Maria Aliano, a Caboclinha do Salgueiro

Dona de uma rica memória e uma vasta história, Maria Aliano, 77 anos, conhecida como “Caboclinha”, atua como presidente da Velha Guarda do Salgueiro, depois de passar por todos os segmentos à frente da escola. Uma das fundadoras, nascida e criada na comunidade, ela é um grande exemplo para todos os jovens que iniciam sua história na agremiação.

Desde pequena, sua tendência era fazer parte do samba, já que seu pai, Birolha, é um dos fundadores da bateria do Salgueiro, tocava cuíca e era compositor. O primeiro contato aconteceu quando compôs uma Marcha de Carnaval no colégio interno, o que chamou a atenção de seu amigo Jorge Cardoso. A partir daí, ele decidiu fazer um teste com a pequena sambista, aos 11 anos. Ela deveria compor um samba-enredo sobre o Rio de Janeiro em cima da base de uma bateria e foi muito bem, recebendo muitos elogios.

Aos 14 anos, foi uma das fundadoras da agremiação Salgueiro, resultado da fusão de outras três escolas, e faz questão de mencionar a gratidão que tem pela Mangueira. Segundo ela, foi a única que defendeu sua escola: “Certas escolas não queriam que o Salgueiro desfilasse entre as grandes. A Mangueira falou que não descia para desfilar se o Salgueiro não descesse. Comprou nosso barulho e deu certo”.

Caboclinha já era sambista antes mesmo da fusão da escola e, desde então, não parou mais. Ela já foi diretora de harmonia, da ala das baianas, saiu na ala dos compositores, ajudou a fundar a ala da velha guarda e também foi rainha do Salgueiro, eleita com 5,6 mil votos. Além disso, junto à sua irmã Mocinha e Jorge Cardoso, fundaram o grupo musical da Velha Guarda dos Acadêmicos do Salgueiro, reunindo cantores e compositores ligados à tradição e à história da vermelha e branca da Tijuca.

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Nos seis primeiros anos, fazia shows apenas com a sua irmã com terno de desfile, vestida de homem, porém, com o desenvolvimento do grupo, elas fizeram roupas diferentes. Na década de 80, o grupo fez diversas apresentações pelo país, como em Belo Horizonte, Recife e diversas vezes em Santos, até mesmo em casas de família, à beira da piscina, mas encerrou suas atividades em 1990. Em 2000, a Velha Guarda Show retornou aos palcos após o lançamento do CD Velha Guarda do Salgueiro, pela Sum Records e depois lançou um novo CD em comemoração aos 50 anos da fundação da escola.

Nas paredes de sua residência, Maria exibe homenagens como o título benemérito do Estado do Rio de Janeiro, concedido pela Alerj, e fotos da participação do seu grupo, em Los Angeles, no Grammy Latino, o Oscar da música e considerado o maior prêmio de música da América Latina, em 2004, nos Estados Unidos. O grupo foi indicado na categoria Melhor Álbum de Samba/Pagode.

Um de seus maiores orgulhos foi gravar uma música que está em seu CD tocado fora do país. Ao falar de desafios, afirma que um deles foi gravar a letra “Manhã de Domingo”, já que não foi nada planejado: “Tudo começou em uma saída com os amigos a um botequim, em Botafogo. Comecei a compor ao sair da Saens Peña, olhando a paisagem durante o caminho, e a cada passo era um improviso. O mais difícil foi porque não anotei nada no papel, mas, mesmo depois de um dia inteiro na rua, lembrava de absolutamente todas as palavras e pude escrever essa linda música que marca a minha vida”. Ela continua fazendo seus shows.

A presidente vive o carnaval o ano inteiro, todo domingo ocorre uma festa da velha guarda de todas as escolas de samba, e está presente em cada uma delas. Para ela, é uma celebração do respeito entre todas as agremiações e uma forma de se distrair. Engana-se quem pensa que, em casa, deixa o samba de lado: “Até quando estou fazendo um arroz, estou sambando (risos)”.

Julgadora do samba-enredo da escola, a fundadora tem o difícil trabalho de avaliar pela melodia, letra e embalo do samba. Apesar de todo seu trabalho necessitar de seriedade, já que, além disso, é responsável por 110 pessoas em sua ala, não nega que seu lado emocional é afetado em diversos sambas: “Para mim, o Explode Coração e Xica da Silva, que ganhou o prêmio de fantasia de destaque, são sambas que marcam pela história que passa sobre o nosso país. Outro que vai marcar, sem dúvidas, é o que ganhou agora, o Malandro Batuqueiro. Desde que ouvi pela primeira vez me emocionei, fazia tempo que não chorava com um samba”.

Caboclinha se orgulha de tudo que fez e contribuiu para a escola, dos amigos que conquistou em todas as agremiações e velhas guardas e rechaça qualquer tipo de rivalidade: “Todos nós somos sambistas, lutamos para ter o nosso reconhecimento e, por fim, prevalecem as amizades e o amor pelo samba”.  Para Caboclinha, fazer parte da velha guarda é sinal de respeito, pois foi esta ala que já pegou jornal para dar para baterista esquentar tamborins e surdo, além de passar por aquele momento de crise, quando escola de samba não era bem vinda, principalmente no Rio de Janeiro: “A polícia andava atrás de sambistas só por querer sambar, éramos visados, passávamos sufoco e sofríamos muito preconceito, perdi amizades por isso”.

Orgulhosa de sua trajetória de vida, de amor e fidelidade a uma instituição, é grata por se tornar um ícone tão importante da sua comunidade e exalta a Velha Guarda: “Não existe escola de samba sem a Velha Guarda, pois foi onde tudo começou. Fico honrada em fazer parte de toda a história da minha querida escola”.


Reportagem de Renan Paschoa Aguiar para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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