Jornalista que lançou campanha contra assédio fala do #DeixaElaTrabalhar

A investida de jornalistas esportivas contra o machismo e o assédio na profissão

Em pleno século XXI, mulheres jornalistas ainda sofrem com o preconceito, machismo e assédio em seus ambientes de trabalho. É na área esportiva principalmente, mas não somente, que elas encontram mais dificuldades para exercer a profissão. O mundo esportivo é predominantemente composto por homens, sejam jornalistas, atletas ou torcedores. Isso faz com que as mulheres que dividem com eles o mesmo ambiente sejam alvo de assédio e desrespeito constantemente.

No dia 14 de março de 2018, a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, foi beijada à força por um torcedor enquanto fazia uma cobertura ao vivo. O episódio ocorreu no Rio de Janeiro, numa partida entre Vasco e Universidad do Chile, pela Libertadores. Na ocasião, a repórter ficou visivelmente constrangida e disse que a atitude “não foi legal”, mas continuou com a transmissão. Mais tarde, desabafou em suas redes sociais pedindo mais respeito e relembrou que como ela, muitas mulheres – e não apenas jornalistas – são assediadas diariamente.

Mas hoje, senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, metrôs, ou até mesmo andando pelas ruas. Um beijo na boca, sem a minha permissão, enquanto eu exercia a minha profissão, que me deixou sem saber como agir e sem entender como alguém pode se sentir no direito de agir assim” (…) “pelo simples fato de ser uma mulher no meio de uma torcida, nada disso teve valor para ele. Se achou no direito de fazer o que fez. Hoje, me sinto ainda mais triste pelo que aconteceu comigo e pelo que acontece diariamente com muitas mulheres, mas sigo em frente como fiz ao vivo. Com a certeza que de cabeça erguida vamos conquistar o respeito que merecemos (…) Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada.”, escreveu no post.

A publicação teve grande repercussão e gerou um debate sobre o assunto. Muitos se solidarizaram com o desabafo da jornalista e lhe deram apoio e incentivo, mas como já era de se esperar, muito homens (e mulheres) criticaram a atitude da repórter, dizendo que “ela estava querendo chamar atenção”, “não precisa disso tudo”, “isso é mimimi”, “era pra ser no rosto, você que virou na hora”, entre outros. O que aconteceu com Bruna é apenas um dos casos mais recentes de desrespeito que jornalistas mulheres sofrem dentro e fora dos estádios. Em entrevista para esta reportagem, a repórter conta como se sentiu no momento em que foi beijada à força pelo torcedor do Vasco da Gama.

“Eu me senti muito desprotegida, muita humilhada, principalmente porque eu olhei em minha volta e todos os homens estavam rindo, inclusive um menino de aproximadamente 10 anos que também presenciou a cena. Eu era a única mulher naquele ambiente. Eu me preparei muito para aquele momento e ele me tratou como um objeto. Eu continuei com meu trabalho, segui a entrevista, mas quando acabou o ao vivo eu me senti muito mal, veio um sentimento de humilhação, de impotência e de fragilidade. Durante o jogo aquilo ficou entalado em mim, eu precisava mostrar para as pessoas que aquilo não podia ser normal, não podia ser uma brincadeira. Escrevi o texto que coloquei em minhas redes sociais no intervalo da partida mesmo, recebi todo o apoio do meu chefe que estava no jogo, conversei com meu marido para saber como ele e as outras pessoas iriam reagir a isso e ele me deu todo apoio também.”

“Me assustou muito porque ele teve coragem de fazer isso em frente a uma câmera, imagina quantas mulheres não passam por isso nos bastidores. Eu acho que isso foi o mais chocante de tudo. Ninguém teve a sensibilidade de perguntar se estava tudo bem comigo.” Foto: Reprodução de vídeo

“Me assustou muito porque ele teve coragem de fazer isso em frente a uma câmera, imagina quantas mulheres não passam por isso nos bastidores. Eu acho que isso foi o mais chocante de tudo. Ninguém teve a sensibilidade de perguntar se estava tudo bem comigo.” Foto: Reprodução de vídeo

 

Em entrevista para a equipe de reportagem, Bruna falou da sua reação ao saber da divulgação do vídeo: “A repercussão me chamou muito atenção, porque as pessoas não levaram na brincadeira, como poderia acontecer há  alguns anos. Tentei passar minha situação de maneira sincera, mas sem ser agressiva. Eu não queria criar uma rivalidade de homens versus mulheres, mas eu quis mostrar como eu me senti humilhada e o efeito do meu desabafo me deixou muito feliz. Recebi muito apoio de jornalistas homens e mulheres, torcedores de todos os clubes do brasil me escreveram, as emissoras concorrentes do esporte interativo compartilharam meu post. Eu fiquei feliz em criar esse debate.”

Ela também falou que identificou o torcedor que a beijou?: “Depois da repercussão, ele me escreveu um e-mail dizendo: ‘poxa, você atrapalhou muito a minha vida, você me expôs muito’. Disse que era só uma brincadeira e que a mulher o tinha largado por isso. E que os torcedores do Vasco não queriam mais que ele entrasse em São Januário.”

Campanha #DeixaElaTrabalhar. Foto: Reprodução de vídeo

Campanha #DeixaElaTrabalhar. Foto: Reprodução de vídeo

A campanha #DeixaElaTrabalhar, pensada pela própria Bruna, em 26 de março de 2018, tem como intuito expor esses problemas e exigir respeito ao trabalho das profissionais. O movimento ganhou as redes sociais, levantou discussões e incentivou mais gente a denunciar episódios de assédio vividos por mulheres no jornalismo esportivo. Cerca de 50 jornalistas de todo Brasil, entre elas, Fernanda Gentil, Carol Barcellos,  Aline Nastari, Ana Thais Matos e Cris Dias, aderiram à campanha e fizeram vídeos com alguns relatos sofridos por elas. Comentários violentos, ameaças de agressão e estupro feitas por torcedores em estádios e nas redes sociais, estão entre os tipos de agressões relatadas pelas jornalistas. O vídeo, que tem cerca de dois minutos mostra, as profissionais pedindo mais respeito dentro e fora dos estádios de futebol.

Bruna conta como foi o processo de criação do material. “Criamos um grupo no WhatsApp com algumas jornalistas do Brasil e demoramos quase 10 dias para chegar ao formato final do texto, porque nós fomos aprendendo juntas sobre a situação. Uma já tinha estudado mais sobre feminismo, outras passaram por situações parecidas. Até escolhermos cada palavra, cada frase e chegar naquele formato final, nós aprendemos muito juntas. Eu, por exemplo, não sabia de várias situações, de conceitos, e fui vendo que em alguns momentos, eu tinha atitudes machistas, sem me dar conta disso.”

Violência em números

Uma pesquisa intitulada “Mulheres na Mídia” feita em 2017 pela Abraji e a Gênero e Número, em parceria com o Google News Lab, mapeou a violência e o assédio vivido pelas profissionais de imprensa. Os dados revelaram a ameaça à liberdade de expressão que a violência de gênero representa no jornalismo brasileiro. Embora sejam maioria nas redações brasileiras, as mulheres têm pouca segurança no trabalho e sofrem constantes casos de assédio sexual e moral, dentro e fora das redações.

Uma das diferenças destacadas por Bruna sobre o momento de intolerância às mulheres no âmbito profissional, é que hoje elas não têm mais receio de denunciar, pois têm o apoio das redes sociais como um espaço perfeito para divulgar e pedir por respeito. “A gente não quer mais se calar. A gente engolia, a gente se silenciava e agora não aguentamos mais”.

Observando a importância do tema, torcedoras de vários clubes espalhados pelo Brasil, se empenharam em dar prosseguimento à campanha, criando a hashtag #DeixaElaTorcer.  A iniciativa teve o apoio em massa no twitter e acabou dando força e incentivando as mulheres que frequentam as arquibancadas dos estádios a falarem de suas experiências e, acima de tudo, a criarem uma mobilização de teor conscientizador. Torcedoras são vítimas de assédio nos estádios todos os dias, o que é lamentável, pois vivemos em um país onde o futebol é querido por todos e, ainda assim, existe preconceito. Frases como “seu lugar é na cozinha”, “aqui não é lugar de mulher”, “não sabe nem o que é escanteio” são alguns dos absurdos que as mulheres escutam vira e mexe nos estádios. Sejam jornalistas, atletas ou torcedoras, o que elas exigem é respeito, porque lugar de mulher é onde ela quiser.

Repercussão da campanha #DeixaElaTrabalhar na rede social. Foto: Reprodução da internet

Repercussão da campanha #DeixaElaTrabalhar na rede social. Foto: Reprodução da internet

Repercussão na rede social

“A GENTE NÃO QUER MAIS SE CALAR. A GENTE ENGOLIA, A GENTE SE SILENCIAVA E AGORA NÃO AGUENTAMOS MAIS”

“EU RECEBI ALGUNS COMENTÁRIOS NAS FOTOS, LEVANTANDO UMA QUESTÃO SE EU ESTAVA FALANDO A VERDADE OU NÃO.”

“ELA SE SENTIU AGREDIDA. NÃO INTERESSA SE O CARA DEU UM BEIJO NA BOCA, OU PEGOU NO CABELO. SE ELA SE SENTIU AGREDIDA, NÓS TEMOS QUE RESPEITAR. O CORPO É DELA, AS REGRAS SÃO DELA.”

“EU SOU COBRADA PARA SEMPRE ESTAR EM FORMA, CABELO ARRUMADINHO, MAQUIAGEM EM DIA.”

“SE O TIME TA GANHANDO A TORCIDA TE CHAMA DE GOSTOSA, SE ESTÁ PERDENDO ELES TE CHAMAM DE PIRANHA.”

“O CARA ASSEDIOU UMA JORNALISTA AO VIVO EM FRENTE ÀS CÂMERAS. TEMOS PROVAS. AGORA NÃO É MIMIMI, VOCÊS ESTÃO VENDO?”

“UMA VEZ EU ESTAVA EM PÉ NA ARQUIBANCADA COM UMAS AMIGAS, E UM RAPAZ PEDIU PRA GENTE SENTAR. DIZIA QUE A GENTE NÃO SABIA DE NADA. XINGOU.”

“JÁ FUI CUSPIDA NO ESTÁDIO, JÁ RECEBI AMEAÇAS DE SER ABUSADA.”


Reportagem de Bruna Almeida e Pâmela Machado para a disciplina Jornalismo Esportivo

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