Mulheres que amam futebol

Dizem que a mulher pode dominar o mundo, mas um lugar em que elas têm conseguido destaque é nos campos de futebol. Acompanhando essa nova perspectiva pela TV ou indo aos estádios, pode-se constatar o comparecimento feminino. Com essa movimentação tão forte surgem verdadeiras histórias de paixões de meninas com seus times de coração, que dispensam qualquer ida ao shopping nos fins de semana para assistir a uma partida. Seja em casa ou não, a emoção é sempre a mesma, com força e vibrando junto com os lances. Amor, união e diversidade são os combustíveis dessa verdadeira dedicação aos clubes.

É o caso de Rafaella Meirelles, 21 anos e estudante de Jornalismo. “Sinto uma paz quando entro no estádio para assistir ao jogo do Fluminense. É como se estivesse em casa com meus familiares. Deixo todos os seus problemas lá fora e curto todo o momento”.  Ela, que não sabe mensurar o tamanho desse amor por seu time e sofreu grande influência de seu padrinho, revela que desde pequena demonstrou gostar do esporte e que só não foi mais a fundo, porque, por ser menina e pelo preconceito que sempre existiu sobre mulher jogar futebol, sua mãe acabou não investindo em uma escolinha. “Queria muito que ela tivesse me inscrito. Hoje poderia ser a nova Marta do futebol feminino e estar ganhando milhões”.

 

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Maria Tereza. Foto: Acervo pessoal

Rafaella, que muitas vezes é chamada de louca pelas amigas que não gostam de futebol, já passou por preconceito por esse amor. Teve que escutar de homens que não sabe nada e ter que responder perguntas bobas feitas de forma a diminuir a mulher. “Quando perguntam, ou eu provo que sei sim sobre futebol ou simplesmente ignoro para não me estressar”, relata. Para mudar essa visão e desafiar quem ainda tem esse tipo de pensamento, ela participa de um movimento feminino chamado “As Bravas da 52”, um grupo que resolveu juntar todas as mulheres que iam aos jogos e hoje são inseparáveis,  um verdadeiro caso de amor.

Amor é o que sente Maria Tereza pelo Fluminense. Com apenas 22 anos, começou a gostar de futebol em 2007 por influência do pai. “Fico encantada todas as vezes que vou ao estádio. Ver tanta gente que sente a mesma emoção é fascinante”.  Por mês, chega a ir a cinco jogos do tricolor, o que faz ter alguns desentendimentos com sua avó, que acha exagero. Ela, que também faz parte das Bravas 52, diz que elas amam pular e cantar. “Estar na torcida é dar um show na arquibancada”, afirma Maria.

Se divertir na arquibancada é o que Steffany Mariano, de 23 anos, faz quando vai aos jogos do Flamengo. Ao escutar aquele mar de gente cantar, se arrepia toda, de um jeito que não sabe explicar. “É como se fosse um só coração naquela hora”.  Ela afirma que não teria como torcer por outro time, já que na sua família a maioria é rubro-negra, sendo seu grande influenciador seu avô, que viu Zico jogar e apresentou a ela essa paixão. “Vejo Zico como meu maior ídolo. Não apenas pelo meu time, mas como pessoa e caráter”.

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Patrícia Sá Rêgo se impõe e ignora os machistas. Foto: Acervo pessoal

É essa paixão e hidrolatria que a professora de Jornalismo Esportivo Patrícia Sá Rêgo sempre observou em várias mulheres que curtem e sempre gostaram de futebol. Ainda analisa que um dos motivos desse envolvimento feminino nos jogos é devido a uma maior organização na realização dos eventos, visando à segurança para que não ocorram conflitos entre as torcidas, levando quem gosta do esporte aos estádios. “Podemos gostar tanto de futebol quanto qualquer homem e não há nada de espetacular nisso. Isso precisa ser visto com naturalidade e despertar o respeito mútuo”.

Ela, que sempre gostou de praticar esportes, acabou sendo levada para o jornalismo esportivo por acaso, após ser chamada para trabalhar na versão digital do Jornal do Brasil nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Mas esse foi apenas um dos primeiros passos da jornalista na área. Patrícia participou do desenvolvimento dos produtos digitais da Rio 2016 e hoje é responsável pelo projeto Redação Experimental da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca, e também ministra aulas no curso de Jornalismo — entre as disciplinas está a de Jornalismo Esportivo. “Apesar de não ter trabalhado permanentemente na editoria de Esportes, sempre atuei nos grandes eventos esportivos, que me deram uma base muito forte para hoje dar aulas”.

Eventos esportivos são o que a vascaína Joyce Ferreira, de 24 anos, gosta de participar. Seu engajamento é tanto que ela trabalhou nas Olimpíadas Rio 2016 como voluntária. E sempre que pode vai aos jogos do Vasco com o pai, sua grande influência em relação ao time que escolheu. “Meu pai me deu total liberdade para decidir. Mas acho que se eu não escolhesse o dele, ficaria decepcionado”, afirma.

Mas ela conta que esse amor pelo Vasco se tornou real quando foi pela primeira vez ao estádio de São Januário. “Quando vi a multidão cantando junto, tive certeza da minha escolha”. Joyce observa que as mulheres têm frequentado os campos de futebol, mas ressalta que por ainda existem brigas de torcidas organizadas, elas acabam evitando alguns jogos. “Eu nunca vou a um clássico contra o Flamengo, sei que é certo acontecerem atritos”. Mesmo com suas diferenças, hoje sua mãe virou parceira e a acompanha nos jogos.

Ela observa que essa percepção de mulheres presentes foi bem aproveitada por uma grande marca de cerveja em sua campanha no ano passado. Em resumo, três amigos são convidados a assistir a final da UEFA Champions League em um evento exclusivo da cervejaria, enquanto despachavam suas mulheres para um SPA. Só que, na verdade, elas foram ver o jogo no estádio em Milão, ao vivo e a cores, enquanto eles assistiam ao jogo pela TV. “Homem e mulher podem torcer com a mesma intensidade. É preciso parar de separar o que é de menino e de menina. Já passou da hora de ser algo natura”, analisa a professora.

E essa naturalidade que Thalyta Pery, de 21 anos, sempre teve ao ir aos jogos. Foi levada pela primeira vez em 2008 a um jogo de futebol por sua mãe, que é tricolor e gosta de futebol, ao contrário de seu pai. Indo à maioria dos jogos com ela, revela que as duas já ouviram muitas “piadinhas” sem graça sobre o que estaria fazendo ali sendo mulheres e foram xingadas por torcidas adversárias. “Já dei respostas muito malcriadas. Hoje em dia eu ignoro e respondo nas atitudes: continuo frequentando. Afinal, vão ter que me aturar”.

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Thalyta Pery. Foto: Acervo pessoal

Thalyta diz que tudo isso só faz aumentar o amor que tem pelo Fluminense e querer sempre estar junto apoiando. “Desde criança, sempre fui Fluminense, mesmo 99% da família sendo rubro-negra. E no dia em que pisei no Maracanã pela primeira vez tive a certeza que era aquilo que eu era”. Ela afirma ter mais de cem amigas que vão ao estádio. E é quando entra que esse fascínio começa. “A paixão que move tantas pessoas a estarem reunidas no mesmo lugar me faz sentir um mix de sensações e fico extremamente feliz”.

Com esse grande crescimento, Patrícia Sá Rêgo destaca também o aumento da torcida de mulheres também para a seleção brasileira. Essa aproximação tem reflexo importante para atrair garotas para o esporte. “Impossível não torcer diante da técnica e da garra de uma jogadora como a Marta”. Tal demonstração pôde ser vista no Jogos Olímpicos da Rio 2016. As meninas eram favoritas, diferentemente da masculina, na qual ninguém confiava. Tanto que a eliminação delas nas semifinais provocou uma comoção geral. Mas a jornalista afirma que o preconceito ainda é forte, pois ainda se vive em um país extremamente machista. “É uma luta diária para que as mulheres sejam respeitadas dentro e fora do campo”.


Reportagem de Karolyne Brasil para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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