Geração 3.0 e o vício da internet… É preciso ligar o alerta

“Eu temo o dia em que a tecnologia vai ultrapassar a interatividade humana. O mundo terá uma geração de idiotas”. Algumas pessoas podem designar a afirmação como agressiva e até exagerada, mas Albert Einstein previu nada menos que o uso exacerbado da tecnologia no lugar das relações humanas. Apesar de parecer inofensivo, o uso do celular pode modificar o comportamento humano, principalmente dos jovens. A necessidade de estar sempre conectado é um desses problemas relacionados ao uso do aparelho como extensão do corpo.

A primeira chamada telefônica foi realizada em 1973, quando Martin Cooper, o engenheiro eletrotécnico da Motorola, ligou para o concorrente Joel Engel, da AT&T, em Nova Iorque. O primeiro aparelho que chegou ao Brasil foi o PT-550, em 1990, fazendo bastante sucesso no Rio de Janeiro com seu design mais compacto. A utilização dos eletrônicos, desde o fim do século XX, ganhou espaço nas casas brasileiras e eles tiveram atualizações inovadoras e idolatradas pelo campo publicitário. Com as constantes transformações, a ânsia de se adaptar às alternativas apresentadas pelo mercado é cada vez mais evidente.

Um estudo realizado pela We Are Social e Hootsuite divulgou dados a respeito do uso e do crescimento dos meios sociais online pelas pessoas, com elementos de 2016 a janeiro de 2017. O planeta abriga mais de 7,4 bilhões de pessoas, sendo que 3,7 bilhões possuem acesso à internet. No Brasil, a média global de penetração do seu uso é de 66%, sendo que a média global é 50%. Com isso, percebe-se que o uso dos meios de comunicação online é mais frequente entre brasileiros, que passam cerca de cinco horas do dia conectados a computadores e quase quatro horas em smartphones, navegando pelas redes sociais, a principal delas o Facebook.

Com a crescimento de 18% nas mídias em relação a 2016, o Brasil tem mais adeptos aos aparelhos eletrônicos e engajamento no meio virtual. Ao estabelecer uma relação com a Internet e se aventurar nas interações virtuais, a conduta humana é testada. Caso esse vínculo ocorra de maneira fraca e ineficiente, problemas de ordem comportamental, física e emocional podem surgir, o que compromete a atividade psicossocial. A nomofobia é um exemplo de como o mau uso, ou até mesmo o excesso, dos aparelhos eletrônicos, principalmente celulares, tablets e computadores, pode danificar laços familiares, sociais e a saúde.

Conhecida como a fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação pelos aparelhos celulares ou computadores, a nomofobia está crescendo cada vez mais entre os usuários ocasionando problemas de sociabilização e controle emocional. Além disso, pode ocasionar traumas na coluna, torcicolo, insônia, estresse, perda auditiva, entre outros sintomas que desestabilizam o desenvolvimento e o funcionamento do corpo, principalmente dos mais jovens, que estão em fase de desenvolvimento e de interação interpessoal. Em alguns países, como Japão, China e Coreia do Sul, o uso do celular é visto como excessivo e já é um problema de saúde pública.

A psiquiatra com PhD em Ciências da Nutrição, Adolescentes e Telemedicina, Evelyn Eisenstein, explica que o transtorno é bastante presente em pessoas que, por algum motivo, tiveram perda, desajustes ou problemas disfuncionais afetivos familiares, assim, a dependência é mais presente em pessoas ansiosas, depressivas ou com algum tipo de impotência emocional. “Essas pessoas se tornaram dependentes por alguma causa ou motivo e precisam procurar tratamento psicoterapêutico especializado e tratar os motivos da falta de controle ou da compulsão pelo celular/notebook”, diz a psiquiatra. A mídia, segundo ela, também funciona como influência para a perda de tempo nos aparelhos, já que “a sociedade de consumo é capitalista e saber de tudo e de todos e a invasão da privacidade se tornaram valores a serem consumidos.”

mnhmngttg

Evelyn Eisenstein fala da nomofobia. Foto: Divulgação

A pressão atual para participar de tudo e de perder nada, também conhecida como FOMO (fear of missing out, ou medo de ficar por fora), aumenta a ansiedade dos consumidores, já que a interatividade presente na rede é viciante para o cérebro, funcionando como um mecanismo de gratificação. O psicólogo Thiago Abelino explica que a dopamina está diretamente relacionada à sensação de prazer e recompensa. “É um neurotransmissor que estimula os neurônios com os quais se comunica, sendo responsável pela noção de disposição, vitalidade e prazer. Em uma pessoa normal, após ser recompensada por algum evento, o neurônio passa o estímulo através da dopamina que excita o neurônio posterior e, assim, gera satisfação. Ao acabar o estímulo, os níveis de dopamina se estabilizam, mas isso não acontece com os dependentes”, afirma.

O uso do aparelho celular e dos eletrônicos causa satisfação contínua, sem interrupção. Esse processo de estímulo, recebimento e distribuição sensorial aumenta a necessidade de manter o corpo dependente do fator que origina o bem-estar. Porém, esse bem-estar pode ter outra realidade para alguns, caso da estudante de enfermagem Ana Carolini Santos, de 18 anos, que afirma ser altamente dependente de seu celular. Durante o dia e em ocasiões especiais, ela diz pedir para seus amigos e familiares guardarem seus aparelhos, para não cair na tentação de usar o seu. “Quando ele não está por perto, sinto minha mão coçar. É uma sensação de abstinência. Se eu estiver sem ele, me perco totalmente”.

Além disso, não consegue ficar sem internet, pois é um passatempo e um meio rápido e eficiente de comunicação. Fã das redes como Twitter, Instagram, WhatsApp e Facebook, mesmo quando percebe que a bateria está acabando, ela não se abate. “Fico muito irritada, não consigo ficar tranquila, preciso mexer nele”. Na hora de dormir, diz que apenas consegue descansar quando vê que não há mais pessoas online e quando o põe embaixo do travesseiro, pois a ideia de colocar em sua mesa a assusta. Após intensas demonstrações de dependência e percepção de que o uso exacerbado estava prejudicando seu sono, desempenho acadêmico e social, foi em busca de tratamento psicoterapêutico. Ana afirma que a terapia baseia-se na identificação das causas que a levaram a tal quadro, nas possibilidades de enfrentamento dos momentos de crise quando não estiver por perto do celular, bem como adaptação e redução de seu uso.

Para os dependentes da tecnologia, o problema afeta as crianças e adolescentes, principalmente, no meio acadêmico, o que dificulta a atenção nas salas de aula. Apesar de proibido, o uso do aparelho no ambiente escolar é de difícil repreensão, já que os alunos precisam avisar os pais que estão bem, conversar sobre os trabalhos e resolver exercícios propostos em sala. “Os jovens são impulsivos. Eles sabem o que querem, como querem e a hora. Com o celular não é diferente. Os professores usam o objeto como complemento, então eles acham que é acessível usar quando acham que devem. Tentamos punir com advertências, mas nem sempre é possível. Alguns ficam alterados e chamar os pais é complicado às vezes”, diz a coordenadora da escola MV1, Laura Silva.

Na faculdade, os amigos Igor Menezes (19), Maria Fernanda Teixeira (20) e Pedro Laffitte (20), são vistos com os celulares na mão, mas errados estão aqueles que acham que o trio se agarra ao aparelho. Conhecedores do problema, eles dizem que o celular não substitui o contato com as outras pessoas e que saber separar o tempo no mundo virtual do mundo real é necessário. “Eu ganhei meu celular aos 8 anos, mas porque precisava ligar para a minha mãe quando saía da escola. Hoje vejo o celular como uma forma de me comunicar com o mundo, uma maneira de entender o que se passa na política e economia”, comenta Maria, aluna de Nutrição da Universidade Veiga de Almeida. “Já senti meu celular vibrar mesmo quando desligado, mas não sou viciado”, contrapõe Igor.

rjrjytjyt

Para Pedro Laffitte, nada substitui o contato pessoal. Foto: Luana Ucha

Pedro, estudante de Gastronomia, é o mais desapegado da turma. Para ele, o computador que ganhou dos pais serve, principalmente, para o estudo e conhecimento geral, assim como seu celular, que dispõe de aplicativo de notícias e chat para se comunicar com os amigos, mas entende que não se pode deixar levar pelo uso excessivo das plataformas. “É claro que hoje em dia tudo é feito por computadores e telefones celulares, porém deve-se levar em conta que não pode ser usado para tudo. O Wi-Fi, por exemplo, é essencial para a atividade que eu tiver que fazer. Caso não tenha um trabalho pela frente ou caso não precise falar com alguém, fico bem sem ele”, conta Pedro.

Como é possível ver nas ruas, nas casas e na escola, a tecnologia já está presente na rotina, sendo difícil deixá-la de lado. A psicóloga Dulce Maria F. De Castro diz que o vício está ligado ao excesso e que isso pode privar os relacionamentos saudáveis. Para a melhora das crianças e adolescentes, os pais são essenciais no processo. “Eles precisam cuidar de seus filhos por intermédio da conversa, para que percebam o que têm feito com seu tempo e o quanto o destinam ao uso do aparelho”. Para passar pela “desintoxicação”, deve-se ter em mente que os pais precisam se desconectar também, estabelecendo regras e limites. “A tecnologia não é o problema, o caso é quando ela gera problemas na comunicação e aprendizagem, ou seja, fora do contexto”, finaliza a psicóloga.


Reportagem de Luana Vitória Ucha para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s