Mestre Toni Vargas vive um amor pela capoeira há 50 anos

Este ano será significativo para Antônio Cesar de Vargas, ou, como é mais conhecido, Mestre Toni Vargas, um dos mestres de capoeira mais respeitados do país: agora em 2018 ele completa 50 anos de capoeira e 60 de idade. Mestre, educador, compositor, poeta, casado com uma capoeirista e pai de três filhos – Ruan, de 32 anos, Gabriel, de 18 anos, e Tiago, de 16 anos, que também fazem capoeira desde crianças -, ele diz se sentir, hoje, realizado com seu trabalho de forma geral, tendo motivo de sobra para comemorar junto de sua família, alunos e amigos. Toni atualmente dá aulas no Ilê de Seu Peixinho, em Copacabana.

Mas ele diz que se não fosse por seu primo, que o levou pequeno para uma aula de capoeira, não sabe como teria começado a treinar. Foi nessa aula que ele conheceu o Mestre Rony, do Grupo Palmares de Capoeira, hoje já falecido, que o chamou em uma brincadeira para entrar numa roda, e viu coragem e talento em Toni. O grande problema era que ele não tinha condições financeiras de pagar pelos treinos. “Um menino de origem pobre não tem condições de estudar arte e música”, pensava. E foi nesse momento que o Mestre Rony falou para ele simplesmente levar uma calça e ir treinar.

Toni ficou alguns anos aprendendo capoeira com Rony, até passar a treinar com o Mestre Touro, do Grupo Corda Bamba, no qual ficou alguns outros anos até entrar para a Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ) em 1976, na qual cursou Educação Física, e finalmente conhecer o Grupo Senzala no ano seguinte, seu grupo de capoeira até os dias de hoje. Toni treinou do início ao fim com o Mestre Peixinho e conseguiu se formar, chegar à corda máxima, ou seja, sua última corda na capoeira, em 1985. Mas para ser mestre não basta apenas alcançar a última corda e sim ser reconhecido como mestre pela comunidade, momento que ele não sabe dizer ao certo quando aconteceu depois de sua formação.

Mestre Toni Vargas no Ilê de Seu Peixinho

Maestro Toni Vargas

Hoje, Mestre Toni tem sua própria escola dentro do Grupo Senzala e, em união com mais duas escolas de dois mestres diferentes, Centro Cultural Senzala de Capoeira Memória Viva Mestre Peixinho, do Mestre Ramos, e Capoeiraskolen Senzala, do dinamarquês Mestre Steen, ele tem o Ilê de Seu Peixinho, seu local de trabalho. Toni viaja duas vezes ao ano para Dinamarca por causa de projetos na Europa e é convidado por outros grupos de capoeira de dentro e fora do país para dar palestras, workshops e participar de eventos. Em 2017 ainda lançou seu primeiro livro, que recebeu o nome “Fragmentos da Mandinga”, e diz, entusiasmado, que já está trabalhando em seu segundo.

Toni já tem na conta também 37 anos trabalhando com crianças, tanto com capoeira como com um método desenvolvido por ele, chamado Recreação Ativa, que é uma linguagem que usa música, movimento e dramatização com histórias para os pequenos. Justamente pelo sucesso desse método, o mestre lançou esse ano um CD totalmente infantil, com o nome “Recreação Ativa”, para ajudar educadores em suas aulas. Ele também já teve a satisfação de ter várias de suas músicas usadas em livros didáticos.

Mas Mestre Toni afirma também que, apesar do sucesso, a capoeira sofre com um preconceito de parte da população. “É de origem humilde, vem do negro, vem do gueto. É considerada uma atividade marginal”. Além desse tipo de discriminação, existe também o preconceito religioso. Toni diz que antes os evangélicos tentavam excluir, proibir, desclassificar a capoeira, só que agora a história é diferente, eles estão tentando “evangelizar” a atividade, criando a capoeira gospel. “Acho um absurdo. Me posiciono quanto a isso porque nunca existiu uma capoeira candomblé ou uma capoeira umbanda. Sempre foi capoeira”.

Apesar desses fatos, o Mestre segue com seu trabalho e, atualmente, tem um total de seis CDs gravados, com clássicos como “Quando Venho de Luanda”, “Dona Isabel”, “Saudade” e “Era Uma Noite Sem Lua”. Em novembro do ano passado, fez um show próprio, que levou o mesmo nome de seu livro “Fragmentos da Mandinga”. Ele diz que o show mostra um outro lado compositor seu, com músicas e muita poesia.  Sobre o que o faz mais feliz como mestre, ele garante, com firmeza: “A capoeira é a minha vida e tudo o que eu sou. Me faz sujeito do meu tempo e da minha história. Me sinto um guardião da minha cultura.


Reportagem de Jennifer Lemos para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

2 comentários sobre “Mestre Toni Vargas vive um amor pela capoeira há 50 anos

  1. Muito bom o artigo sobre o Mestre Toni Vargas. Sou amiga dele por toda esta trajetória e o texto é bem fidedigno aos fatos. Parabéns!!!!
    Axé e Luz!
    Inez

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s