Extremistas buscam brechas na política brasileira atual

Opiniões polêmicas fazem cada vez mais sucesso no Brasil e se proliferam nas redes sociais

A história da humanidade está ligada ao extremismo. As Cruzadas, o nazifascismo e o regime soviético são alguns exemplos de políticas marcadas pela presença de ideias radicais e intolerantes, que levaram a graves consequências em escala mundial. Desde que se compreende como tal, o ser humano tem suas próprias crenças e tenta as impor aos demais, geralmente, de forma agressiva e violenta.

O pensamento radical está presente em todos os movimentos extremistas. Embora esse seja um termo muito usado de forma vaga, segundo os dicionários, é descrito como aquele “intransigente quanto ao modo de ver um assunto”. Na maioria das vezes, é acompanhado pelo fundamentalismo: conceito conservador e discriminatório à diversidade que prega o seguimento literal dos livros sagrados como, por exemplo, o Estado Islâmico.

Oitenta e cinco anos após a ascensão de um dos maiores exemplos de política extremista – o nazismo – grupos radicais encontram hoje, com a facilidade e rapidez da internet, a possibilidade de expressar suas “opiniões”, não importando o quão polêmicas sejam. Surge assim um quadro que parece se inspirar nos erros do passado.

O Brasil da primeira metade do Século XX foi marcado pela presença de diversos grupos influenciados pelo nazifascismo. Em 1928, no município de Timbó, em Santa Catarina, foi feito o primeiro registro de um partido nazista no país. Quase uma década depois, em 1937, já existiam filiais em outros 17 estados. Na prática, eram movimentos que, devido à intensa imigração, principalmente nas regiões sul e sudeste, buscavam aproximar a comunidade alemã através dos ideais de Adolf Hitler.

Outros dois grupos germânicos eram a Frente Alemã para o Trabalho e o Círculo da Juventude Teuto-Brasileira. O primeiro funcionou como fachada para nazistas que não apoiavam Hitler abertamente. O segundo foi a versão brasileira da Juventude Hitlerista, instituição que, na Alemanha, obrigava crianças e jovens a serem instruídos pelo viés nazista. Já em solo nacional, motivado por ideais fascistas, foi que surgiu a Ação Integralista Brasileira (AIB), que enaltecia o nacionalismo; era a favor da criação de um partido único e contra o comunismo além de, por vezes, influenciar o antissemitismo.

Atualmente, ao considerar o acesso à informação disponível, parece plausível que as pessoas cada vez mais busquem e aceitem opiniões diferentes. Em vez disso, o que se tem visto é uma crescente intolerância, principalmente na internet. “A partir das redes sociais é possível criar uma identidade comum em torno de ideias, modos de vida específicos. O que faz com que as pessoas passem a se sentir mais encorajadas para atuar coletivamente, em prol da defesa de pautas polêmicas”, afirma a doutoranda em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) Camila Rocha.

A polarização em torno de certos temas cria embates que ocorrem de maneira agressiva, encontrando suporte on line. No mundo virtual, torna-se fácil exprimir ideias normalmente rejeitadas pela maioria no cotidiano. Para o antropólogo Lenin Pires, diretor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense (UFF), as redes sociais estão na raiz dessa sociedade veloz, que tanto pode produzir proximidade quanto distância. “São tecnologias que permitem informar, mas também desinformar e fazer disso uma contrainformação, a serviço da dominação e do cerceamento de posturas mais tolerantes”.

Notícias inventadas, com informações falsas, incorretas ou fora de contexto são facilmente compartilhadas na era digital, desde que reiterem uma opinião. Crédito: Facebook / Reprodução

Notícias inventadas, com informações falsas, incorretas ou fora de contexto são facilmente compartilhadas na era digital, desde que reiterem uma opinião. Crédito: Facebook / Reprodução

Mesmo décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, pode-se pensar que o nazismo e todos seus atos nefastos fazem parte só dos livros de história, mas não é a realidade. Ele se reinventou e encontrou lugares anônimos que propiciam o compartilhamento de ideias preconceituosas e violentas, que se proliferam no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Os neonazistas são notórios por feitos violentos, tanto verbal quanto fisicamente, tais como espancamentos e assassinatos. Seus alvos são as minorias: negros, estrangeiros, mulheres, homossexuais, bissexuais e transgêneros. Em 2009, integrantes do grupo Impacto Hooligan foram os autores de um atentado com bomba caseira que aconteceu durante a Parada do Orgulho LGBT, em São Paulo. Ainda no mesmo dia, cometeram o assassinato de Marcelo Campos de Barros, de 35 anos. Um homem negro e homossexual.

Nos Estados Unidos, supremacistas brancos aumentaram sua voz e espaço, principalmente após a eleição do presidente Donald Trump. Recentemente, em Charlottesville, no estado americano da Virgínia, uma passeata abertamente neonazista foi realizada. Houve confronto com grupos antirracismo, resultando em feridos e morte. Além disso, atitudes xenófobas têm sido mais frequentes em meio à crise de imigração que afeta diversos países, principalmente na Europa.

É perceptível que a intolerância, ao encontrar representação no mundo real, sai do virtual e acaba produzindo crimes violentos. Essa não é a única consequência negativa do extremismo. Hoje em dia no Brasil, a polarização política é tamanha, que criou um abismo entre grupos que possuem ideais diferentes. Em ano de eleição, essa cisão se torna ainda mais notável.

As redes sociais, principalmente o Facebook, se tornaram ferramenta de marketing político e ultrapassaram o âmbito da troca de opiniões. As fake news – notícias falsas – estão sendo cada vez mais disseminadas, podendo ser utilizadas tanto para a promoção quanto para a difamação de candidatos. O resultado das eleições de 2016, nos Estados Unidos, é exemplo do poder que as redes têm exercido. Segundo Camila Rocha, as redes sociais possibilitam o encontro entre pessoas que muitas vezes estão espalhadas pelo território nacional e que, de outra forma, permaneceriam isoladas. Além de facilitar a
expressão de certas ideias que não costumam encontrar eco no debate público.

Falas-Extremistas

Apesar do intenso uso do Facebook,
as demais redes, como o Twitter, também são usadas como ferramenta de
disseminação de pensamentos radicais. Foto: Twitter / Reprodução

Essas pautas costumam vir disfarçadas em discursos empolados, que encontram eco entre grupos que estão insatisfeitos com os rumos da política atual. Existem muitas divisões possíveis, mas a que se vê no Brasil está focada principalmente nos presidenciáveis. A partir da operação Lava Jato, deflagrada em 2014, o que se seguiu foi uma avalanche de escândalos de corrupção, lavagem de dinheiro e abuso de poder.

Tal cenário pode, em partes, explicar os motivos do sucesso de discursos radicais. “A partir da Lava Jato, o que se viu foi o combate à corrupção e a criminalização da política. O extremismo está ligado ao descontentamento da população, que encontra em figuras messiânicas a solução para o estado da política brasileira. Mas o salvacionismo é perigoso”, alerta Pedro Villas Bôas Castelo Branco, professor de Ciência Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Visto como um outsider, o ex-militar Jair Bolsonaro surge como uma das alternativas mais populares em certos grupos extremistas. Defendendo conceitos como a moral, a família, a religião e a militarização, o discurso de extrema-direita do deputado faz sucesso em alguns setores da sociedade. Muitos grupos no Facebook, o maior deles com mais de trezentos mil membros, oferecem apoio à figura que veem como “mítica”. Aqui, a idolatria se confunde com política e qualquer opinião contrária ao conservadorismo é rechaçada.

Opiniões-Polêmicas

Opiniões polêmicas e controversas
encontram livre espaço de circulação em grupos que reúnem pessoas com
mentalidades semelhantes. Foto: Facebook / Reprodução

Outra figura que faz sucesso na internet é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em abril deste ano por acusações de corrupção. A cena então se repete. Vários grupos se espalham pela mesma rede social, nesse caso para clamar pela liberdade do petista. “Lula Livre” se tornou o mote da mesma porção da sociedade que considera o impeachment de Dilma Rousseff um golpe. Para a esquerda, as pautas mais importantes são as dos direitos civis e diminuição da desigualdade. Por isso, os feitos socioeconômicos da era PT acabam valendo mais para algumas pessoas do que as acusações, vistas como infundadas.

Em ambos, encontra-se uma quantidade considerável de pessoas que não estão dispostas a discutir de forma saudável e fomentar debates, permanecendo em posições de afastamento daqueles que vão contra aos ideais que elas seguem. “Cada vez mais, as redes produzem fenômenos presenciais onde em lugar do diálogo, se faz a opção pelo enfrentamento e aniquilação da diferença com a qual se recusa compor uma fusão de horizontes”, afirma Lenin Pires.

Lenin-Pires

“Construir consenso, uma das maiores
habilidades dentro de uma sociedade democrática, requer tempo e dedicação.
Semear suspeitas e discórdias é muito mais fácil, principalmente onde a
confiança prévia entre os sujeitos não foi construída”, acrescenta Lenin.
Foto: Acervo pessoal

A inclusão no debate público, a partir de um processo humanizado de escuta e compreensão de demandas reais, é uma das formar mais eficazes de evitar o avanço do extremismo, segundo Camila Rocha. “No dia a dia isso significa, por exemplo, não excluir das redes sociais um amigo ou familiar que discorde ou se posicione de maneira radicalmente divergente, mas procurar se aproximar da pessoa e se esforçar para criar empatia. Sem julgamentos, sem criar rótulos ou estereótipos”. Pedro Castelo Branco concorda e acrescenta que o extremismo só pode ser combatido com a democratização, o voto e a participação da população. “No Brasil, ainda se debate muito pouco. Não se deve banalizar o debate, o voto, os crimes e a corrupções”.


Reportagem de Andressa Gabrielle, Camilla Castilho e Leticia Heffer para a disciplina Jornalismo Especializado, com mentoria dos editores do Diário da Província e da AgênciaUVA

Um comentário sobre “Extremistas buscam brechas na política brasileira atual

  1. Pingback: Entre uma polêmica e outra, Bolsonaro busca espaço na corrida eleitoral | AgênciaUVA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s