Entre uma polêmica e outra, Bolsonaro busca espaço na corrida eleitoral

Em seu gabinete na Câmara, Flávio Bolsonaro mantem uma Bíblia. Foto: Fabrícia Sterce

Em seu gabinete na Câmara, Flávio Bolsonaro mantem uma Bíblia. Foto: Fabrícia Sterce

“O que aconteceu no Brasil em 1964 não foi uma ditadura, mas sim, um regime militar.” / “Os homens não são influenciados pelo meio em que vivem.” / “Gênero é um termo criado para minar a instituição família.” / “Conhecemos até gays que votariam no meu pai”.

Com certeza, você já deve ter ouvido alguma dessas frases. Elas são reproduzidas nas filas de supermercados, compartilhadas no Facebook, e ganham cada vez mais espaço nos diálogos populares brasileiros. As máximas são algumas pílulas ideológicas do deputado do PSL Flávio Bolsonaro, de 37 anos.  Ele diz seguir os passos do pai, Jair Bolsonaro, pré-candidato à presidência do Brasil. “A única diferença entre eu e ele é que torcemos para times opostos”, disparou, em entrevista no seu gabinete.

De família tradicional e evangélica, o deputado ingressou na política em 2003. Em seu gabinete no centro do Rio, faz questão de caprichar na decoração: fotografias da esposa e das duas filhas, troféus e quadros de agradecimento pela defesa dos militares ganham destaque nas prateleiras e paredes. Sobre a mesa, uma miniatura do carro do Bope relembra um quarto de menino, ao lado, uma das múltiplas versões da Bíblia Sagrada reforça sua idiossincrasia.

A miniatura do Bope é exibida com orgulho por Flávio Bolsonaro. Foto: Fabrícia Sterce

Flávia Bolsonaro. Foto: Fabrícia SterceA miniatura do Bope é exibida com orgulho por Flávio Bolsonaro. Foto: Fabrícia Sterce

Flávio desejou desde novo seguir a carreira jurídica, chegou a se formar em Direito, mas o chamado político pesou. “Desde adolescente, tinha admiração na forma em que meu pai era tratado. Tive o privilégio de ter dentro de casa um professor que nos ensinou a ser responsáveis”, afirmou ele, que foi eleito em 2002, com 21 anos. Os outros três irmãos não fizeram diferente. Anos antes, com apenas 17 anos, o atual vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) ingressava no mesmo ramo; já o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) resolveu atuar em São Paulo. E, se depender dos homens que carregam o sobrenome, o legado está apenas começando. Há também o caçula, Jair Renan Bolsonaro, de 19 anos, o único do casamento com Ana Cristina Valle; foi morar com o pai após a separação, é estudante de Direito e faz sucesso na página oficial do Facebook, que passa de 26.059 seguidores. O entusiasmo dos internautas se observa nos comentários e nas perguntas endereçadas, inclusive as relacionadas a uma possível candidatura.  

A corrida eleitoral não será fácil em 2018, tendo em pauta o cansaço muito grande por parte da sociedade; a confiança na classe política sofreu fissuras e demorará para ser reconquistada – uma tendência ao desgaste faz com que todos os candidatos sejam vistos da mesma forma. O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff acentuou esse quadro, por exemplo. A mestre em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Ana Paula Conde considera que a sociedade civil deve se organizar e pressionar para o funcionamento do Estado e avaliar as propostas dos candidatos. “É preciso acompanhar disputas políticas e ir para o jogo com estratégias bem fundamentadas. E reclamar (somente) não é uma delas”.

A atuação do patriarca e pré-candidato Jair Bolsonaro é acompanhada de destemor ao defender opiniões que variam entre “balas perdidas” (como ele chama os escorregões políticos travestidos de brincadeiras) e crimes tipificados. Recentemente, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pagar R$ 50 mil por danos morais à população negra. O crime aconteceu durante uma palestra no Clube Hebraico em abril do ano passado, no Rio de Janeiro. Na ocasião, o presidenciável disse: “Eu fui num quilombola em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”. A denúncia foi apresentada à procuradora geral da República, Raquel Dodge, que considerou a conduta “ilícita e severamente inaceitável”. Bolsonaro já tinha sido condenado em 2014 por incitação ao estupro, após uma “brincadeira” com a colega de Câmara dos Deputados, Maria do Rosário (PT/RS) – caso onde disse que a deputada não merecia ser estuprada por ser feia.

O parlamentar, ao longo de sua carreira, construiu uma imagem virtual alcunhada de “mito”. Atraindo o público conservador pelo espetáculo discursivo, os principais alvos de seus incisos são as minorias (Jair Messias Bolsonaro também fora condenado a pagar R$ 150 mil por ofensas a homossexuais). Em novembro de 2010, o presidenciável disse em programa da TV Câmara que a homossexualidade é falta de correção dos pais. “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Tá certo? Já ouvi de alguns aqui, olha, ainda bem que levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem.” Já em um debate sobre adoção de casais do mesmo sexo no programa de Danilo Gentili no SBT, afirmou: “90% desses meninos adotados vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza”.

Nem mesmo a filha Laura, de seis anos, escapou das declarações polêmicas. “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”, disse para o riso geral da plateia. O comentário gerou revolta nas redes sociais, sobretudo do público feminino, que considerou o discurso machista e misógino. “Eu vi esse vídeo do Bolsonaro e as minhas chances de talvez repensar em ter filho caíram instantaneamente”, publicou um usuário do Twitter.

Flávio e seu pai, Jair Bolsonaro, durante o lançamento de seu livro biográfico, em Belo Horizonte. Foto: Reprodução da internet

Flávio e seu pai, Jair Bolsonaro, durante o lançamento de seu livro biográfico, em Belo Horizonte. Foto: Reprodução da internet

BOLSONARO AOS OLHOS DO FILHO

Na maioria dos casos, uma biografia é escrita post-mortem; com o pré-candidato é diferente, sua história é contada pelo filho Flávio no livro “Bolsonaro – Mito ou verdade”. Funciona como um amplo pedido de desculpas às suas declarações anteriores ao Bolsonaro reformado, feitas principalmente na câmara e em programas de televisão. Em maio de 1999, por exemplo, disse: “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso”. Na biografia, Flávio esclarece: “…apenas sugeriu […] tudo não passava de uma alusão ao avô de FHC, que falara em fuzilar a família real na época da proclamação da República”.

Nas 200 páginas é possível mergulhar em uma narrativa que desconstrói aspas e episódios do passado; inclusive a vez onde o deputado apareceu durante a aprovação de uma emenda ao Plano Real com “um saco plástico com estrume de vaca, bem mole, e ameaçou jogar em todo mundo caso ela fosse rejeitada. Haha, era um tempero à la Bolsonaro”, escreve Flávio. “Ele jamais faria uma coisa dessas. Quer dizer, sei lá”.

A obra que reforça a figura do homem “durão” que ao mesmo tempo é cômico, aposta nas inversões históricas (como a de que Dilma não sofreu golpe, e que tampouco foi golpe em 1964). Torturadores são vítimas, fuzilamento é “força de expressão”, um saco de esterco sobre comissão é o tempero que só tem a realçar a personalidade irreverente do pré-candidato.

EDUCAÇÃO QUE VEM DE BERÇO

Se tornar um chefe de família é um cargo de grande importância para a família Bolsonaro. “É o momento de transferir para os filhos os ideais e experiências que vivenciamos”, é como pensa Flávio ao educar suas filhas, Luiza e Carolina. “Me tornei referência para os outros pais, em função da educação pautada naquilo que defendo: Escola Sem Partido, Valorização da Família, a importância de seguir a religião e os bons costumes”. Mas nem tudo são flores, algo lhe preocupa: “Tenho receio que minhas filhas sofram perseguições por carregarem meu sobrenome. Sei que devo prepará-las para se defenderem dos professores que tentarão impor suas preferências políticas”, afirmou.

Jair Bolsonaro reunido com a família. Na foto, ele abraça a caçula Laura. Foto: Reprodução da internet

Jair Bolsonaro reunido com a família. Na foto, ele abraça a caçula Laura. Foto: Reprodução da internet

Prevendo futuros problemas na maneira “antidemocrática” exercida no ensino fundamental e superior no Brasil, o deputado disse que não vai admitir que sejam moldadas por cartilha da esquerda que são executadas pelos educadores. “Nas aulas de História, ensinam que a Esquerda é a única forma de ver o mundo. Um aluno não é obrigado a redigir uma redação defendendo que a Dilma sofreu um golpe. Mas, pode dizer que o impeachment foi um processo democrático, de total acordo com a Constituição”, explicou.

O clássico embate de ideias entre pais e filhos não ocorreu na família Bolsonaro. De acordo com Flávio, não se recorda de algo que tenham discordado. Só a maneira de defender as ideias se diferenciam. “Meu pai sempre foi uma pessoa firme e direta e, até entendo como uma espécie de defesa criada no passado, bem no início de sua carreira, na década de 90. A maioria no Congresso era de Esquerda e alguém tinha que se fazer ouvir”, afirmou. Para Flávio, a diferença crucial entre os dois está na forma de fazer política: “Eu não precisei desbravar o caminho. Ele o fez com primor. Quando entrei , a trilha já estava pronta, apenas sigo meu ídolo”.

O sucesso do pai nas pesquisas DataFolha é resultado do trabalho direcionado à Segurança Pública, ressalta o deputado estadual. “Não sou unanimidade, mas minha votação expressiva vem do muito deste trabalho prestado. Quero deixar minha marca. Ver meu pai presidente em 2018”.

A atuação do Bolsonaro nas redes sociais e a rápida recepção de sua mensagem, simboliza uma crise de representatividade e desconfiança na democracia. Apesar da legislação do TSE, o Bolsonaro pai vem desenvolvendo a campanha presidencial indireta há mais de um ano. Sempre com frases de efeito e memes como marca a fidelizar seu público – Jair diz aquilo que uma fatia expressiva da sociedade que ouvir, e fala de forma simples, direta. “É mais fácil atrair os jovens para pautas específicas, relacionadas mais diretamente com seus interesses, que para assuntos mais gerais. Porém, este ano, as coisas estão muito confusas; a dúvida circula e corre entre opiniões de muitos eleitores”, afirma a cientista política. 

#BOLSONARO PRESIDENTE?

As eleições de 2018 estão se aproximando e, de acordo com o DataFolha, Jair Messias Bolsonaro ocupa o primeiro lugar numa possível disputa sem Lula. Para Flávio, a candidatura do pai é a oportunidade de reconstruir a política. “Pela primeira vez, meu pai vai poder apresentar aos brasileiros um governo exclusivamente de Direita. Ou seja, algo inédito vai acontecer neste período”, anunciou.  Por outro lado, o cenário atual torna propostas radicais como a única solução para a reforma política.  “Quando um suposto outsider toca em questões delicadas do país, e oferece soluções efetivas, como a segurança pública que impacta em todas as classes sociais (apesar da violência atingir de forma muito mais grave os mais pobres) e tem um custo altíssimo”, explica a cientista políticaEla acrescenta que o termo atribuído se dá por causa do seu longo mandato.

Leia também: Extremistas buscam brechas na política brasileira atual

No entanto, a desconfiança e a rejeição do candidato ainda são mais expressivos que sua popularidade. O número de votos nulos e em branco supera os dados a todos os candidatos. No melhor cenário para o candidato do PSL, ele teria 25% dos votos e o índice de brancos/nulos chegaria a 28%. Sobre o assunto, Flávio afirma apenas que não pode responder pelo pai. Mas toca, em entrevista, em algumas medidas de um possível governo bolsonarista.

Quais serão as primeiras medidas?

Flávio Bolsonaro: A garantia de segurança dos profissionais de segurança; que é banalizada diante dos criminosos. Qualquer pessoa que esteja ilegalmente com um fuzil, o polícia está autorizada a matá-la. Aqui no Brasil, a legislação é pró-bandido.

Você tem em mente outras mudanças?

Será voltada [sic] para as audiências de custódia, que sofrerão modificações no tempo de duração. Aqui no Rio, 60% dos criminosos respondem em liberdade. Desconsiderando o esforço e a exposição dos policias. Outra decisão é em relação à redução da maioridade penal, que foi aprovada na Câmara e está parada no Senado. No Brasil, o marginal está muito bem armado. Eles têm certeza da impunidade, sabem que em poucos dias, estarão de volta às ruas perturbando a paz da população.

No caso da policial que reagiu atirando no assaltante, foi um ato impulsivo ou faz parte de um procedimento padrão?

Qualquer pessoa que anda legalmente armada, sendo policial ou não, está preparada para seu uso. Para conseguir um porte de arma de fogo é necessário o cumprimento de uma série de requisitos; gasta-se dinheiro e enfrenta-se todo um processo burocrático. Ou seja, todo aquele que possui uma arma é, em tese, alguém mais qualificado do que os outros cidadãos. A policial agiu conscientemente, percebeu que era seguro fazer o que fez.

Deputado, para você nosso sistema penitenciário é falido?

O sistema penitenciário não recupera ninguém em lugar nenhum do mundo. Se a pessoa não quer se recuperar não adianta.

Você considera que somos influenciados pelo ambiente onde vivemos?

Não. Ninguém nasce bandido. É sempre uma escolha; não importa a classe social. Por exemplo, existem crianças que nasceram juntas, na mesma comunidade, tem acessos às mesmas coisas e estão expostas às mesmas coisas, e têm destinos diferentes. Moradores de classe média desviam dinheiro e acham que não é crime. O caminho para um é mais difícil do que para outros. Mas ninguém nasce bandido!

O acesso ao porte de armas facilitaria na implementação de segurança nas ruas?

O debate sobre o armamento do cidadão é uma garantia individual. Para mim, o direito à vida é inegociável. Diante de uma realidade como a nossa – onde os marginais têm fácil acesso às armas de grosso calibre e os policias não conseguem promover segurança a todos – é uma covardia o Estado proibir o uso de um instrumento que iria pelo menos colocá-los no mesmo nível diante daquele que vêm lhe assaltar e lhe estuprar. Os impactos na segurança seriam fantásticos. Se o marginal imaginasse que pessoas estariam armadas jamais iriam fazer isso. E isso não resultaria num bang-bang, vivemos um bang-bang devido à impunidade.


Reportagem de Eric Macedo, Matheus Ambrósio, Fabrícia de Sá Sterce para a disciplina Jornalismo Especializado, com mentoria dos editores do Diário da Província e da AgênciaUVA

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