Movimento Barra Brava, uma nova ideologia na arquibancada carioca

‘Barras Bravas’ é um movimento que se originou nas torcidas dos países sul-americanos e chegou ao Brasil por intermédio da Geral do Grêmio e por influência dos países vizinhos. Já em 2006, chegou ao Rio de Janeiro por meio da Barra Loucos pelo Botafogo; seguida da Guerreiros do Almirante, do Vasco; Bravo 52, do Fluminense; e Nação 12, do Flamengo. Todas elas têm a mesma ideologia de exaltar o clube, cantar, independentemente de resultados, estender faixas com as cores tradicionais do time e levantar bandeirolas, além da maior qualidade, que é ser uma torcida voltada totalmente à paz nos estádios.

Por mais que os cânticos das músicas tenham um estilo diferenciado – mais cadenciado -, o objetivo é não deixar de lado o ritmo do samba carioca, fazendo as adaptações necessárias. As constantes punições aplicadas às torcidas organizadas devido a confusões e brigas generalizadas dentro e fora dos estádios fizeram com que o movimento crescesse consideravelmente, sendo bastante frequentado por famílias e pessoas que visam comparecer para apoiar seu time do coração e se manter longe da violência.

Fellipe Portella, de 25 anos, é diretor da Barra Alvinegra. Ele conta como foi difícil trazer algo novo para uma torcida que estava acostumada a outro tipo de cultura. “No início não podíamos sequer usar nossas faixas, pois não tínhamos espaço nos estádios, ficávamos num pequeno canto do nosso setor”. Apesar disso, garantiu sempre ter acreditado que a Loucos viesse a ser o “pulmão” da arquibancada. “Eu costumo dizer que a Loucos veio para causar”, brinca. Mostra ainda satisfação com a boa relação que a Barra possui com o Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios (Gepe), sempre explicando que, em hipótese alguma, a ideologia da torcida é propagar a violência e ressaltando que, hoje, a LPB é uma das principais torcidas do Botafogo, tendo mais de 30 núcleos espalhados pelo Brasil e nunca teve uma punição sequer. “Nosso objetivo é seguir dessa forma, crescer cada vez mais e exaltar as cores e tradição da nossa Instituição”.

Atualmente, a Loucos se sustenta com um programa de sócio da torcida, em que os membros contribuem com R$20 mensais, que possibilitam desconto em produtos, caravanas e eventos, além de uma sede nova em frente ao Estádio Nilton Santos, onde vende seus produtos para manter a conta em dia. O diretor condena os atos de violência e intolerância. “Para que eu vou sair da minha casa com o intuito de arrumar confusão? Eu quero torcer, apoiar meu time, não quero machucar, muito menos matar alguém”, desabafa. Esse fator atrai muitos jovens como Douglas Rodger, estudante de 18 anos, que diz gostar da Loucos por ser uma torcida que apoia durante os 90 minutos. “Hoje, a Loucos tem uma concentração muito grande de jovens, pude fazer muitas amizades desde que me aproximei, é uma torcida apaixonada, que faz tudo pelo bem do Clube, e não podemos nos deixar vencer pela violência, porque as pessoas do bem, que pregam a paz, ainda são maioria”, justifica.

Logo após a criação da Barra Botafoguense, ainda em 2006, foi criada a Guerreiros do Almirante (GDA), representando o Vasco. A Barra Vascaína é sustentada por meio de festas, rifas, vendas de materiais e ajuda de seus componentes. O líder Breno Batista, de 30 anos, diz que a torcida tenta resgatar aquilo que um dia foi essência para as torcidas organizadas. Para ele, o torcedor deve tentar fazer o que for possível em prol do Clube e deixar qualquer tipo de disputa de ego de lado. Ele conta que já participou de um movimento de torcidas organizadas, mas não o agradou. “Eu via covardia, arma de fogo e passei a me questionar. Aquilo não era torcida, era coisa de gangue”, lembra.

Breno diz que as torcidas violentas são produto de uma sociedade intolerante. Para ele, a questão é educacional. “A melhor maneira de lidar com isso é a conversa com a galera da torcida, mostrar que não vale a pena e estar sempre orientando, porque o que importa é protagonizar festas em razão do amor pelo Clube”, conta. Ele ainda fez críticas ao GEPE por generalizar atos de violência de uma pequena parte da torcida. “Se você pega um grupo brigando, prende esses caras, mas é muito mais fácil punir o coletivo inteiro. Acaba prejudicando quem está ali batalhando para mudar o rumo dessa história”. Pessoas que vão ao estádio e ficam destacadas da torcida também se identificam com a Barra, como Sary Neto, estudante de 22 anos, que diz se tivesse de escolher, escolheria a GDA. “Eu acredito que seja a torcida que menos se envolve em briga, além de cantar e pular o jogo todo”, ressalta.

A Bravo 52, criada em 2009, é a Barra do Fluminense. O nome foi escolhido em homenagem ao polêmico Mundial de 1952 vencido pelo time das Laranjeiras, que ainda não foi reconhecido pela CBF. O criador da barra, Luiz Augusto, de 41 anos, fazia parte da Legião Tricolor. Ele e seus amigos visavam uma torcida que cantasse o jogo todo como as barras sul-americanas. Para se sustentar e crescer, a Bravo 52 faz venda de seus produtos e lucra com as caravanas. Para Luiz, as barras cariocas diferenciam-se das argentinas pelo índice de violência nos estádios. “As barras aqui no Rio se respeitam, não criam rixas. Costumamos dizer que somos adversários, não inimigos”.

O fundador conta que sente que o movimento mudou a forma como os tricolores se comportam no estádio. “As pessoas estão indo para apoiar, para cantar os 90 minutos junto com a Bravo”, afirma. Sobre o GEPE, Luiz lamenta a postura na questão da restrição de materiais no estádio, o que impede que o crescimento do movimento seja maior. “Isso limita a festa de que as pessoas tanto gostam. Falta diminuir essas proibições para que possamos crescer cada vez mais, entretanto, estamos ali para colaborar com a harmonia nos estádios”, diz.

Além disso, ele fez questão de mencionar o movimento “Bravas da 52”, o grupo de meninas que tentam mudar a ideia de que futebol é apenas para homem e acabar com o preconceito contra as mulheres, que lutam para ser mais respeitadas e vem garantindo grande espaço na arquibancada: “Elas torcem e levantam a bandeira contra o machismo. Elas se reúnem, cantam e levantam a torcida junto com a gente”, acrescenta. A forma de torcer da Bravo atraiu a tricolor e estudante Bianca Rocha, de 20 anos, que diz se simpatizar com o movimento. Ela afirma que pretende um dia fazer parte da barra. “É uma torcida pacífica, costuma fazer festas lindas no estádio e essa paixão me emociona”, diz.

A Nação 12 do Flamengo, fundada também em 2009, surgiu com o intuito de não vaiar o time, mesmo no pior momento, e sim, apoiá-lo até o fim, sendo assim o 12º jogador. Assim como as outras barras, o financiamento é feito com venda de materiais e contribuições dos torcedores. Segundo a integrante Ana Beckman, de 20 anos, a barra do Clube tem mais dificuldade em crescer como as outras, devido à maior resistência do “povão” em relação à torcida organizada Raça-Fla, que conta ainda com um número expressivo de simpatizantes. Porém, afirma que o número de componentes é cada vez maior. “Nos últimos anos temos alcançado um maior número de agregados e com empenho, seguindo a mesma ideologia, vamos alcançar o objetivo de comandar a arquibancada rubro-negra”, frisa. Sobre a relação com o Gepe, o integrante Patrick Neves, de 18 anos, foi bem direto. “É bem simples, reunião e jogo, apenas”, afirma.


Reportagem de Renan Paschoa Aguiar para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

 

 

 

 

 

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