Economia que faz bem ao bolso e à saúde

Com a vida financeira cada vez mais apertada por conta da crise, o brasileiro vem deixando de comer na rua. De olho no bolso e também preocupado com sua saúde, opta por levar a famosa e velha marmita para seu local de trabalho. Segundo uma pesquisa da consultoria GS&MD, 3,5 bilhões de refeições ocorreram em restaurantes e lanchonetes no país. Em comparação ao primeiro trimestre de 2016, a redução é de 100 milhões.

A técnica em edificações Letícia de Medeiros é uma das pessoas que substituíram a comida de rua pela marmita. Adepta desse comportamento, ela revela os fatores que a influenciaram: saúde e economia. “Meu gasto diário com almoço seria de R$ 15, sendo que também levo meu café da manhã para economizar”. Ela também conta que a quantia que recebe para se alimentar é muito baixa. “É R$ 157,20 e eu já utilizo esse valor para me locomover, já que não possuo vale-transporte e por morar longe do trabalho, meu gasto com passagem é alto”, relata.

“Letícia com certeza sentiu o preço da diferença no bolso e resolveu correr para o mercado”, afirma o economista Evandro Silva. Segundo ele, a técnica em edificações passou a economizar cerca de R$ 150 por mês ao levar marmita para o trabalho. “É muito mais em conta para ela consumir o alimento de primeira mão, ou seja, comprar e ela mesma fazer, do que pegar o aumento repassado pelos comerciantes. Isso pode se perceber entre a maioria dos brasileiros. Todo mundo está fazendo isso mesmo”, comenta.

Nutricionista e doutora em Tecnologia de Processamentos Químicos e Bioquímicos, Simone Van Boekel pondera que a indústria alimentícia no Brasil, ao somente visar o lucro, vende cada vez mais alimentos sem valor nutricional importante. E a população, à procura de praticidade, os consome. “Hoje, 50% da sociedade brasileira está com excesso ou acima do peso corpóreo ideal. As pessoas querem mudar seus hábitos ruins de alimentação, mas não conseguem, pois o preço da comida em nosso país é muito caro”, analisa.

A assistente administrativa Emiliane Ferreira já leva marmita para o trabalho há oito anos, e conta que emagreceu 11 quilos com esse novo hábito. Ela confessa que a qualidade dos alimentos foi o que mais a motivou trazer a refeição de casa. “Eu mesma faço, sei qual é a procedência, até mesmo de verduras. A gente que almoça fora fica receoso de comer”. Emiliane também relata que a alimentação próxima à sua empresa é muito precária. “O cardápio não é variado, as verduras não são bem lavadas e é muito salito. Você come e não sente o gosto, não é uma comida saudável”, afirma.

O salito a que Emiliane se refere é o nitrato de sódio ou potássio, um aditivo químico que atua como conservante, como explica a nutricionista ortomolecular Bianca Oliveira. “Esta substância está presente em quase todo tipo de proteína industrializada – salsicha, mortadela, presunto, peito de peru, hambúrguer”. A nutricionista esclarece que quando ele chega ao estômago, reage e forma a nitrosamina, um composto cancerígeno. “Apesar de ser regulamentado pela Vigilância Sanitária, o salito ou salitre, é extremamente nocivo à saúde, se consumido em excesso, e isso é mais um risco da comida presente nos restaurantes, o que leva muitos a optarem pela marmita”, afirma.

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Emiliane Ferreira orgulhosa com a marmita. Foto: Emiliane Ferreira / Acervo pessoal

A nutricionista também destaca que o fato de montar a marmita já permite ao consumidor uma maior adequação nutricional, pois possibilita uma alimentação de acordo com a necessidade individual. “Na rua, não tem como pesar os alimentos, como brócolis e feijão. Uma quentinha, por exemplo, já vem pré-montada. Se você não come tudo, há o desperdício e se você ingere tudo, consome em excesso. Já em casa, o consumidor consegue ‘personalizar’ sua comida”, exemplifica.

Um fator importante para manter os nutrientes da comida é a forma de armazenamento da marmita. A nutricionista Simone Van Boekel frisa que além de ser transportada em pote térmico de boa qualidade, ela também deve ser mantida em refrigeração até a hora do consumo. “Mesmo em restaurantes, principalmente de Self Services, as temperaturas das preparações, nas cubas, devem ser constantemente controladas, pois se estiverem muito baixas também propiciam crescimento bacteriano, e, consequentemente, toxinfecção alimentar”, ressalta.

A possível perda do valor nutricional durante o processo que vai do preparo ao consumo da marmita é um ponto polêmico. A nutricionista Bianca Oliveira esclarece que, apesar de o alimento ter sido guardado, transportado e requentado, ele não perde uma quantidade ‘exorbitante’ de seus nutrientes. “Esse é um ponto, porém é um ponto fraco. Quando comparamos as opções, o bom não pode ser inimigo do ótimo. O ótimo seria você cozinhar e comer imediatamente, e o bom é levar sua refeição em vez de comer na rua algo que tem uma série de vertentes negativas”, pondera.

Os efeitos dessa nova tendência atingem também o setor alimentício. O dono do restaurante Boas Novas, Márcio da Cruz Lisboa, que já trabalha há mais de dez anos no atendimento a empresas, confessa que a quantidade de refeições caiu expressivamente. “Todo o comércio varejista está sentindo muito com essa crise. Hoje, os consumidores de varejo trocam seu cartão alimentação por compras do mês e realizam, durante todo o período mensal, economia das despesas domésticas também. A população brasileira só está comprando o necessário”, comenta.

Gerente do restaurante Mário Refeições, Leandro de Souza Ribeiro conta que, em um determinado período do ano passado, as vendas do estabelecimento diminuíram em 60%. “Para se ter uma ideia, tínhamos nove funcionários de carteira assinada, hoje nós só temos quatro. Tivemos que dispensar cinco empregados e assumir as funções que eram deles”. O gerente também confessa que foi necessário fazer uma ‘deflação’ dos valores que estavam sendo cobrados. “Nossa refeição era R$ 12, agora custa R$ 10. Mesmo assim, nosso movimento não está como desejávamos”, relata.

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Leandro de Souza Ribeiro. Foto: Leandro Victor

O economista Evandro Silva explica que com a alta do índice inflacionário, os comerciantes do ramo alimentício têm três opções: “Ou ele diminui a quantidade ou o tamanho do produto ofertado, como fazem grandes marcas do fast food; ou reduz a qualidade da alimentação, uma posição muito rara e arriscada, pois coloca o estabelecimento em risco de falência; ou então repassa esse aumento sofrido ao consumidor final”. Segundo o economista, elevar o valor da refeição é a posição mais adotada por eles. “A gente não pensa em comer menos e pior, e sim em se alimentar da mesma coisa pelo preço justo. Portanto, é muito mais fácil para o vendedor aumentar o custo da comida do que diminuir ou piorar a qualidade do alimento”, justifica.   

RISCOS DA ALIMENTAÇÃO NA RUA*   

  • Não há a garantia da higienização adequada dos alimentos, uma vez que a fiscalização sanitária é fraca. Além disso, a maioria dos restaurantes não conta com nutricionistas responsáveis pela produção das refeições;
  • A maioria dos alimentos é carregada de antídoto químico. Os temperos artificiais, conhecidos popularmente como caldos Knorr, muito usado no feijão, por exemplo, podem causar reações diversas, como alergia, vômito e tontura. São compostos ricos em purina, com excesso de sódio, conservantes, aromatizantes e gorduras ruins;
  • O uso do óleo de soja, um óleo refinado, sendo que o ideal é cozinhar com azeite de oliva. Além de não ser a melhor opção para a saúde, ainda existe o reaproveitamento desses óleos, algo praticado por muitos estabelecimentos;
  • O feijão, que, na maioria das vezes, não é demolhado, ou seja, não é colocado de molho na água no mínimo 12 horas. Isto é importante para eliminar o fitato, um antinutriente presente no alimento que atrapalha a absorção do ferro, do zinco e do cálcio.

A MARMITA SAUDÁVEL*

50% VEGETAIS (LEGUMES E VERDURAS) OUTROS 50%
25%- Salada Cru (cenoura ralada, beterraba ralada, pepino, tomate, alface, rúcula, chicória)

Estudos mostram que o poder dos vegetais crus de aumentar a imunidade é extremamente superior aos cozidos.

25% – Legumes Cozidos

 

 

(abóbora, quiabo, abobrinha, chuchu, brócolis)

 

 

25% – Proteínas

 

(peixe, frango, queijo, carne – o ideal é variar)

 

Peixe é o mais recomendado (três vezes na semana) pois, de todas as proteínas, ele é o que tem menos intervenção humana.

25%

Leguminosas

(feijão, grão de bico, lentinha, ervilha)

 

e Cereais

(arroz integral, amaranto, sorgo e quinua)

 

O ideal é manter a salada crua em um pote pequeno e separada dos demais alimentos até o consumo da refeição

A refeição ideal pode variar dependendo da condição física e do objetivo de cada pessoa. Por isso, é importante um acompanhamento nutricional.

DICAS PARA CONSERVAÇÃO DO ALIMENTO*

  • Realizar uma boa higienização na hora do preparo. Todos os vegetais têm que ser bem lavados. Já os crus devem ser colocados de molho, na proporção de para cada litro de água uma colher de sopa de cloro puro, no caso o hipoclorito. Deixar nessa solução por 15 minutos e enxaguar bem;
  • Não esperar o alimento esfriar após o preparo, e sim levá-lo direto à geladeira. As bactérias se multiplicam na temperatura ambiente com mais facilidade do que na gelada. Portanto, ao transportar a refeição rapidamente para o refrigerador é menor o intervalo de temperatura ideal para proliferação bacteriana;
  • Não colocar os alimentos quentes em recipientes plásticos. Ao ser aquecido, o plástico libera bisfenol A e dioxina, compostos nocivos à saúde. Mesmo que se espere a comida esfriar, o que já não é o ideal, no dia seguinte você irá aquecer essa refeição e, com isso, liberar novamente essas substâncias. Então, o ideal é marmita de vidro.

*Fonte: Bianca Oliveira, nutricionista.


Reportagem de Leandro Victor do Nascimento para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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