Entenda como as tentativas de boicotes afetam o papel da arte

É possível encontrar diversas definições do que é arte,  mas talvez uma das mais esclarecedoras seja a que a ela tem o objetivo de expressar a forma como seu criador percebe o mundo. Embora cada obra possua seu significado, as interpretações do público também são livres. No entanto, quando não entendem o sentido original de uma obra de arte, algumas pessoas podem se sentir incomodadas. Em casos mais recentes, até boicotes nas redes sociais foram promovidos. Essas atitudes têm se tornado cada vez mais comuns.

Para a socióloga Fatima Ivone Ferreira, a arte traz uma reflexão e, quando alguém se incomoda, significa que ela cumpriu o seu papel. É interessante notar que não surgem apenas grupos criticando, mas também há os que defendem as obras atacadas. Para Fatima, que também é professora de Sociologia da Educação Básica, essa fase de maior polêmico sobre o conteúdo de exposições e de séries se dá devido à ação de forças conservadoras que querem ganhar uma maior visibilidade.

Um caso recente foi o boicote à série “O Mecanismo”, dirigida por José Padilha em uma produção da Netflix  inspirada no livro “Lava-Jato — o juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, do jornalista Vladimir Netto. Logo após o lançamento, “O Mecanismo” recebeu acusações de desvios dos fatos, gerando a campanha #CancelaNetflix. Alguns artistas apoiaram o movimento, chegando a cancelar a assinatura. A ex-presidente Dilma Roussef  acusou a divulgadora da série de fazer campanha política. Em entrevista ao jornal “El País”, o ex-presidente Lula disse que processaria a Netflix, afirmando ser “mais uma mentira“.

O presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro, Rodrigo Fonseca, explica que toda ficção tem o direito a licença poética, mas precisa tomar muito cuidado ao retratar algo baseado em fatos, tentando respeitar a factualidade. No entanto, se a obra não tiver uma ligação fiel aos personagens, não existem motivos para acusações sobre distorções. Rodrigo acredita que não houve um desvio dos fatos, sendo a briga muito mais política do que estética. Ele deixa claro que sua defesa é em relação arte, pois ela deve ser soberana.

Netflix

Logotipo da série “O Mecanismo”. Foto: Reprodução/Netflix

A equipe de reportagem da AGÊNCIAUVA tentou sem êxito conversar com o diretor José Padilha. A responsável pela divulgação dos originais Netflix respondeu que no momento não haveria disponibilidade para a entrevista. Porém, em uma entrevista dada para o site do jornal “O Globo”, por e-mail, Padilha se pronunciou referindo-se ao boicote como “patético”, e reiterou “a esquerda enlouqueceu e ficou tão hipócrita quanto a direita.”

MMMMM

Em setembro de 2017, duas exposições ganharam grande repercussão na internet, recebendo duras críticas. A primeira foi a performance “La Betê”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde o artista Wagner Schwartz se encontrava completamente nu, ao manipular uma réplica de plástico de uma das esculturas da série “Bichos”, de Lygia Clark. Porém, o que incomodou tanto foi a divulgação de um vídeo que mostrava uma criança tocando os pés do artista nu.

O episódio criou uma grande discussão. No Twitter, a hashtag #PedofiliaNãoÉArte foi postada junto com comentários que repreendiam completamente a interação da criança com a performance. As reclamações foram diretamente para a mãe e o museu, acusando-os de falta de responsabilidade. O MAM se pronunciou em sua página do Facebook com uma nota de esclarecimento, dizendo que a apresentação não continha conteúdo erótico e lamentou, pois as interpretações precipitadas acabaram espalhando uma fúria nas redes sociais, tentando intimidar assim a liberdade de expressão.

A “Queermuseu”, uma exposição que falava sobre a diversidade sexual, também foi mais uma mostra atacada. O MBL (Movimento Brasil Livre) foi quem iniciou a campanha de boicote, e muitos usuários da internet seguiram a ação, alegando que as obras faziam apologia à “pedofilia” e “zoofilia”, sem sequer terem conhecimento sobre os trabalhos e os artistas. O banco Santander, que estava promovendo a exposição, decidiu retirá-la de cartaz e publicou um pedido de desculpas público a quem havia se sentido ofendido, deixando claro que não era esse o objetivo.

A socióloga Fatima Ivone Ferreira acredita que não existiria motivos para tanta polêmica. Em relação ao que ocorreu no MAM, ela explica que a criança estava acompanhada de um responsável e o museu continha sinalização do que ocorria ali dentro, deixando claro que havia nudez artística. Sobre a “Queermuseu”, ela comenta que é nítido que a mostra não tinha intenção alguma de infringir leis, mas devido à ação de grupos de pressão, o Santander optou por cancelar a exposição. “Acredito que perdeu-se uma oportunidade de atuar mediando os contraditórios posicionamentos do que seja a arte e levar a pessoas de diferentes visões de mundo a oportunidade do diálogo a da reflexão.”


O roteirista Rodrigo Fonseca também afirma que a função da arte é incomodar, chegando a ser incoerente tentar sabotá-la, pois isso prejudica o diálogo. Todo mundo tem a opção de não “consumir” algo, mas não é por isso que deve achar que possui o  direito de proibir o outro de se expressar esteticamente, dessa forma o papel da arte acaba sendo destruído.


Thayná Duarte – 4º período

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