Hélter Duarte, de Goiânia para o mundo

Quando criança, ele morou ao lado de uma estação de rádio. Bastava pular o muro e já estava dentro daquele espaço que seria fundamental para guiar sua vida e sedimentar sua carreira. Após uma infância como essa, ele não teve que pensar muito para escolher a profissão. Hoje, aos 47 anos, ele é jornalista da TV Globo. Seu nome é Hélter Duarte.

A estação de rádio da infância lhe deu o primeiro emprego, aos 12 anos: técnico de som. Ele cuidava da sonoplastia do programa de Saul Gonçalves, dono da rádio, que virou seu amigo. “Enchi muito o saco dele para que me contratasse. A rádio teve toda a influência na escolha da minha profissão”, conta o menino, que cresceu para ser jornalista.

Hélter sempre gostou de ler, ouvir a rádio e ver televisão. Por isso, nunca teve uma escolha definida sobre o que queria fazer dentro do jornalismo. Ao terminar o Ensino Médio, voltou para Goiânia e ingressou na Universidade Federal de Goiás (UFG). Enquanto cursava Rádio e TV, começou a trabalhar na rádio Brasil Central. Lá ficou por oito meses.

A rádio dividia o prédio com uma televisão, e ambas eram afiliadas do grupo Bandeirantes. Hélter conseguiu um estágio em TV e por alguns meses viveu uma rotina acelerada: “Eu estudava na UFG de manhã, era repórter na rádio de tarde e fazia estágio na TV à noite. Era puxado, mas quem quer mesmo tem que correr atrás e fazer a oportunidade acontecer”.

Foi o que ele fez. Depois de terminar a faculdade, foi contratado pela TV Anhanguera, filial da TV Globo em Goiás. Os cinco anos que passou lá como apresentador e repórter de telejornais locais fizeram com que quisesse procurar algo maior. Ele resolveu que iria gravar uma fita VHS com suas reportagens e levá-la para Recife.

A escolha de uma cidade que ele nunca havia visitado aconteceu porque, das emissoras da TV Globo, a de Recife era uma das menos concorridas. Hélter sabia o que queria. Ele deixou a fita com suas reportagens na recepção e, uma semana depois, recebeu uma ligação. Era Vera Ferraz, diretora da filial de Recife. Ela lhe disse que ele ainda não estava preparado para trabalhar lá.

Mas Hélter não desistiu. Voltou para Goiânia, pediu demissão da TV Anhanguera e se comprometeu a enviar para Vera uma fita por mês mostrando seu progresso. “Seis meses depois ela me ligou e disse: ‘Agora sim você está pronto. Vem pra Recife’. Eu enxerguei lá uma ótima oportunidade para começar na Globo”. E para lá ele foi.

Ficou em Recife por cinco anos como apresentador e repórter, e suas matérias começaram a ser utilizadas no Jornal Nacional. Foi então que recebeu um convite da sede da TV Globo, no Rio de Janeiro. “Foi um passo grande e difícil, pois eu iria trabalhar com os maiores nomes do jornalismo. Eu me esforcei e trabalhei muito para conquistar meu espaço”, conta.

E que espaço. A partir de 1998, Hélter passou por alguns dos maiores jornais da Globo: RJTV, Bom Dia Rio e Jornal Nacional. Começou como repórter e depois foi apresentador de telejornais. Em 2012, surgiu a oportunidade de ir para Nova Iorque trabalhar como correspondente internacional: “A mudança não me trouxe dificuldade nenhuma. Devido às condições de segurança e à infraestrutura, trabalhar lá é muito melhor do que aqui”.

Hélter ficou em Nova Iorque por três anos. Parte da facilidade de adaptação veio da infância passada no interior do Tocantins: “Ter vindo de Colinas em 1973 fez com que tudo parecesse mais fácil. Nessa época, a Belém-Brasília não tinha nem asfalto. Eu me acostumo muito rapidamente a qualquer situação, gosto de estar em todos os lugares e não sinto dificuldade alguma em ir ou voltar, Sou um cidadão do mundo”.

A facilidade de ir e vir o tornou um jornalista versátil, mas é certo que seus anos de experiência e vivência internacional deixaram algumas marcas. Algumas coberturas jornalísticas são mais difíceis que outras, e o olhar de Hélter se perde no horizonte ao tentar lembrar daquela que mais o marcou, sinal de que foram muitas.

Entre as mais difíceis estão algumas que ficaram marcadas no imaginário da população. Uma delas foi o caso do menino João Hélio, de apenas 6 anos, morto por assaltantes em 2006. “Algumas vezes pensei em desistir da profissão, e o pensamento estava extremamente ligado ao momento do Rio. Quando cobri o caso João Hélio fiquei muito deprimido. Só resolvi continuar porque a profissão sempre fala mais alto”.

Outra cobertura que ficou na memória de forma indelével foi o atentado da maratona de Boston, em 2013, que Hélter cobriu como correspondente internacional. “Eu cobri o atentado de muito perto, quando os dois irmãos explodiram a bomba. Muitas pessoas ficaram feridas e perderam membros. Acompanhei a caçada em Boston e a cidade ficou fechada a semana toda. Foi um momento muito importante”, relembra.

Helter foto

Helter Duarte. Foto: Divulgação

A carreira de Hélter é marcada por diversas coberturas memoráveis, mas também por muitas mudanças. Com ar reminiscente, ele comenta como o jornalismo mudou desde o começo de sua carreira: “Se antes eu tinha que passar os flashes por um orelhão, hoje em dia é possível entrar ao vivo de qualquer lugar. A internet afetou muito o jornalismo, mas acho que ajudou em alguns aspectos, porque trouxe novas ferramentas de trabalho para o profissional, que tem mais facilidade de apuração”.

É certo que desde o começo de sua carreira o jornalismo passou por muitas transformações, que na visão dele foram positivas. “Acho que melhorou muito; o que piorou foi o Brasil. As pessoas têm mais dificuldade em ter acesso à educação e isso se reflete em todos os setores da sociedade, inclusive no jornalismo. A formação profissional reflete o estado do país, e as pessoas são muito menos preparadas hoje do que eram antes”.

Realizada em um contexto diferente, a formação acadêmica de Hélter, nos anos 80, foi bem completa – ele utilizou os créditos do curso de Rádio e TV para tirar também o diploma de Jornalismo. Ele conta que o benefício obtido na faculdade foi, além do contato com o mundo acadêmico, a facilidade de acesso ao mercado, mas diz que o resto aprendeu trabalhando.

Hélter não se arrepende de ter investido tanto na profissão de seus sonhos, mas adverte: “Para ser um bom jornalista é preciso ter paixão. Temos que ter uma boa formação cultural, muita curiosidade, persistência e a consciência de que vamos trabalhar todos, ou quase todos, os fins de semana de nossas vidas”, diz o goiano de sorriso fácil.


Reportagem de Camilla Castilho para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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