Dá um play! Podcast mantém público fiel

Toda noite, antes de dormir, o fone de ouvido é o meio para escutar um grupo de amigos debaterem, com um papo leve e descontraído, sobre “30 clássicos da Sessão da Tarde”. O longo caminho para chegar ao trabalho pode durar mais de uma hora e a conversa sobre Einstein, Relatividade e Ondas Gravitacionais será a companhia da vez. Na academia, no carro, no ônibus e até lavando a louça. Esses são alguns exemplos de lugares e momentos em que os fiéis ouvintes de podcasts apertam o play em meio a uma vasta gama de assuntos e formatos. Ainda que seja considerado uma mídia de nicho, o podcast consegue manter seu público por conta da proximidade e da identificação de quem consome. Ao contrário do rádio, nele se tem a chance de baixar e poder ouvir onde e quando quiser, o que permite uma comodidade maior que vem desde o seu surgimento.

Surgidos em 2004, os podcasts são programas de áudio que podem ser baixados ou ouvidos diretamente de um site ou blog. Podcasting – como é chamado o formato de distribuição – surgiu primeiramente nos iPods (por isso o prefixo “pod”), nos quais era possível fazer o download por meio do agregador iTunes – antes disso só se ouvia online. Hoje já existem diversos aplicativos que fazem esse serviço, como o Pocket Casts e o WeCast, por exemplo. Apesar de, mesmo atualmente, não ter se tornado uma febre, foi em meados de 2006 que a mídia começou a crescer no Brasil. Embora ainda pouco conhecidos pelo grande público, alguns podcasters – como são chamados os que produzem – conseguiram construir uma sólida base de fãs, produzindo conteúdo há mais de dez anos no país.

Podcast. Foto: Pixabay

Sucesso de podcasts está na possibilidade de baixar e levar no bolso. Foto: Pixabay

É o caso do Nerdcast – podcast mais ouvido do Brasil – que tem hoje uma média de um milhão de downloads por episódio. Os números são considerados altos quando comparados com outros, mas revelam fragilidades. Boa parte da fatia do público ainda é dominada por jovens – 58% têm entre 18 e 25 anos. No caso do RapaduraCast – podcast mais baixado sobre cinema no país – 70% têm entre 18 e 34 anos. Jurandir Filho ou “Juras”, como é conhecido, criador do Rapadura, diz que acha o processo normal. “Comparada com outras, o podcast ainda é uma mídia nova. Acho que é natural que ela chegue conquistando um público mais novo. Talvez isso mude daqui a alguns anos”, diz. Uma alternativa que poderia aumentar o alcance seria unir o serviço a aplicativos de streaming já conhecidos no mercado, como o Spotify. Isso já vem acontecendo, porém ainda existem alguns obstáculos.

Ricardo Rente, co-criador do Canal 42 – que fala sobre séries – acha difícil haver a migração: “O estilo adotado pelo podcast brasileiro hoje dificulta. Tem a questão do direito autoral. A maioria usa músicas de artistas famosos, filmes ou séries. Sair desse formato agora é complicado”. O Brasil sempre foi um país que manteve forte tradição do rádio, desde o seu surgimento, na década de 20. Essa, talvez, seja uma das razões para a forte influência no formato dos podcasts feitos aqui, o que reforça as diferenças para os formatos de fora. Ricardo, que hoje mora no Canadá e tem o costume de ouvir podcasts gringos, conta que, diferentemente daqui, tudo é feito de forma mais “crua”, quase sem edição. “Por conta do legado do rádio, o podcast brasileiro tem uma necessidade maior de uso de trilha sonora, vinhetas e vírgula sonora”, ele comenta. Essas características acabam refletindo no dia a dia de quem produz.

Em comparação, muitos acabam preferindo produzir e consumir pelo YouTube, que já é uma plataforma consolidada. Ricardo Rente também cria conteúdo em vídeo para o seu canal, o Território Nerd. Com pouco mais de 90 mil inscritos, ele afirma que lá a publicação é mais fácil, além da rentabilidade ser maior. “Às vezes eu acho que estou perdendo tempo fazendo podcast. Pelo trabalho que requer, parece que não vale a pena”, lamenta. Por outro lado, ele pondera que o podcast tem uma liberdade maior, tanto pelo conteúdo da conversa quanto pelo tempo do programa, que dura em média de uma hora e vinte a duas horas. Essas, talvez, sejam algumas das razões que expliquem a fidelidade do público. A arquiteta Jéssica Toebe, de 26 anos, é ouvinte há seis anos e comenta que em alguns aspectos a relação é parecida com a do rádio: “É legal ter sempre o ‘encontro’ com aquelas pessoas de que você gosta e cujo trabalho você curte. Às vezes eu escuto mesmo sem gostar do tema, só por querer ouvir o papo daqueles amigos, a interação, me sentir próxima daquela galera”.

Alguns se tornam ídolos. Caso de Alexandre Ottoni e Deive Pazos ou “Jovem Nerd” e “Azaghal” – criadores do Nerdcast – que participam de diversos eventos e palestras de cultura nerd. As grandes Comic Con Experience, Brasil Game Show e Campus Party sempre têm presença garantida dos dois. Quase 1,5 milhão de seguidores tem Jovem Nerd no Twitter, que fez do bordão “lambda lambda lambda” – referência ao filme Vingança dos Nerds (1984) –  sua marca registrada. Juras reconhece a importância e valoriza o carinho dos fãs: “Acho bacana. É bom ver que seu trabalho está sendo notado. É o que me faz continuar”.

Saber que uma vez por semana o encontro é marcado faz os ouvintes de podcasts criarem costumes. “Eu sempre escuto fazendo outras coisas, seja trabalhando, fazendo serviços de casa, nunca paro só para ouvir”, conta Jéssica. A farmacêutica Lenise Moretti, de 28 anos, diz que prefere ouvir no carro, quando viaja, e na academia. No início desse ano, ela foi convidada para uma participação especial e acabou se tornando participante fixa do VilaCast. Por estar na internet e não haver limite de fronteiras, um podcast pode ter que vencer preconceitos. Jurandir Filho relata que, por ser do Nordeste, já teve que passar por situações difíceis. “Sotaque sempre foi uma barreira grande para todos os meus projetos. Perdi oportunidades por ser nordestino, cearense. Já pensei em desistir, mas sei que tem muita gente que curte o que eu faço e o quanto eu trabalhei”.

Há, porém, o outro lado desses desafios. O contato mais próximo entre quem faz e quem consome podcasts pode gerar boas histórias. E não, essas não vêm do Nerdcast especial de dia dos namorados. “A maior recompensa de quem faz podcast é quando a gente recebe mensagem de ouvinte dizendo que se sente nosso amigo, ou que estava passando por um momento ruim e o podcast ajudou de alguma forma. É muito gratificante”, comenta Ricardo Rente. Assim como ocorre com toda nova forma de mídia, é natural que haja um processo de transição e aceitação do grande público. Alguns já abraçaram a ideia, muitos sequer sabem como funciona. O que se tem certeza é que, para aqueles cujo caminho até o trabalho é demorado ou a louça é grande demais, não vão faltar companhia e um bom bate papo.


Reportagem de Márcio Corrêa Rodrigues para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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