Refugiados sonham com ensino superior no Brasil

A luz entra pelas frestas das cortinas e ilumina a sala com uma intensidade controlada. O clima refrigerado mantém uma temperatura estável no ambiente, fazendo contraponto com a pequena tensão de como transpor para uma simples redação os sentimentos, metas e sonhos em uma língua que não é a de nascimento. As origens são diversas, mas o objetivo é um só: entrar em uma universidade.

O grupo formado por cinco refugiados — três venezuelanos, um congolense e uma gambiana — participou de uma triagem para ingressar na Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca, recentemente. Todos enfrentaram o pior do ser humano em seus  países e, agora, começam a construir um futuro diferente. A escolha da profissão mostra um pouco das visões deles sobre o mundo.

Origens diferentes, mas o mesmo sonho: cursar uma universidade no Brasil. Foto: Gustavo Barreto / AgênciaUVA

Origens diferentes, mas o mesmo sonho: cursar uma universidade no Brasil. Foto: Gustavo Barreto / AgênciaUVA

La fuga 

Para o trio formado por Ana Maria Guerra, Oscar Santander e Isamar Andreína Suárez, a situação na Venezuela era insustentável, uma vez que o país atravessa uma inflação de 2.000% (segundo a Assembleia Nacional da Venezuela) e mina as possibilidades de investimento em diferentes áreas do país. Uma crise política que avançou após a morte do presidente Hugo Chávez e que vem culminando no colapso do modelo de governo estadista conhecido como Chavismo e em uma escassez de alimentos nos estabelecimentos comerciais.

Ana Maria define sua situação como um drama que não lhe deixou outra alternativa a não ser deixar seu país, família e amigos para trás. “Eu decidi deixar meu país, pois com o salário que eu estava ganhando não conseguia comprar um frango. Eu morava com meu filho, minha filha e meu neto, mas com o salário que eu recebia era praticamente impossível, mesmo trabalhando em um importante complexo hidroelétrico. A empresa então começou a realizar cortes no transporte, na alimentação e, quando vi que minha família estava passando fome, eu decidi deixar tudo”.

Um acidente automobilístico foi o principal motivador para a escolha do curso de fisioterapia como sua nova carreira uma vez que, segundo ela, seria uma forma de ajudar as pessoas, principalmente aqueles não podem custear um tratamento médico. Totalmente o inverso de sua antiga profissão de engenheira hidráulica informal, devido a diversas funções que ela teve que assumir durante um corte de gastos.

A jornada de Ana Maria rumo ao Brasil não foi fácil. A vigilância do governo venezuelano sobre sua população e funcionários lhe gerou desconfortos. “Como era uma empresa do governo, eles não deixavam o pessoal se demitir. Eu tirei minhas férias e depois enviei uma carta informando que não voltaria mais. Eles (o governo) então me investigaram através da polícia secreta, como fazem com todos os trabalhadores que decidem deixar o país”.

Já Oscar Santander veio com esposa e filhos para o Brasil. Formado em Direito, ele atuava como advogado no país, o que o ajudou a decidir sobre a nova carreira: Relações Internacionais. Oscar quer atuar na área de Direito Internacional. Segundo ele, a mudança de profissão e de país foi impulsionada por parte do próprio governo.

“Pelas calamidades e arbitrariedades que sofremos por parte do governo da Venezuela, decidi sair da minha terra natal para explorar novas oportunidades no Brasil, um país lindo e cheio de oportunidades com uma população muito calorosa e aconchegante que me recebeu de braços abertos, dando oportunidade a mim e a minha família. Já estamos no Brasil há cerca de 3 anos”.

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Oscar e Isamar estão construindo um novo futuro. Foto: Gustavo Barreto / AgênciaUVA

Oscar fala ainda da importância de se ter um curso de ensino superior no Brasil. ” Vocês sabem que o mercado de trabalho para quem não é formado no Brasil é muito precário. Há muitas vagas de emprego, mas o salário é bem pequeno. A gente conseguir se formar é atravessar uma barreira muito grande e nos deixa oferecer uma vida melhor para a criança, na área de educação e saúde. Como pai, meu foco é em dar um melhor estilo de vida para minha filha”.

Já para Isamar Suárez, a adaptação se deu mais facilmente. Com 23 anos, ela é a mais nova do trio e também a que está melhor adaptada ao português. Isamar demonstra uma paixão direcionada aos esportes, mais precisamente ao Rugby, e isso a ajudou a escolher cursar fisioterapia. “Graças à minha experiência como atleta, comecei a amar o esporte e como sou apaixonada pela ciência, decidi fazer uma graduação mais ligada ao que eu amo fazer”, contou.

Mais a carreira de atleta terminou de maneira dolorosa para Isamar. “Em 2016, durante a minha participação no ciclo olímpico, justo antes de vir ao Rio de Janeiro para o evento teste dos Jogos Olímpicos, que seria o sul-americano de Rugby, tive uma lesão no joelho direito. Rompi meu ligamento cruzado anterior e precisava de uma cirurgia para continuar jogando. Tanto a seleção da Venezuela como órgãos responsáveis pelos atletas de alto rendimento, como o Ministério do Esporte e o Instituto Nacional do Esporte, não responderam por mim. Apenas fui dispensada”.

Política perigosa

Nascido na República Democrática do Congo, Sammy Magbo, cujo nome de batismo é Kabagambe Magbo Sammy, é um dos nove filhos de um deputado, o qual ele preferiu não identificar. Segundo o congolense, atitudes políticas do pai lhe causaram problemas dentro do governo e sua família foi forçada a deixar a própria casa e a enfrentar a separação de seus filhos, cada um indo para uma local diferente.

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Sammy durante o processo de admissão. Foto: Gustavo Barreto / AgênciaUVA

“Foi meu pai quem mandou a gente para o Brasil. Ele é deputado, um político honesto e, por causa disso, políticos de outros partidos nos perseguiam. A gente chegou a ser ameaçado dentro de casa. Invadiam a nossa casa e nosso pai decidiu tirar a gente e nos trazer para cá, em 2011. Ele nos ajudou por um tempo, mas aconteceu algo bizarro. Todos os nossos bens foram apreendidos. Até hoje, meu pai não fica mais no mesmo lugar; a cada hora ele está em um país diferente”.

Com um forte sotaque francês já que, no passado, o Congo foi uma colônia belga, Sammy procura as palavras mais apropriadas para expor um pouco da sua trajetória no Brasil. “Desde sempre, eu tinha como objetivo estudar sistema da informação, no entanto, por questões de disponibilidade do curso no campus, decidi mudar para Ciência da Computação, que tem a mesma base”.

Sammy falou de como é viver no Brasil. “As diferenças não pesam muito agora. Meu início no país também foi tranquilo. Eu tive uma boa orientação, tive pessoas que me ajudaram. Ficaram apenas eu e meus três irmãos; nossa mãe ficou no Congo. Eu gostaria de trazê-la mas no momento não é possível. A empresa em que eu trabalhava fechou e o dono sumiu. Então eu fiquei sem receber o FGTS, sem receber a hora extra que eu fazia por um ano, depois três meses sem salário. O dono da casa em que eu estava morando teve que me tirar, pois eu não estava conseguindo pagar. Eu tenho 24 anos e digo que cada dia da minha vida é uma história diferente”.

A independência 

Localizada abaixo do rio de mesmo nome, na África Ocidental, e fazendo fronteira com o Senegal, a Gâmbia é uma nação africana de pouco mais de um milhão de habitantes cujo a língua nativa é o inglês. Foi nesse território que, em 1989, nasceu Mariama Bah, que hoje tenta uma vaga no curso de Engenharia Ambiental. Mais velha de cinco irmãos, Mariama sentiu na pele o peso de ser mulher em uma cultura patriarcal. “Viemos de cultura e tradições muito fortes e difíceis para as mulheres da etnia fula. As mulheres dessa etnia tem um lugar bem definido na sociedade: casar, ter filhos e cuidar da casa, somente. Não há a possibilidade de sonhar com uma profissão ou independência, de ser e fazer o que você gosta”.

Mariama contou os detalhes que fizeram deixar o seu país. “Sou a única dos 5 irmãos que foi para escola até o sexto grau e, com 13 anos, eu fui prometida a me casar com um homem que eu não amava. Tive que deixar a escola pra me dedicar ao marido e, consequentemente, deixar meu sonhos de lado. Foi um dos momentos mais tristes da minha vida, porque sempre gostei de estudar e tirava boas notas. Eu queria ser médica. Com 14 anos, tive minha filha. Eu me lembro de falar que ela não passaria a mesma coisa que eu. Falei que ela iria se formar como médica e eu lutaria contra todos se fosse necessário. Então, eu fugi de meu marido e saí do país em busca de educação”.

Apesar de todos os desafios impostos por sua cultura ou família, Mariama não pretende desistir de seus sonhos e tem certeza de que uma boa educação é a janela para um futuro melhor. “Entrei em 2013 no Brasil e com ajuda da Cáritas (confederação humanitária), consegui terminar meus estudos, com muito orgulho. Mas meu sonho é chegar bem alto na educação, porque na minha família tenho cinco tios e três tias, sendo que nenhum deles foi para o nível universitário por conta da pobreza, cultura e tradições. Minha meta é me formar e fazer o bem onde estiver, aqui ou na África, algum dia. Eu sonhei com a oportunidade de fazer faculdade toda minha vida e nunca vou parar”.


Gustavo Barreto – 7º período

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