação.

Hoje a facilidade de encontrar e cair em uma fake news é enorme, mas é sempre importante ficar atento ao que se vê ou se escuta na internet para não ser enganado.

Saiba de algumas dicas importantes para não cair nas fake news nesta eleição:

  • Esteja sempre atento ao endereço online do site que está a matéria
  • Não acredite na primeira matéria que você lê, pesquise
  • Analise se o site é de um veículo de confiança antes de acreditar na notícia
  • Nunca compartilhe as notícias sem ler e procurar se as fontes são confiáveis
  • Cheque sempre a data que foi publicado e procure saber se existem outras postagens do mesmo assunto em datas diferentes
  • É importante a pesquisa para saber quem é o autor, ele realmente existe? já publicou outras matérias?
  • Procure agências que entendam do assunto, a Agência Lupa e A Pública, analisam  os fatos e mostram se é falso ou não.

Reportagem de Nilséa Fernandes e Stella Gomes para a disciplina Jornalismo Especializado, com mentoria dos editores do Diário da Província e da AgênciaUVA

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