Evento relembra 130 anos da abolição da escravatura no Brasil com debate sobre intolerância religiosa

Na última quarta-feira (09/05), um dia após a destruição de mais um terreiro de candomblé em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ocorreu o debate “O processo de resistência dos grupos religiosos de matrizes africanas no Brasil, no combate à intolerância religiosa e promoção do diálogo inter-religioso”, no Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. A mesa contou com o doutorando babalawo Ivanir dos Santos, a mestranda Lavini Beatriz Vieira de Castro e a doutoranda Carolina Rocha Silva e foi mediada pela pós-doutora Helena Theodoro. O debate fez parte da programação dos “130 Anos da Abolição da Escravatura no Brasil“, evento que aconteceu dos dias 8 a 12 de maio.

A pesquisadora Helena Theodoro abriu o debate com uma breve aula de história sobre as origens dos africanos escravizados no Estado do Rio de Janeiro e um agradecimento à instituição, por proporcionar um evento cuja ideia não era a celebração, mas o fortalecimento da luta contra o preconceito. “As diferenças devem ser respeitadas. Todos temos o direito a ter uma maneira própria de agir”. De acordo com a organização do seminário, o Arquivo Nacional foi o único local no país a ceder seu espaço para relembrar a data.

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Integrantes da mesa debateram os recentes casos de intolerância religiosa sofridos por religiões de matriz africana. Foto: Andressa Gabrielle / AgênciaUVA

O primeiro convidado a falar foi o babalawo Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que explicou que a intolerância surge como uma questão religiosa, porém não divina, que se torna política. Ao comentar sobre o livro que organizou com diferentes fontes sobre os ataques a terreiros, demonstrou com fotos e dados quem são as vítimas e os agressores dessa violência. Segundo ele, não havia informação suficiente sobre quem a praticava. “É comum encarar esses casos como algo individual e não como um comportamento social”.

Ivanir alertou ainda que os espaços públicos, como o da política, estão sendo tomados por bancadas cujo objetivo é retirar o direito do outro e citou o caso envolvendo o deputado federal Marco Feliciano. Na ocasião, o parlamentar publicou em sua conta no Twitter uma afirmação na qual dizia que “africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Para ele, comentários como o de Feliciano geram mentiras, que são construídas por total falta de conhecimento da história.

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Além do debate, a exposição “130 Anos da Abolição da Escravatura no Brasil” trouxe os documentos originais para exibição. Foto: Andressa Gabrielle / AgênciaUVA

Em seguida foi a vez da mestranda Lavini Beatriz Vieira de Castro, que continuou o debate apresentando seu projeto de pesquisa. Ela percebeu a presença de uma resistência de seus alunos do ensino médio em aprender não só sobre religião, mas sobre o tema África, em geral. A atitude, vinda também por parte dos pais, vem prejudicando a aplicação da Lei nº 10.639 de 9/1/2003, que determina que o ensino de história e cultura afro-brasileira seja obrigatório. Outro ponto que afirmou procurar entender é o do posicionamento de docentes afro-brasileiros neopentecostais sobre o assunto.

Por fim, a doutoranda Carolina Rocha da Silva, filha do ex-presidente da União da Ilha Alfredo Fernando da Silva, comentou os recentes casos de homicídio que, segundo ela, estariam ligados a preconceito, como da vereadora Marielle Franco e do estudante Matheusa Passareli. Outro exemplo de intolerância, dado pela palestrante, foi o de uma pastora na Bahia que ameaçou o terreiro vizinho pronunciando a frase “Deus mata, está na Bíblia”. Mais um incidente aconteceu no ano passado, também em Nova Iguaçu, quando uma mãe de santo foi obrigada por traficantes da região a quebrar imagens e objetos de origem africana.

Para Carolina, a intolerância religiosa vai muito além da crença. É algo que anda de mãos dadas com o racismo, que faz com que toda uma cultura seja demonizada. Casos como os citados estão cada vez mais frequentes e é preciso cobrar uma resposta das autoridades. Por isso é importante uma instituição como o Arquivo Nacional estar aberto a esse tipo de debate, com uma mesa formada por negros e apoiadores das religiões de matriz africana, a fim de representar toda a população negra. Ao finalizar, ressaltou que o momento é de repressão e opressão, mas, apesar disso, a resposta tem sido à altura.

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Andressa Gabrielle – 7º período e Thayná Duarte – 4º período

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