Química improvável: farmacêutica fala de cultura pop no podcast VilaCast

Definitivamente, se alguém for perguntado sobre qual a relação entre uma farmacêutica e uma integrante de um podcast que fala sobre cultura pop, dificilmente essa pessoa saberá a resposta. Para Lenise Moretti, de 27 anos, essa história improvável se resume a duas palavras: paixão e oportunidade. Nascida e criada na cidade de Votuporanga, onde está até hoje, ela divide seu tempo entre trabalho e muitas horas dedicadas a hobbies. E foi a partir deles que o VilaCast surgiu em sua vida.

Ainda que sejam uma mídia em constante crescimento no Brasil, os podcasts se caracterizam por ser um espaço sem amarras, em que pessoas se juntam e conseguem conversar livremente sobre qualquer assunto. Lenise passou a compreender isso quando se tornou parte desse universo. Um dos programas de que participou, sobre “padrão de beleza”, ela considera um dos mais especiais. “Foi um cast em que tivemos um retorno muito legal, com pessoas dizendo que ouvir aquilo fez muito bem a elas e que agora tentarão se ver de uma forma melhor”, ela conta.

Um dos maiores benefícios do podcast é o estreito contato que se tem com o público. Antes apenas ouvinte, Lenise agora sente na pele a importância da mídia em dar voz para assuntos que na visão de muitos são tabus, mas que para ela são uma chance, inclusive, de ajudar pessoas. “Lá a gente dá espaço para pessoas, aprendizado, desconstrução, assuntos feministas. Fazer parte daquilo faz com que eu sinta que posso contribuir com algo bacana”.

Além disso, ela faz questão de citar o valor de ter homens e mulheres juntos participando e destaca que nunca recebeu feedbacks negativos. Esse tipo de abrangência acaba atraindo fãs e até admiradores. “Mais de uma vez já vieram falar da minha voz ser ‘doce e apaixonante’. Levo na brincadeira”, conta, rindo. Falar sobre mitos e abordar assuntos polêmicos – outro episódio focou nos relacionamentos abusivos – porém, são apenas alguns dos temas de que ela participa.

Lenise Moretti no Trono de Ferro. Foto: Acervo pessoal

Lenise Moretti no Trono de Ferro. Foto: Acervo pessoal

Atualmente, ela é integrante fixa do chamado “cantinho sentimental”, um dos quadros mensais do VilaCast. Lenise conta que os assuntos são decididos com espontaneidade e as gravações acontecem no fim de cada mês. Apaixonada por séries de TV, também já participou de programas semanais, como o da série “Westworld”. Ela diz que alguns episódios exigem preparação e faz parte da rotina pré-gravação ler sobre os temas e assistir aos episódios mais de uma vez. Lenise aproveita para brincar: “Eu nem acho minha vida tão interessante assim”. Ela considera sua vida pacata, e isso se deve em parte ao contexto à sua volta.

Cidade pequena, família grande. Esse sempre foi o cenário na vida de Lenise. Ela conta que a mãe, que é professora desde os seus 18 anos, fez parte de uma história engraçada: “Uma vez, de pijama, eu fugi da minha babá só para dar oi para minha mãe na sala de aula”. Hoje com 11 sobrinhos, ela conta que foram eles sua companhia de infância: “Éramos muito unidos”. A paixão por Química apareceu por causa de um professor que ela adorava, que, no futuro, se tornaria o motivo da sua escolha na universidade.

Por mais que a vida acadêmica tenha sido bem distante do que faz hoje na internet, Lenise encontrava tempo nas horas vagas para se dedicar aos hobbies. Ela diz que nunca foi muito fã de baladas e festas e que a fase agora é outra. Mais caseira, ela não esconde a paixão por filmes e séries: “Sempre fui muito ligada à TV e cinema. Se tem uma coisa que eu adoro fazer é ficar em casa vendo série”, ela conta. A dedicação é enorme. Ela relata que atualmente assiste a mais de cem séries, e que às vezes isso ajuda a conseguir temas para o podcast.

Ela entende que a cultura popular, como cinema e séries de TV, vem ganhando cada vez mais adeptos nos últimos anos. Com a crescente popularidade dos filmes de heróis e serviços de streaming como a Netflix, o audiovisual tem feito parte da rotina de muita gente. Como um retrato do imaginário social, muitas dessas produções servem de estudo para alguns temas considerados relevantes no mundo atual. Entre eles está questão da representatividade.

Lenise não esconde a frustração de, por muitos anos, ter visto o papel da mulher mal representado no audiovisual. “As mulheres eram usadas como ornamento e objeto para chamar a atenção na mídia em geral”, diz. Ela reconhece que o cenário vem evoluindo a passos curtos: “Ainda tem muito disso, mas estamos abrindo caminho aos poucos para mostrar que temos talento, capacidade, inteligência e não estamos no mundo apenas para servir”.

Hoje, Lenise entende como o VilaCast foi importante em sua vida. Mesmo sendo um novato em meio a tantos outros – foi lançado em 2015 – por meio dele já é possível enxergar o quanto uma mídia pode ser significativa no âmbito social. “Meu objetivo nunca foi se tornar famosa. Acho que o sucesso é algo relativo”, ela afirma.

Por enquanto, ela se contenta em ser uma voz a muitos que não se sentem representados. “Me sinto relevante de alguma forma”, confessa. Como mulher, ela admite que ainda há muitas batalhas a serem vencidas: “Em todos os nichos as mulheres precisam lutar para que sejam ouvidas e respeitadas, e com o podcast eu encontrei meu caminho”.


Reportagem de Márcio Corrêa Rodrigues para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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