Cecilia Flesch: ‘Ficava sentada na ponta da bancada vendo meu pai apresentar o jornal’

No térreo da Central Globo de Jornalismo, Cecilia Flesch, 33 anos, já se apresenta contente e bem receptiva. “Fico feliz em recebê-lo aqui”. Ao caminhar pela emissora, aponta para o pátio. “Vamos sentar ali, é calmo e silencioso”. Filha de jornalista, passou a admirar a profissão ainda pequenina, quando via seu pai no ofício. “Ficava sentada na ponta da bancada vendo ele apresentar o jornal”. Hoje, a apresentadora de telejornais da manhã e da tarde na GloboNews marca uma nova geração de jornalistas no canal líder em audiência entre os de notícias 24 horas e que completa 21 anos no ar.

Cecilia Flesch. Foto: Leandro Victor do Nascimento

Cecilia Flesch. Foto: Leandro Victor do Nascimento

Formada em 2006 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Cecilia iniciou sua carreira antes mesmo de terminar os estudos. Convidada pelo pai, exerceu uma função informal na ‘Bandeirantes AM’, ainda no segundo período do curso. “Meu pai tinha um programa na rádio e me perguntou se queria estagiar como produtora. Respondi na hora: ‘Óbvio’”, lembra. Após seis meses, ela também estagiou no jornal ‘O Dia’, no qual fazia o ‘Portal de voz’ do veículo. “Era uma central telefônica na qual o público ligava para saber notícias de trânsito ou de lazer.  Uma consulta por telefone”, explica. Ao ser promovida, a jornalista também realizou algumas matérias para o jornal, no qual ficou por cerca de um ano e meio.

Em fevereiro de 2005, ainda no sexto período universitário, iniciou o estágio na Rede Globo e, em seguida, foi editora e produtora, momentaneamente. Após um tempo, ficou encarregada de apresentar os telejornais nas madrugadas de sábado e domingo na GloboNews, função que exerceu por quatro anos. “Só folgava um fim de semana por mês”. Sempre em busca de um dinheiro extra para complementar a renda, inscreveu-se também em alguns ‘freelas’, já depois de se formar. A jornalista já apresentou eventos institucionais e trabalhou para a editoria Abril no ‘Fashion Rio’. “Jornalismo é isso. A gente trabalha muito e ganha pouco. Eu tinha que correr atrás e ampliar minha rede de contato, pois a tendência, sendo só apresentadora, é ficar meio enfurnada no mundo Globo”, justifica.

Com o fim dos trabalhos temporários, Cecilia passou a ter outras funções no jornalismo da empresa. Como só trabalhava aos sábados e domingos, ela começou a cuidar da parte de edição do programa ‘Estúdio I’, que vai ao ar nas tardes da GloboNews. Em 2011, passou a apresentar também o jornalístico ‘Brasil TV’, jornal de notícias nacionais que entra no sinal da antena parabólica. Além disso, no ano seguinte, passou a trabalhar na Editoria Rio da emissora para fazer plantão em seus fins de semana de folga. “Queria ter experiência na reportagem e não tinha espaço aqui na GloboNews”. Dessas coberturas, a repórter destaca as campanhas que eram feitas em parques pelo quadro ‘Medida Certa’ do ‘Fantástico’, que visava combater a obesidade dos brasileiros. “Diferentemente da GloboNews, que é um canal fechado, no ‘RJTV’ aos sábados, por exemplo, eu vi o impacto da TV aberta e o quanto as ações que a TV Globo promovia abraçavam todo mundo”.

Após realizar todos esses trabalhos, Cecilia passou a assumir, unicamente, as funções de repórter e apresentadora na GloboNews. Em julho de 2015, a repórter foi agredida por uma ala de taxistas enquanto cobria as manifestações contra o aplicativo UBER, no Rio de Janeiro. “Me deram um pescotapa que cai no chão, me empurraram e ainda jogaram água”. A jornalista opina que não vê problema nenhum em quem quer se manifestar, desde que não impeça seu trabalho. “Se você está dizendo, por exemplo, que a TV Globo apoiou a ditadura, você pode achar isso, mas não seja um ditador e não me impeça de falar. Não vem pular na frente da minha câmera, que você estará fazendo o mesmo que acusam a emissora de fazer, e isso é muito irritante”.

Agora exclusivamente apresentadora, Cecilia simboliza uma nova geração de jornalistas na GloboNews, que comemorou 21 anos no ar no último dia 15 e já está sob uma quinta direção. Para ela, o perfil do canal mudou muito desde que foi lançado. “A GloboNews desengessou e saiu um pouco da forma quadrada da TV Globo padrão com essa nova gestão. Eu entrei nessa onda de renovação, e acho que foi mais pelo meu jeito de ser espontânea e falar com mais naturalidade”. Ela comenta que com a Internet e as redes sociais, não há mais tempo para programa gravado. “Para mim, tudo que é televisionado tem que ser ao vivo, pois a notícia se perde muito rapidamente. Você grava algo de tarde e de noite já está velho. Então, essa é a pegada nova do canal e o que faz toda a diferença”.

A apresentadora pondera que o público verá cada vez mais um jornalismo independente e, por essa razão, ele deve ser muito mais cauteloso. “Quando você faz um jornalismo independente, ele tende a ser muito mais opinativo do que necessariamente factual. Você acaba abrindo mão de uma série de precauções e até mesmo de apurar a notícia”, justifica. Cecilia frisa que é fundamental o veículo ter credibilidade e dar boa notícia, pois há cada vez mais espaço para a má informação. “O jornalista de grande rede está tentando sempre apurar e reapurar a notícia, porque recai sobre cada empresa uma responsabilidade”. Ela também chama atenção para o cuidado que deve haver quando se expõe uma ideia. “A gente pode destruir a vida de alguém se a gente der uma foto errada, um nome errado”, exemplifica.

Casada há cinco anos com o jornalista Renato Cunha – apresentador e repórter no programa ‘Como Será?’, da Rede Globo – e mãe de Eduarda, de 1 ano, Cecilia confessa que não é fácil conciliar a vida profissional da particular. “Quando a gente trabalha num canal de notícias o tempo inteiro, temos que estar o mais atualizados que for possível. Se chegar aqui no dia seguinte sem saber tudo o que aconteceu à noite, a prejudicada sou eu”. Ela até brinca: “Nessa fase da minha vida agora, com filho pequeno, que quer ver Patati-patatá na televisão e eu preciso assistir ao Jornal Nacional, por exemplo, é um pouco mais difícil”. A apresentadora admite que compartilhar a mesma profissão do marido faz com que cada um entenda um pouco mais as ‘demandas’ do outro. “Jornalista costuma falar que se procria em cativeiro. Jornalista casa com jornalista, e tem um filho que vira jornalista”, brinca.

Apresentadora dos telejornais das 7h, 8h, 12h e 13h, Cecilia relata que o ritmo diário na profissão é frenético. “Eu leio o início da matéria, chamo o repórter, vejo a notícia, escuto meu chefe no ponto, estou com o WhatsApp Web aberto vendo o que a Duda está fazendo em casa e ainda utilizo bastante o Twitter. Aqui na GloboNews você faz seis coisas ao mesmo tempo tranquilamente”. Antenada nas redes sociais, ela afirma que a ferramenta atual do jornalista é o Twitter. “É por ali que você vai ver todo tipo de notícia, que você vai discutir pauta legal, vai se comunicar com outros jornalistas. E eles sempre vão postar ou repostar matérias de gente muito interessante. Ou seja, se acontece qualquer cobertura, eu estarei muito mais bem informada”. Ela ainda brinca: “Geralmente eu respondo as pessoas durante o jornal e elas comentam: ‘Hum, você é o robô da Cecilia?’. E eu digito: Não, sou eu mesma filha. Estou apresentando o jornal e te respondendo”.

Cecilia ainda conta que não saber o que vai fazer no dia seguinte é o que mais a surpreende e motiva na profissão. “É fazer uma cobertura ao vivo, participar da história acontecendo e ver o desenrolar dela. Poder saber, ver e entender um pouco mais o que ocorre”. Apesar disso, a apresentadora reconhece que na maior parte do tempo o enfoque é maior para os assuntos negativos, que são factuais. “Por isso, eu gosto muito do ‘Como Será?’, o programa que meu marido faz. Ele é um ‘Fantástico’ do bem, só fala de iniciativas boas e de acontecimentos legais”. Ela confessa que ser jornalista não é fácil, mas admite que não nasceu para ser burocrática. “Eu gosto de simplicidade, de objetividade e de informação. É muito bom poder acordar, ler um assunto legal e, em seguida, começar a debater na redação. É algo vivo”.

A jornalista também admite que já se sente muito realizada e que pretende se profissionalizar cada vez mais. “Gosto muito de fazer o que eu faço. Sempre gostei muito de reportagem e apresentação, são duas coisas muito diferentes, mas que me dão um prazer enorme”. Sobre uma possibilidade futura de trabalhar na Rede Globo, ela confessa não saber se teria a mesma felicidade. “Algo mais para frente, talvez, quando eu ficar mais velha. A gente é meio repórter na apresentação da GloboNews. Não ficamos só naquele quadrado, naquele horário, mas interagimos muito com a notícia também”. Dona de uma determinação sem igual, Cecilia Flesch garante que não pensa em largar tão cedo o canal que tanta ama. “Sou filha de GloboNews”.


Reportagem de Leandro Victor do Nascimento para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

 

 

3 comentários sobre “Cecilia Flesch: ‘Ficava sentada na ponta da bancada vendo meu pai apresentar o jornal’

  1. Sou médico,e vendo a profissional Cecília Fresh expor a magnitude da notícia,sem contrair o Risório de Santorinni e nem o Orbicular dos lábios,dá uma imensurável credibilidade à verdade do que nos passa.Parabéns jornalista Cecília!!.Sou seu admirador.

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