‘Em 1968 havia uma bandeira. Hoje está tudo misturado’, diz Zuenir Ventura

O ano de 1968 representou no cenário internacional uma avalanche de mudanças sociais em todo o mundo. Nos EUA, o movimento hippie ganhava força considerável ao mesmo tempo em que o governo Nixon declarava guerra contra as drogas. Na França, estouraram diversos protestos fomentados por estudantes e operários durante o mês de maio, quando universidades e fábricas pararam no que foi a maior greve geral da Europa, com a adesão de 9 milhões de pessoas. No Brasil, era um período marcado pelo regime militar implantado após o Golpe de 1964.

Autor do livro “1968: O ano que não acabou”, uma das obras emblemáticas sobre o período, o jornalista Zuenir Ventura analisou as consequências que o atribulado período da ditadura militar ainda impõe sobre a sociedade brasileira nos dias de hoje, em uma palestra concedida na Universidade Veiga de Almeida, no dia 14 de março. Zuenir pontuou que a importância sócio-política de 1968 no Brasil começou cedo, em março do mesmo ano, quando o estudante Edson Luís de Lima Souto foi morto por policiais militares no centro do Rio de Janeiro.

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Zuenir em aula magna no Campus Tijuca. Foto: Débora Esteves / AgênciaUVA

Para o jornalista, a principal diferença entre a geração de 1968 e a dos dias atuais é a falta de um norte capaz de guiá-los. “Naquela época, você tinha uma bandeira. Havia uma realidade em que de um lado você tinha o bem e, do outro lado, o mal. Hoje está tudo muito misturado, o que acaba, segundo os próprios jovens, dificultando o encontro de uma bandeira que os mobilize”.

Apesar do contexto político da época, Zuenir deixa claro que a evidente dicotomia entre o certo e errado era suficiente para o engajamento jovem e, por conseguinte, a noção do que era melhor para a política. No entanto, os dias atuais são marcados pela constante ascensão de figuras da extrema direita pelo mundo. Seja na vitória presidencial de Donald Trump, na candidatura de Marine Le Pen nas eleições francesas ou no governo do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Zuenir busca a explicação de tal fenômeno, acreditando que, dentre várias razões, algumas se dão pelo fracasso da esquerda na atuação de áreas sociais.

Algumas correntes políticas acreditam que as velhas correntes ideológicas, esquerda e direita, estão ficando cada vez mais ultrapassadas e abrindo passagem para novas opções. O recém eleito presidente da França, Emmanuel Macron, cuja campanha eleitoral se baseou em sua ideologia centrista, ou seja, um modelo governista que equilibraria políticas sociais com o incentivo ao aumento do investimento privado, sem cair no extremismo, seria um exemplo.

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Zuenir: “Hoje já não se sabe o que é esquerda ou direita”. Foto: Débora Esteves / AgênciaUVA

Zuenir acredita que a desilusão mundial com os velhos modelos políticos pode levar a uma nova direção. “A verdade é que há uma insatisfação geral com os velhos políticos e seus projetos, inclusive com ideologias como esquerda e direita. Esses caminhos eram muito nítidos e hoje já não se sabe mais o que é o que. Hoje você tem um terreno de muita incerteza, então eu acho que vivemos um ambiente de transição onde o ambiente mais seguro é o centro”.

O jornalista falou ainda sobre as eleições de 2018 no Brasil. “Eu baseio meu raciocínio nas pesquisas e, mesmo assim, não se pode confiar totalmente nelas, pois elas são uma fotografia do momento e não uma certeza do que será no futuro. Com a polarização atual no Brasil, não tem como prever o que vai acontecer. Ainda tem muita água para correr embaixo dessa ponte”.


Gustavo Barreto – 7º período / Déborah Esteves  – 7º período

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