Experiência acima de tudo… as histórias de estudantes com mais de 70 anos

“Se eu contar toda minha vida, vamos ficar muito tempo aqui”, disse a risonha Déa Medeiros, enquanto tentava organizar os pensamentos ao lado do marido. Aos 81 anos, ela é aluna do curso de Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca. Seguindo o mesmo caminho vem Manoel Dilair, 74 anos, que compartilha com Déa o fascínio pela fonoaudiologia. Os dois fazem parte de um grupo de estudantes universitários que carregam uma bagagem de vida maior do que a convencional.

Para o professor Soniarlei Vieira Leite, cuja tese de mestrado aborda a cooperação educacional entre jovens e idosos, o ingresso desses estudantes na universidade está muito pautado nas demandas do mercado de trabalho e a convivência com alunos mais jovens é benéfica para ambos. “Tenho observado que a maior contribuição que a universidade dá para o idoso é acima de tudo a quebra do preconceito. Ao ingressar na faculdade, ele passa a ter uma interação maior com pessoas mais novas e isso contribui para qualidade de vida e aceitação dele no grupo”.

” Brandão, bota a Duque Estrada pra cantar!”

Déa Duque Estrada Medeiros nasceu em 23 de setembro de 1936, em Bangu, no antigo Estado da Guanabara. Estudou fundamentos musicais e performáticos desde muito cedo. A habilidade de tocar e compôr melodias para o piano veio cedo, quando Déia tinha apenas 11 anos. Por volta de 1951, ainda no ensino fundamental, começou também a fazer balé.

Déa conta que o momento que realmente definiu o futuro dela aconteceu devido a faltas de uma professora. “Minha professora de canto orfeônico (um tipo de prática de canto coletivo) faltou para se apresentar em uma festa. Na ausência dela, eu regia o coral da escola de brincadeira. Nesse dias de ausência, meus colegas me puseram no lugar dela e, na festa, estavam uma professora de música e um dentista. Esse senhor então propôs me ensinar o canto orfeônico”.

No período de 1957 até 1960, Déa iniciou seus estudos no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico na Praia Vermelha, criada e então comandada pelo maestro Heitor Villa-Lobos. Ao mesmo tempo em que conciliava o fim do ensino fundamental, Déa lidou com a dificuldade exigida naturalmente pelo curso de canto no Conservatório Nacional. Não bastava apenas ter talento, era necessário possuir o que se chamava de um ouvido absoluto (ouvido apurado o suficiente para identificar notas) e, por ser uma habilidade rara, era grande o número de reprovados.

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Déa e o marido na comemoração das Bodas de Ouro do casal. Foto: Acervo pessoal

“Essa entrada que eu tive lá foi uma espécie de pré-vestibular. Tinha que provar a minha aptidão, seja com um bom ouvido ou um bom ritmo. Era necessário provar que você tinha um dom para frequentar o curso. Fiz canto lá, fui aluna de Villa-Lobos, e os alunos de canto orfeônico tinham 13 matérias por ano. Era algo muito difícil”.

No entanto, se a dificuldade do curso era elevada, o nível dos professores também era. Por contar o com a liderança de Villa-Lobos, amplo apoio do governo e por adotar um estilo de canto clássico, alguns dos grandes cantores, compositores e músicos brasileiros da época integravam a lista do corpo docente do conservatório. Iberê Gomes Grosso, Gazzi de Sá e José Vieira Brandão foram professores de Déa. Nenhum nome, porém, gera uma reação mais intensa do que o do próprio Villa-Lobos e o da soprano Cristina Maristany. Ele, que na época era um maestro extremamente conceituado na Europa e Estados Unidos, mas que tinha pouca visibilidade no Brasil; e ela que foi uma das poucas soprano brasileiras a se aperfeiçoar na Casa de Ópera de Moscou. Com uma voz carregada de certa emoção, Déa se lembra do grande momento em que foi testada por Villa-Lobos e por Cristina.

“Toda quinta-feira tinha atividade no Centro de Coordenação, onde o Villa-Lobos convidava os maiores ícones da Música Popular Brasileira para assistir a algumas apresentações. Músicos como Tom Jobim, Ivan Lins, Vinícius de Moraes eram convidados a participar do evento. Havia o coral que eu integrava e a solista, que era a Cristina Maristany. Cristina nunca faltava a uma apresentação e eu comparecia a todos os ensaios. Até que em uma noite, ela faltou a uma apresentação de propósito, para me testar. Na hora, o Villa-Lobos gritou furioso: ‘Brandão (professor de composição), bota a Duque Estrada pra cantar!'”, conta Déa, em meio as gargalhadas.

Sua apresentação ganhou aprovação do maestro e da Cristina Maristany e, em 1959, ela se formou como professora de canto orfeônico. Em 1964, tornou-se professora do estado lecionando a mesma matéria que aprendera com Villa-Lobos. Sua jornada para a fonoaudiologia se deu por meio do fascínio em trabalhar ainda mais com os efeitos da voz e sobre como ele reflete tudo que o corpo possa estar sentindo.

Sua primeira tentativa no curso de graduação foi em uma outra universidade. Por motivos de doença, a retirada do rim esquerdo e artrose nos dois joelhos, precisou interromper os estudos. Retornou na UVA, mas voltou a ter problemas. O período de inatividade acabou lhe gerando uma forte depressão, intensa o suficiente para não ter sequer vontade de se levantar da cama. O combate, segundo ela, só foi possível porque a coordenadora do curso de fonoaudiologia, Rita Leniza, não a abandonou em momento algum.

“Reabri a minha matrícula e isso fez uma grande diferença, pois me ajudou a combater a depressão. Já não tenho crises e estou me sentindo muito feliz, principalmente pelo acolhimento dos meus colegas e dos professores. A professora Rita me fez acreditar que eu posso sim e isso está fazendo uma grande diferença em minha vida, assim como encorajando os demais alunos. Como pedagoga, a Rita entendeu que cada caso é um caso e que deve ser tratado e avaliado de acordo com as várias potencialidades de cada indivíduo”.

Conclui sua linha de pensamento com uma certeza indubitável sobre a importância de toda sua experiência de vida e profissional.  “Ademais, por que jogar tudo para o alto? Tudo o que estudei ao longo desses anos não tem valor? Agora, entendo que não devo enterrar toda essa vivência e que devo colocar esse aprendizado também a meu favor, nesses meus últimos dias. Não devo sucumbir com depressão no fundo de uma cama, sabendo que posso buscar dentro de mim o meu potencial, adquirido com sacrifício, dedicação, determinação e amor”.

” Sempre gostei de estudar”

“A vida no interior do Pará é bonita, poética, mas muito difícil”. É assim que Manoel Dilair Ribeiro Rodrigues fala do início da sua vida. Nascido em 1946, vivia em um agrupamento de casas, longe de qualquer concentração urbana. Dilair era um de seis irmãos e, desde os nove anos, começou a trabalhar na colheita de açaí, fruto que era o principal integrante de muitas das refeições da região. De noite, tentava conciliar seus estudos.

“Naquela época, não havia vagas para o turno da manhã, então eu tive que trabalhar e terminar o ensino básico para se alfabetizar. Isso desde os nove anos, na retirada de açaí. Então, para chegar à escola, eu tinha que pegar um barco e ainda enfrentar o calor do Pará, que é bem forte”.

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Dilair durante a entrevista para a matéria. Foto: Bárbara Borges/ 7º período

Aluno de destaque, Dilair atraía a atenção de seus professores pela fome de conhecimento que raramente se via em jovens da sua idade. Uma gana que nasceu da curiosidade proposta pelas velhas histórias de sua avó. Desde jovem, ele se encantava quando a avó contava causos sobre as onças nas matas da região. Esse gosto lhe valeu não só a alfabetização como a formatura no ensino básico. No entanto, não havia ginásio masculino na sua região, apenas feminino. Assim, aos 14 anos e trabalhando como comerciante, Dilair e sua família decidiram que iriam para a cidade grande, afim de não prejudicar a educação dele.

“Há um ditado que diz que o interiorano, quando vai para a cidade, deve saber fazer um pouco de tudo, nunca apenas uma coisa. Eu trabalhava como comerciário aos 14 anos e esse contato direto com o público me motivou sempre a aprender e estudar mais. Fomos então para Belém, prestei prova e entrei para um dos melhores colégios do estado do Pará”.

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Dilair e os irmãos. Foto: Acervo pessoal

A falta de ritmo somada ao rígido modelo do colégio levaram Dilair a duvidar por vezes de que estivesse apto a frequentar um colégio desse porte. No entanto, o apoio da família que lhe ajudou a manter o ritmo. A união da família lhe permitiu manter o nível de pontuação que desejava e, equilibrando estudo e trabalho, conseguiu se formar no ginásio.

A proximidade da sua casa com um quartel, a amizade com alguns marinheiros da Marinha e a necessidade de se conseguir dinheiro lhe levaram a prestar prova para a escola de admissão da Marinha Mercante. Passou com brilhantismo.  “Eu já tinha vindo de um ginásio pesado, então pensei: ‘Aqui eu me adapto fácil’. Eu ainda desejava fazer minha faculdade e a Marinha Mercante era apenas um atalho para poder custeá-la. Em janeiro de 1967, me formei na escola de admissão e vim para o Rio de Janeiro pela primeira vez, para trabalhar como estagiário na frota nacional de petroleiros da Petrobras”.

Mesmo se destacando e conseguindo o apoio de seus colegas, Dilair não quis permanecer. Seu sonho era fazer o ensino superior. Após sua liberação, ele ainda exerceu cargo como professor de geologia, mas ainda não era o que ele queria. “Apesar disso tudo, eu decidi seguir mesmo a profissão do meu coração, que era ser ator. Eu sempre fui meio ator e então tomei a decisão de entrar para a escola de formação de atores. Me especializei na criação de roteiros, direção, atuação. Queria aprender um pouco de tudo e decidi fazer jornalismo ao mesmo tempo”.

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Dilair (ao centro) em uma apresentação teatral. Foto: Acervo pessoal

As aulas de teatro lhe renderam a fascinação pelo trabalho da voz, uma vez que as atuações necessitavam não só de performance física, mas vocal também. E, agora, a paixão pela fonoaudiologia é o foco de Dilair. Mais uma vez, ele quer expandir seu campo de atuação e conhecimento prático. “Eu tenho certeza, aos 74 anos, que não quero nunca deixar de estudar, deixar de aprender. Não sei o que farei depois do curso de fonoaudiologia, quero dar um passo de cada vez, mas eu quero sempre continuar aprendendo”.


Gustavo Barreto – 7º período

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