Crítica: Jogador Nº 1

MV5BY2JiYTNmZTctYTQ1OC00YjU4LWEwMjYtZjkwY2Y5MDI0OTU3XkEyXkFqcGdeQXVyNTI4MzE4MDU@._V1_SY1000_CR0,0,674,1000_AL_A cultura pop pode ser definida como uma rede onde os mais variados assuntos, de diversas plataformas, se unem para formar um todo. Um desses pontos é o mundo dos games, que já soma mais de 46 anos desde o lançamento do primeiro console, o Odyssey, em 1972. Desde então, a cada década esse mercado vem se modernizando, com inovações tecnológicas constantes.

O cinema por sua vez é o outro pilar da cultura pop, sendo responsável pela popularização de tendências no público, seja o canto e a dança nos anos 30/40 ou o fascínio pela ficção científica nos anos 50/60. No entanto, a década de 80 possui um peso maior por todas as obras realizadas na música, como “Take on me” do A-ha, e na moda, com suas roupas vibrantes e coloridas.

No próprio cinema, diversas produções do período abordaram a cultura do jovem de uma maneira não vista até então, sem a maquiagem de um certo puritanismo velado e mostrando-os como pessoas que realmente não sabiam que caminho seguir na vida, cheios de dúvidas. Porém, o cineasta que mais pavimentou o caminho do que se conhece hoje como “cultura pop” surgiu uma década antes, no que ficou conhecida como “Escola dos anos 70”. Seu nome é Steven Spielberg.

Tanto Spielberg quanto essa geração fizeram parte do período conhecido como “Nova Hollywood” — a indústria cinematográfica americana começou a se distanciar das obras otimistas vistas até então e, como reação ao fracasso no Vietnã e do escândalo de Watergate, começou a rumar para caminhos voltados para retratar o mundo de maneira escura, suja e corrupta. Quatro jovens surgiram nesse período com novos conceitos para produzir e vontade de mudar tudo, eram eles: George Lucas, Steven Spielberg, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.

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Enquanto Coppola e Scorsese se aventuravam pelo submundo da máfia, Spielberg e Lucas procuravam revolucionar o modo de se fazer cinema, tanto em nível comercial quanto tecnológico. A primeira revolução de Spielberg viria em 1975, com o sucesso “Tubarão”. O cineasta apostou no uso de uma ferramenta mecatrônica para passar a ideia de realidade ao tubarão, levando o conceito de “efeitos práticos” para um novo patamar, repetindo-o mais tarde em “ET” e “Parque dos Dinossauros” e também sendo aproveitados por George Lucas em “Star Wars”.

Spielberg então popularizou-se por transmitir uma visão criativa encima de assuntos críticos, utilizando para tanto a fantasia como principal ferramenta narrativa. Em “Jogador Nº 1”, o cineasta segue a vida de Wade, um órfão que vive em uma favela no ano de 2044 e, no contexto local, vive em um ambiente super populoso. Sua única alternativa para fugir dessa realidade é entrar no mundo digital conhecido como OASIS, aonde ele e milhares de outros jogadores podem encarnar em avatares e interagirem nos mais inimagináveis tipos de jogos.

A cultura pop, então representada nos mais diversos pontos de ligação, é o que define o filme do início ao fim. Spielberg acerta em optar por uma narrativa que não perde tempo com dramas existenciais desnecessários e é direta em desfilar cenas de ação frenéticas em tela (destaque para uma sequência envolvendo uma corrida na primeira metade). O que poderia acabar se tornando um defeito muito comum para a maioria dos blockbuster (grandes produções) que é o cansaço que o excesso de ação gera no público não se repete aqui graças aos Easter Eggs.

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Também conhecidos como as famosas referências, esse artifício textual veio ganhando mais força nas produções da ultima década ( nas adaptações de quadrinhos principalmente) por remeter a algo que o espectador vá reconhecer de imediato ou não e que transmitirá alguma sensação boa a ele. Por se tratar de um filme ambientado no mundo virtual ” Jogador Nº1″ apela sem qualquer restrição à participações especiais de personagens famosos da cultura pop tanto para compor a linha principal da narrativa quanto para simplesmente fazerem pontas de figuração em uma cena de batalha, por exemplo.

E funciona justamente pelos personagens mais famosos que ganham maior brilho no decorrer do filme não serem inseridos de qualquer maneira, existe ali um esmero com eles mesmo que não sejam tão importantes para a história. Suas presenças também enriquecem as cenas de ação, mantendo vivo o interesse do público em procurar pelos mesmos.

Vale uma observação para os efeitos especiais empregados durante a projeção, se por um lado seu excesso de cores consegue o feito de não causar uma terrível poluição visual na tela, por outro eles não são a mais nova revolução tecnológica de Spielberg. A impressão passada é que o estilo da computação gráfica se inspirou fortemente nos trabalhos do estúdio “DreamWorks” ( fundado pelo cineasta).

Como em qualquer obra do diretor a juventude tem um lugar especial garantido sob o sol, aqui os jovens incorporam o espírito de obras como “Os Goonies” aonde contam com o trabalho em equipe para superar obstáculos e o filme faz questão de ressaltar esse ponto a todo instante, apesar de muito pouco ser abordado sobre o grupo e foco se manter no protagonista. A comparação entre gerações também é abordada de maneira bonita, sem apelar para um dramalhão. Nota-se que a geração atual pouco difere da dos anos 70 por exemplo, aonde em ambas os jovens tendem a buscar o amor mas quando o encontram acabam não sabendo mantê-lo ou também o fascínio pela tecnologia, seja a de realidade alternativa do presente ou de um videogame de 8 bits na década de 70.

Mesmo que o foco do roteiro assinado por Zak Penn e Ernest Cline seja o de criar uma aventura de ficção científica clara e despretensiosa, há de se abordar a boa análise crítica dos roteiristas para com a postura comercial agressiva que as empresas de game vem adotando nos últimos tempos ao vender pacotes que garantem vantagens para quem pagar mais sobre os outros jogadores, aqui personificadas pelo personagem Nolan Sorrento. O ator Ben Mendelsohn entrega um vilão bem cartoonizado no conceito de “empresário maligno” e que se enquadra na proposta descompromissada da trama ao mesmo tempo que sua visão de mundo pautada apenas no lucro e pouco conhecimento sobre a cultura pop pode vir a criar alguma ligação com certos espectadores.

” Jogador Nº1″ tem como alvo o público jovem da atualidade, que consome cultura pop e suas referências a todo momento. A avalanche de participações especiais de ícones desse movimento cultural serão absorvidas com mais facilidade por esse público, eles também se identificarão mais facilmente com as mensagens críticas sobre a postura das desenvolvedoras de jogos e com o conceito da cada vez mais popular tecnologia “VR” (realidade virtual) pois tudo isso faz parte do cotidiano deles.

No entanto, para o público adulto não será difícil comparar o tom de aventura tecnológica no filme com o obras anteriores como ” Tron ( 1982)” ou ” De Volta para o Futuro ( 1985)”. O vilão padrão de Mendelsohn é um tributo mais que bem vindo aos padronizados nazistas da saga de ” Indiana Jones ( 1981 – 1989)” ou dos militares em “ET (1982)”. A trilha sonora lembra o que havia de melhor nos clássicos adolescentes de John Hughes, como “Clube dos Cinco ( 1985)” e ” Curtindo a Vida Adoidado (1986).

Com uma aventura despojada e divertida, a direção de Spielberg consegue trabalhar uma obra que englobará não só jovens como adultos. Funde-se a diversão dos anos 80 como o múltiplo conhecimento da atualidade. O jovem que era desenvolvido nas aventuras do passado continua sendo o foco. O cineasta que revolucionou a cultura pop no passado e pavimentou-a para o mercado que é hoje mostra que entende muito mais sobre o público atual do que eles imaginam.


Gustavo Barreto – 7º período

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