Um viva à arte e à cultura, porque é possível viver do que se gosta

Quem nunca ouviu de algum parente a frase: “Mas isso não dá dinheiro”? Muitos consideram trabalhar com o que se gosta uma utopia. Principalmente nesse período pelo qual o país passa, em que a taxa de desemprego assombra milhões de habitantes, o sonho de fazer o que gosta para viver parece cada vez mais longe. Se a escolha for apostar na arte a na cultura, tudo é ainda mais difícil. Mesmo assim, quem continuou na caminhada não encobre as dificuldades e mostra o caminho árduo percorrido.

Os obstáculos que impedem jovens de fazerem de suas vidas profissionais algo que sempre sonharam são muitos: falta de apoio do Estado e dos familiares, medo de um futuro incerto, falta de iniciativa. Quem opta por um sonho tem que dar a cara a tapa. O primeiro passo é essencial em uma vida tão curta. Viver sem um diploma nos dias de hoje requer correria. Uma vida independente, principalmente no começo, tem seu preço e suas dificuldades. Dificuldades essas que Luan Mello, de 21 anos, guitarrista da banda de rock underground carioca “Madame Beretta” e luthier conhecido na Tijuca, detalha:

— O Rio de Janeiro, não está em um momento bom para o rock. As casas de show estão fechando, sem dinheiro para pagar as bandas. Está tudo meio que interligado, paga-se cada vez menos para os artistas enquanto os estúdios estão cada vez mais caros. É uma parada muito desleal, fica difícil a evolução. São diversos os convites para tocarmos de graça, é muito triste.

Muitos jovens gostam de atividades ligadas ao lazer: ouvir música, ir ao parque ou assistir a um filme. Porém, nenhuma dessas atividades é remunerada. É no meio dessa dúvida que a maioria toma uma decisão precoce – muitas vezes por conta da pressão familiar – de uma carreira que não agrada.

— No começo eu não tinha a mínima ideia do que eu ia fazer, não conseguia encontrar o que eu gostava. Eu gostava de música e queria viver disso. Na época eu tinha quatro guitarras que, periodicamente, precisava levar no luthier para regulagens e tudo mais. Então decidi eu mesmo fazer isso. Me especializei e hoje eu mesmo faço as minhas guitarras. Quando terminei minha primeira guitarra, lembro que eu fiquei boquiaberto com a qualidade do produto final, não conseguia acreditar que eu havia feito aquilo. Desde então tive certeza de que é isso que quero para minha vida – completa Luan.

Quem optou por seguir em áreas ligadas à arte não nega as dificuldades sofridas pela escolha: falta de dinheiro e recursos são os obstáculos mais comuns no meio. Não que a vontade de ser independente impeça de seguir uma profissão comum. Talvez por medo das incertezas ou por carência de capital, muitos continuam conciliando uma vida normal com a vida de um artista amador. Claudio Dutra, guitarrista e companheiro de banda de Luan, também é estudante de Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.

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Ensaios fazem parte da rotina de Cláudio e Luan. Foto: Igor Cunha

— Eu entrei na banda depois que já estava na faculdade, mas meu sonho sempre foi poder viver inteiramente da banda. Pretendo sim me formar, mais como uma válvula de escape caso nada dê certo. Acho sempre bom ter um plano B, ainda mais nessa área em que o futuro é tão incerto, nunca sabemos o dia de amanhã. Mas, principalmente depois que eu terminar a faculdade, sem dúvidas meu foco vai ser total na banda, é o que eu quero para o meu futuro.

Os jovens de hoje ainda sentem os resquícios do conservadorismo do século passado vindo de seus pais, muito por conta das marcas da ditadura. Era o sonho de todo pai e mãe ver o filho um Doutor. Não importava levar uma vida triste, desde que houvesse dinheiro. Com o passar do tempo, esse paradigma foi se quebrando. Antônio Luiz Viana, 21 anos, fotógrafo, conta como foi importante ter o apoio de sua mãe desde o começo:

— Pedi para minha mãe comprar minha câmera depois que comecei a cursar Publicidade. Eu fazia algumas matérias que envolviam fotografia e me apaixonei. Comecei então a me especializar. Agora estou mais na área de produção, produzo clipes, tudo o que você quiser, mas meu sonho mesmo é abrir minha própria produtora e me tornar diretor de fotografia. Sempre contei com o apoio da minha mãe desde o começo, isso foi essencial.

Morador de Iguaba Grande, interior do estado do Rio de Janeiro, Antônio está há três anos tendo a fotografia como ferramenta principal de renda, sonha com um dia ter seu trabalho estabilizado na região e manifesta seu descontentamento na hora da cobrança:

— Como eu atuo no interior, a galera não está muito acostumada com o serviço, então sou obrigado a cobrar bem barato – protesta o jovem fotógrafo.

Em meio a tantas dificuldades, a cena artística do Rio de Janeiro sempre se manteve forte. Mesmo que com praticamente nenhuma ajuda de custo de qualquer órgão público, o cenário sempre se renova com pessoas com o mesmo sonho e a mesma vontade de ajudar, mantendo o ciclo independente de geração em geração. Marcelo Felix é um grande exemplo disso. Sócio proprietário do Pub Panqs na Tijuca, promove shows diariamente para bandas independentes e undergrounds.

— É uma casa de músicos mesmo, a gente trabalha de domingo a domingo, e é só o começo. Quando entrei para esse projeto, eu decidi que queria fazer eventos, ajudar as bandas independentes da cena. Me tornei DJ e então consegui ver melhor que nessa casa trabalhamos com a arte. Porque é isso o que eu faço, eu trabalho com a arte das pessoas, elas têm data e hora para dar o espetáculo, e nisso elas conseguem trazer amigos e familiares, bem organizado. Acho que está ficando tudo muito bom, é o caminho certo, tenho certeza.


Reportagem de Igor Cunha para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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