Crítica: Baseado em fatos reais

MV5BMjM1MzA0MzA0OV5BMl5BanBnXkFtZTgwODIxNTY2MzI@._V1_SY1000_SX740_AL_Pode-se dizer que o nome de Roman Polanski costuma transcender constantemente entre o céu e o inferno. Seus filmes, principalmente os de suspense, são cultuados como algumas das melhores obras já feitas no cinema e tornam-se referências em todos os meios audiovisuais. Por outro lado, o escândalo de pedofilia envolvendo o diretor em 1977, e cuja autoria o próprio confirmou, tornou-o um fugitivo da justiça norte-americana e o obrigou a permanecer em território suíço.

Nos filmes, Polanski tem como foco o uso de um ambiente externo (geralmente apartamentos) para trabalhar na construção do psicológico de seus personagens. O espaço reduzido acaba por intensificar a fobia dos mesmos, através da dúvida ou do medo. Nas obras da trilogia “o apartamento” (“Repulsa ao sexo”/ “Bebê de Rosemary”/ “Inquilino”), o cineasta usa temas como sexo, rituais religiosos e paranoias para trabalhar tanto os personagens como o cenário.

Outro ponto trabalhado é a questão da tensão sexual, pontuando que as obras de Polanski costumam abordar esse tipo de apreensão como um inibidor para toda a insanidade envolvendo os personagens. Mesmo que eventualmente eles se envolvam fisicamente, mentalmente eles sempre se mantêm tensos. Em seus filmes, o sexo funciona como um catalisador de problemas, vide ” O Bebê de Rosemary” e “Tess”, ao mesmo tempo que o desejo de fazê-lo se forma na mesma proporção.

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Em “Baseado em Fatos Reais”, é contada a história da escritora Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner). Após ver seu mais novo romance se tornar um sucesso absoluto, ela começa a ser perseguida por uma fã obcecada, Elle (Eva Green), que aos poucos vai se embrenhando na vida da literária e afastando-a de tudo e todos, ao passo que sua obsessão vai se tornando mais intensa.

Durante 2\3 da produção, a sensação passada pela obra é de que ela nada mais é do que uma refilmagem do também suspense “Louca Obsessão”, afinal, todos os elementos estão lá: autor sofrendo bloqueio criativo, fã obcecada, um chalé afastado, um livro inacabado que é alvo de toda a loucura etc. De fato, a trama em si, no que tange a originalidade, é o ponto mais fraco da obra. Em momento algum o roteiro tenta maquiar a inspiração na já citada obra e, por se inspirar em um filme cultuado, ele pode perder o público que já o assistiu e a outra parcela que já viu outra mídia baseada no suspense de Rob Reiner.

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No entanto, há um ponto de vista intimista que deve ser analisado. É quase que colocado de uma maneira óbvia pelo diretor que muito da inspiração para “Baseado em Fatos Reais” veio de sua própria vida. Nota-se que o bloqueio criativo da protagonista representa o intervalo de Polanski entre uma obra e outra; a perseguição que ela sofre é referente à perseguição que o cineasta sente que é vítima; a casa de campo da protagonista representa o refúgio de Roman na Suíça, onde ele não pode ser preso, ou da morte de um parente que um dos personagens sofreu e que remete à de sua esposa Sharon Tate.

A trilha sonora desenvolvida por Alexandre Desplat (vencedor do Oscar pela trilha sonora de “A forma da água”) é envolvente e confirma o já consolidado compositor como um dos melhores da atualidade. Desplat acerta em primar por um estilo similar aos produzidos pelo também compositor Bernard Herrmann (1911-1975), famoso pelas trilhas nas obras de Hitchcock. O modelo de composição já consagrado no gênero ajuda o espectador a submergir na cada vez mais intrincada teia de loucura presente na obra.

Apesar dos esforços — competentes até — de Emmanuelle Seigner em manter a imagem de uma autora perturbada por não conseguir criar uma nova história e que sofre em lidar com essa nova fama, é com Eva Green que o filma ganha uma dimensão maior. A atriz consegue trabalhar seus olhares de modo a não só deixar a protagonista perturbada, mas também o espectador. Seu tom de voz consegue se manter em um nível controlado o tempo todo, vindo a entrar em conflito com sua movimentação corporal, que pode variar de algo gracioso para um movimento mais pesado e ameaçador.

Destaque também para a tensão sexual, algo recorrente na filmografia de Roman Polanski, trabalhada entre as atrizes. A todo instante é possível sentir os avanços da personagem de Eva Green ao paço que a de Emmanuelle tende a ir se entregando aos poucos, sempre com hesitação.

Por fim, “Baseado em Fatos Reais” não é o filme que você assistiu na tela e cuja a história real está vida de Roman Polanski. Visto da ótica básica, ela nada mais é do que uma refilmagem de suspenses que fizeram sucesso no passado. No entanto, se visto por um outro ponto de vista, será possível ver uma declaração não verbal do próprio Polanski sobre a sua trajetória até ali através de seus personagens. Visto por esse ângulo, a obra ganha uma atmosfera mais autoral, o que acaba por valorizá-la.

A boa atuação de Emmanuelle entrega uma protagonista que cativa, mas comete erros estúpidos, típicos de filmes de suspense. Já a personagem da Eva Green é um posso de intensidade e, graças ao trabalho da atriz, é um daqueles vilões que fazem jus ao hall de psicopatas do cinema.  Tudo isso acaba por tornar o filme em algo que vale a pena ser conferido, só que muito mais pelo trabalho de Eva e por portar um nome pesado como o de Roman Polanski do que propriamente por ser algo diferente.


Gustavo Barreto – 7º período

 

 

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