Resistência, guerrilha e contracultura

O ano de 1968 ficou marcado na história por meio de uma explosão de acontecimentos no mundo inteiro. Era o período da Guerra Fria e, na França, na Tchecoslováquia, nos Estados Unidos e no Brasil, milhares de pessoas clamavam por liberdade e melhorias nas condições trabalhistas e sociais, em locais que eram, muitas vezes, comandados por governos rígidos e autoritários.

O Brasil vivia tempos sombrios. Os militares haviam tomado o poder à força em 31 de março de 1964, originando o golpe que destituiu o presidente João Goulart e dando início ao que é considerado um dos períodos mais duros da história brasileira. A ditadura militar durou 21 anos, só vindo a terminar em 1985, e trouxe incontáveis mudanças para a sociedade brasileira.

Durante este período, principalmente na efervescente década de 60, diversos setores da sociedade se rebelaram contra as normas vigentes e passaram a reivindicar melhorias e o direito à liberdade, sendo fortemente reprimidos pelo Departamento de Ordem Política e Social, DOPS, como ficou conhecida a polícia responsável por grande parte das torturas e assassinatos cometidos na época.

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Ficha de pessoas procuradas pelo Dops (Reprodução)

Enquanto algumas pessoas recorreram à guerrilha armada como forma de revolta, uma parcela da população encontrou refúgio na contracultura, produzindo materiais artísticos como forma de protesto e deixando heranças culturais que são apreciadas ainda hoje. 

 

A guerrilha armada

Em 1968, grande parte do mundo passava por uma revolução cultural jamais vista antes, mas no Brasil a ditadura apenas se fortalecia. Diante deste cenário político extremamente conturbado, um acontecimento marcou a história: o assassinato, em 28 de março de 1968, do estudante secundarista Edson Luís.

O jovem paraense, de apenas 18 anos, participava de uma manifestação no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Ele e outros estudantes protestavam contra o aumento do preço da comida no estabelecimento, onde também funcionava o Instituto Cooperativo de Ensino. Uma tropa da polícia militar invadiu o local e respondeu com violência. Edson levou um tiro à queima roupa e morreu na hora. Outro estudante também viria a morrer mais tarde no hospital.  

As cenas que se seguiram chocaram grande parte da população. Temendo que os policiais desaparecessem com o corpo de Edson, os estudantes o carregaram até a Assembleia Legislativa e lá realizaram o velório. O trajeto posterior até o cemitério São João Batista foi acompanhado por cerca de 50 mil pessoas, e o rapaz foi enterrado, sob forte comoção, ao som do Hino Nacional.  

Desde o golpe militar de 1964, que destituiu o presidente João Goulart, o Brasil passava por um endurecimento crescente, cujo reflexo podia ser visto na política, na cultura e na sociedade em geral. Parte da população acreditava que a derrubada do poder sufocante que governava o país só seria possível por meio da violência. Diante do aumento da repressão policial, a luta armada passou a crescer a partir de 1967, como explica o historiador Dalton Cunha

— A guerrilha tinha como ponto de partida partidos de esquerda arremessados na clandestinidade e organizações igualmente tidas como ilegais. Os grupos armados organizavam-se em pequenos grupos – as chamadas células – que, em tese, eram ligados por suas lideranças a um comitê que centralizava as ações. No entanto, na prática, cada organização foi tomando um rumo próprio em função das crenças em suas ideologias, concepções e estratégias. O resultado foi o surgimento de várias dessas organizações.

Buscando inspiração em revoluções que haviam obtido sucesso, como as ocorridas na China, no Peru e em Cuba, o número de dissidências surgidas de organizações maiores aumentou e grupos isolados aderiram à violência como forma de resistir ao regime militar. Respostas policiais cada vez mais truculentas, como a que levou à morte dos estudantes, ficavam cada vez mais comuns. Foi nesse contexto que surgiram alguns dos  grupos mais famosos do período, como a Aliança Libertadora Nacional (ALN), fundada por Carlos Marighella em 1968.

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Carteira de filiação de Carlos Marighella ao PCB (Imagem: Arquivo Público do Rio de Janeiro)

Ele criou o grupo em resposta à expulsão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ocorrida no ano anterior. Marighella lutava contra a repressão desde a Era Vargas, quando foi preso repetidas vezes. Após um curto mandato de deputado federal, passou alguns anos na China para conhecer a Revolução Chinesa. Em 1964, após o golpe militar, foi preso e baleado por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Foi libertado no ano seguinte e aderiu à luta armada contra a ditadura.

Marighella foi uma das figuras mais conhecidas da guerrilha e escreveu diversos livros sobre o assunto. Foi de autoria dele, em conjunto com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), do qual participou Fernando Gabeira, um dos crimes mais conhecidos do período: o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em setembro de 1969. Dois meses depois, Marighella seria assassinado em uma emboscada do DOPS.

1968 era assim: preto ou branco, bom ou mau, capitalista ou comunista. A polarização estava presente em praticamente todos os aspectos da sociedade. Assim, muitos jovens, principalmente universitários, viam na luta armada a única forma de instituir um governo socialista e igualitário, mesmo que o risco direto fosse a tortura ou a morte.

Outra organização marcante da época foi a Ação Popular, que ficou conhecida como a esquerda cristã por ter se formado a partir de uma dissidência da Juventude Universitária Católica (JUC). A maior parte dos militantes da AP eram estudantes, e o movimento tinha forte ligação com a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Foi de autoria de um grupo de militantes da AP um dos atentados mais famosos dos anos 60: a explosão de uma bomba no Aeroporto de Guararapes, no Recife, que tinha como alvo o general Costa e Silva, candidato à presidência em 1966. Ele não estava no aeroporto, mas a bomba matou duas pessoas e feriu outras catorze.

Um dos fundadores da AP, o ativista Betinho, afirmou que o atentado havia sido de responsabilidade de um membro isolado da organização. O grupo se inspirava na Revolução Chinesa, de cunho socialista, e tinha como estratégia aproximar os militantes da população rural. Essa ideia seguia o exemplo de diversas revoluções socialistas que haviam sido vitoriosas ao redor do mundo. 

Na Rússia, a ação de operários, soldados e camponeses havia derrubado o Czar. Na China, a revolução foi feita por um exército camponês que tomava regiões inteiras. Em Cuba, o grupo revolucionário capitaneado por Fidel Castro e Che Guevara conseguiu derrubar o governo. No Brasil, porém, a ditadura era muito mais cruel e rígida do que se havia imaginado.

68 foi palco de um número crescente de assaltos a bancos, que tinham como objetivo financiar a guerrilha armada, e até mesmo a hospitais militares para roubar armas. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) estava por trás de alguns desses crimes e era formada em sua maioria por militares desertores do Exército. O mais notável deles foi o capitão Carlos Lamarca, que não concordava com o controle do Estado por parte dos militares e roubou armas do quartel para lutar contra a ditadura.

No mesmo dia da Passeata dos Cem Mil, 26 de junho de 1968, a VPR lançou um carro-bomba com 20 quilos de dinamite em direção ao Quartel General do Exército, em São Paulo. O soldado Mário Kozel Filho, que estava de guarda, morreu na hora e outros seis militares ficaram feridos. Mário tinha 18 anos e havia ingressado no Exército apenas seis meses antes do atentado.

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Capa do jornal O Globo de 27 de junho de 1968 (Reprodução)

 

Em outubro, a Aliança Libertadora Nacional e a VPR uniram esforços para assassinar um militar norte-americano que havia se mudado para São Paulo. Charles Chandler era veterano da Guerra do Vietnã e estava no Brasil com uma bolsa de pós-graduação em Sociologia. Ele era conhecido por ter trabalhado em um local que torturava prisioneiros vietcongues. As lideranças da ALN e da VPR julgaram que o militar estava no Brasil para ensinar técnicas de tortura à polícia.

Charles foi morto no dia 12 de outubro enquanto saía de sua casa, em Sumaré, São Paulo, por dois militantes dos grupos guerrilheiros. Segundo informações do extinto jornal Folha da Tarde, Markito, representante paulistano de Carlos Marighella, disparou seis tiros de revólver, e Diógenes Oliveira deu uma rajada de metralhadora. O militar norte-americano foi morto na frente da esposa e do filho de 4 anos.

Os motivos

O ano de 1968 viu um fortalecimento da ditadura como ainda não havia ocorrido nos quatro anos anteriores. Esse fato, aliado a diversos acontecimentos cruéis, como a morte do estudante Edson Luis, levaram a manifestações. A mais famosa delas foi a Passeata dos Cem Mil, ocorrida em junho no Rio de Janeiro. Ela foi pacífica, mas se espalhou pelo resto do país em ocasiões que foram, muitas vezes, respondidas com violência.

Para o jornalista Zuenir Ventura, a guerrilha veio como solução para o desespero e era baseada na pressa por melhorar a situação do país. A rigidez e a truculência policiais eram regra e ficavam cada vez piores. Reuniões estudantis eram interrompidas pela polícia e os participantes eram presos. Uma reunião da UNE, no interior de São Paulo, terminou com cerca de 800 estudantes presos pela simples participação no evento.

Para os militares que haviam todo o poder, o golpe de estado, que eles chamavam de revolução, não tinha como objetivo apenas a deposição do presidente João Goulart. Eles citavam o combate à “subversão e a corrupção” e tentavam impedir que o comunismo, que fazia sucesso mundo afora, se instalasse no país. Para isso, utilizaram diversos meios escusos.

Além da violência, outra forma de repressão muito utilizada no período da ditadura foram os Atos Institucionais (AI). Baixados de 1964 a 1969, eram decretos e medidas que estavam acima da própria Constituição brasileira e serviam como forma de aumentar o alcance do poder militar que governava o país. A partir do primeiro ato, o que se seguiu foi uma escalada do endurecimento do regime militar, culminando no que foi considerado o mais rígido de todos: o AI-5.

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Criação: Camila Castilho

 

O AI-5 marcou o fim sufocante daquele que entrou para a história como o ano que não terminou. Muitos jornalistas e intelectuais foram presos e posteriormente torturados por manifestarem-se contra a ditadura. Segundo Zuenir Ventura, “68 foi um tempo muito difícil para viver e trabalhar. Para quem se expressava escrevendo, era terrível, mas pior do que a censura era a autocensura: é algo que você internaliza e acaba se policiando, o que se torna um efeito colateral”.

A censura prévia ultrapassou a seara dos meios de comunicação e se estendeu até a música, o teatro e o cinema. O ato durou por dez anos e marcou o início do período que ficou conhecido como Anos de Chumbo, devido à resposta cada vez mais violenta e repressora da polícia. A “punição aos inimigos do regime”, sustentada por atos como o AI-5, torturou e matou muitas pessoas ao longo dos anos sombrios da ditadura.

A emergência da contracultura

O ano de 1968 entrou para a história porque nunca antes havia existido tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. A efervescência se espalhava pelo mundo como uma chama. “Foi um ano mágico em todos os sentidos. Incendiou mentes e fez explodir em cinema, música, arte, passeatas. Foi algo místico. Num mesmo momento, ao redor do mundo, pessoas em cidades diferentes começaram a agir igual”, relembra o jornalista Zuenir Ventura.

Nos Estados Unidos, que lutavam contra o Vietnã, diversos jovens protestavam contra a guerra. O movimento dos direitos civis buscava igualdade para os negros e atingiu seu ápice na figura do pastor Martin Luther King, assassinado em abril de 68. Os hippies se espalhavam pelo país com flores no cabelo e sonhos no coração, e clamavam pelo fim da guerra e pelo avanço do amor.

Na França, o movimento estudantil deu início a uma revolução que tornou mundialmente famoso o Maio de 68. Com a adesão dos trabalhadores, a greve durou um mês e parou o país. A Primavera de Praga, que buscava trazer a democracia de volta a Tchecoslováquia, teve seus sonhos esmagados por tanques soviéticos.

Ao redor do mundo, os jovens pediam por mais liberdade e menos autoritarismo. No Brasil, a ditadura estava a pleno vapor e ficava cada vez mais rígida. Os militares sufocavam cada vez mais qualquer manifestação contrária ao regime e encontravam suporte nos atos institucionais que legitimavam as atrocidades que cometiam.

Em meio a esse contexto conturbado, uma das formas de resistência era a cultura – ou melhor, a contracultura -, que lutava contra as normas estabelecidas e propunha um modo diferente de viver do que aquele considerado “normal”. Vendo a arte não só como forma de expressão mas também como forma de resistência, os anos 60 se mostraram um dos períodos mais prolíferos na criação de música, arte e cinema.

Os Estados Unidos viviam o auge do rock psicodélico, que muitas vezes buscava inspiração em drogas como LSD, maconha e haxixe. Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors e The Beatles serviram de estímulo para muitos artistas tupiniquins. A França fez explodir a Nouvelle Vague, movimento cinematográfico que rejeitava as regras do cinema comercial e teve como principais expoentes Jean-Luc Godard e François Truffaut.

No Brasil, 68 marcou um dos períodos mais emblemáticos da produção cultural e artística. Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Zé, Rita Lee, Nara Leão e Gal Costa são apenas alguns dos nomes da música que marcaram aquela época e continuam atuais ainda hoje. Um dos movimentos culturais mais famosos surgidos em 68 é o da Tropicália, que se baseava na mudança não só do governo, mas também da mentalidade vigente como forma de resistir à ditadura. A banda Os Mutantes se tornou um marco desse estilo, com canções célebres como “Panis et Circensis”.

Na época, a contracultura pregava que era necessário romper com os costumes tradicionais. Por isso, alguns artistas buscaram influências externas, como as das guitarras norte-americanas, para criar um estilo próprio que fugisse do convencional. A liberdade de expressão era o mote, e a Tropicália misturava elementos de diversas culturas como rock, samba, bolero e bossa nova para dar origem a algo que ainda não havia sido visto antes. É o que explica o historiador Dalton Cunha:

— A contracultura, particularmente o Tropicalismo, buscava uma equidistância da polarização ideológica que caracterizava o período. Ao mesmo tempo que criticavam a sociedade de consumo e as práticas imperialistas norte-americanas, rejeitavam o socialismo stalinista e centralista. Não estavam alinhados ao que se oferecia àquela época: criticavam o modelo tradicional de família, valorizavam a transgressão e negavam o discurso intelectual. Nesse sentido, o movimento buscou múltiplas influências que variaram entre a cultura de massa, como o rock, até ritmos genuinamente nacionais.

A banda Os Mutantes e Tom Zé achavam que o tropicalismo era a saída, enquanto artistas como Gilberto Gil e Elis Regina eram a favor do nacionalismo como forma de se expressar. Quer concordassem ou não, o certo é que muitas das célebres músicas que ouvimos hoje nasceram dessa época conturbada e inspirada, como “Alegria, Alegria”.

Os tropicalistas haviam tomado a ideia a partir do movimento antropofágico ocorrido décadas antes, que tinha como mote digerir a cultura internacional e transformá-la para a cultura brasileira. O nome surgiu de uma obra de Hélio Oiticica. Para a Tropicália, a estética era a forma de obter a revolução e a liberdade podia ser vista nas roupas, no modo de agir e na forma de cantar.

“Tropicália parece uma coisa viva, que está acontecendo. Tropicalismo parece uma escola, um movimento num sentido mais convencional. Eu não sentia tanta atração pela ideia de Tropicalismo, porque botar esse nome parecia que a gente queria fazer um negócio dos trópicos, no Brasil e do Brasil. Não queria que fosse esse o centro da caracterização do movimento, porque ele queria ser internacionalista e anti-nacionalista.  Tendia mais pra o som universal. (…) Tudo isso era vivido como novidade internacional que a gente queria abordar assim desassombradamente. Mas hoje acho que foi o nome mais certo possível”, disse Caetano Veloso em entrevista a escritora Ana de Oliveira.

As músicas também vinham como forma de protesto, trazendo mensagens por vezes secretas, por vezes nem tanto assim. “É Proibido Proibir”, inspirada pelas manifestações de maio 68 na França, foi cantada por Caetano no Festival Internacional da Canção daquele ano e vaiada pela plateia. O discurso de resposta do cantor se tornou célebre:

“Mas é isso que é a juventude que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vai sempre matar o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada… Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos!”

É praticamente impossível lembrar da música de 68 sem falar de “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, hino que marcou a geração que andou de braços dados ou não. Crítica direta ao governo militar, foi entoada em manifestações país afora e reverbera ainda hoje na mente de muitos.

O Cinema Novo também foi um grande marco da época, ainda que tenha surgido em 1960. Buscando inspiração para pensar fora da caixa, como faziam a Nouvelle Vague na França e o neorrealismo na Itália, cineastas passaram a produzir obras como o Brasil ainda não havia visto antes. Repleto de ideais socialistas e marxistas e de críticas sociais e políticas, o fazer cinema se tornou, para uma parte dos artistas, forma de resistência.

Alguns dos filmes mais famosos do período são Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, que aborda temas políticos e sociais, e Bandido da Luz Vermelha (1968), dirigido por Roberto Sganzerla e principal representante do Cinema Marginal, que foi marcado pela insistência dos diretores para realizar filmes e acabou gerando a marginalização das exibições nos circuitos cinematográficos.

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Capa do filme de maior sucesso de 68, dirigido por Roberto Sganzerla (Reprodução)

 

Já na literatura, que encontrava dificuldades com a censura por depender de editoras para publicar livros, se destacaram nomes como Ferreira Gullar, que escreveu Poema Sujo durante o exílio, e Antônio Callado, autor do livro Quarup (1967).

Na arte, figuras como Hélio Oiticica, LÍgia Clark e Ivan Serpa desafiaram os padrões e as normas vigentes para criar algo diferente e provocador. Muitos foram detidos e produziram obras de dentro de presídios.

Os exilados

A repressão policial, que prendia e torturava arbitrariamente qualquer cidadão brasileiro, ficava cada vez pior e acabou por causar a morte do estudante Edson Luís, que participava de uma manifestação em um refeitório secundarista, em março de 68. O enterro dele foi acompanhado por mais de 50.000 pessoas e a aqueles que compareceram à missa realizada em homenagem a ele sofreram violenta resposta policial.

Três meses depois, a Passeata dos Cem Mil tomou o centro do Rio de Janeiro com diversas reivindicações. O governo militar, comandado pelo general Costa e Silva, abriu espaço para diálogo, mas não passava de uma farsa: ele e a cúpula governante estavam planejando formas ainda mais rígidas de reprimir as manifestações da sociedade.

O golpe mais duro contra a democracia veio por meio do Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968. O AI-5 foi o mais rígido e autoritário dos 17 Atos Institucionais decretados durante a ditadura militar, e concedia ao Presidente da República poderes praticamente ilimitados, entre eles o de assumir o Congresso e cassar mandatos políticos.

A censura foi a marca deste ato, que proibiu a circulação de jornais e livros considerados subversivos, proibiu músicas e fez com que diversos artistas fossem proibidos de exercer a livre expressão. Muitos foram presos e torturados e acabaram seguindo para o exílio em outros países. Alguns só retornaram com a anistia, que aconteceu em 1979.

Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em dezembro de 68 após terem diversas músicas censuradas. Em julho do ano seguinte, ambos partiram para o exílio em Londres e só retornaram ao Brasil em 1972.

Chico Buarque, também preso no fim de 68, era considerado “subversivo” pela ditadura. Em janeiro do ano seguinte, ele viajou para a França para fazer uma apresentação musical e seguiu para a Itália, onde se exilou por pouco mais de um ano. Chico e a então esposa, a atriz Marieta Severo, tiveram uma filha em Roma.

O escritor Ferreira Gullar, que era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi preso após o AI-5 e, depois de ser solto, passou a viver clandestinamente. Deixou o Brasil em 1971 e passou por diversos países, entre eles a Argentina, onde escreveu sua obra prima – o “Poema Sujo”. Segundo ele, o trabalho surgiu da necessidade de “escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”. Gullar voltou ao Brasil em 1977 e faleceu em 2016.

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Arte: Camila Castilho

Outro militante do PCB era o arquiteto Oscar Niemeyer, que nos anos 60 foi coordenador da Escola de Arquitetura da Universidade de Brasília (UNB). Após pedir demissão da UNB como forma de protesto contra o regime militar, foi perseguido e se exilou na França em 1967. O arquiteto montou escritório na rua mais famosa de Paris, a Champs-Elysées, e permaneceu no país até o início da década de 1980.

O cineasta Glauber Rocha, também perseguido pelo teor contestador de suas obras, deixou o Brasil em 1971, passou por diversos países latinos, europeus e norte-americanos e retornou em 1976.

Longe da censura, os brasileiros exilados passaram a denunciar os abusos do regime militar, fazendo com que um movimento internacional contra a ditadura ganhasse força. Ao retornar, essas pessoas passaram a buscar o fim deste período duro e cruel por vias democráticas. A Lei da Anistia, assinada em 1979, reverteu as condenações por crimes políticos cometidos na ditadura e possibilitou o retorno de muitos exilados. A ditadura brasileira, no entanto, só terminaria em 1985, deixando para trás um saldo enorme de crimes e injustiças cometidos contra cidadãos.

Reportagem de Camilla Castilho para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo. 

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