Glória Perez, a autora que humaniza as tramas das novelas

Uma boa história para entreter. Esta é a função de uma telenovela, obra aberta que leva ao telespectador um conto capaz não apenas de distrai-lo, mas também de emocioná-lo, tornando-o parte da narrativa. E Glória Perez, autora com lugar cativo no horário nobre da TV Globo, desempenha isso com maestria. Por meio de uma escrita humanizada, da abordagem da tecnologia e os dramas por ela causados na sociedade, e de temas que permitem o telespectador mergulhar em culturas estrangeiras, a autora cativa o público, possibilitando sua interação com a trama.

Com 14 novelas e quatro minisséries no currículo, Glória iniciou a carreira na década de 1970, como assistente de Janete Clair, autora de sucesso da época, falecida em 1983. Dessa parceria, a então aprendiz herdou da famosa Maga das Oito as técnicas do folhetim televisivo. Ao longo das últimas décadas, a combinação técnica mais talento colocaram Glória hoje na posição de única escritora de folhetins de horário nobre da Globo.

 “Glória é uma mulher que escreve. Seu lugar de fala e seu interesse declarado ‘por gente’ parecem credenciá-la para construir personagens femininas mais empoderadas e complexas, com diferentes camadas, distantes do estereótipo e do maniqueísmo, mais próximas das características humanas. Isso, somado à criatividade de suas tramas, tende a aproximar o público de suas novelas, elevando os índices de audiência. Ao colocar uma novela no ar na vitrine privilegiada do horário nobre, essa mulher que escreve sabe que tem que segurar o telespectador até o fim. Glória uma vez disse ter herdado de Janete Clair a consciência de que, em um mundo dominado por homens, a mulher não pode errar, atrasar capítulo, deixar de cumprir compromisso”, diz Patrícia Miranda, professora de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de novelas.

A humanização das tramas, no entanto, não é o único ponto a se destacar para justificar o sucesso de Glória. Ainda de acordo com a Patrícia, os enredos da autora têm um desdobramento de tempo muito bem executado, levando o público ao questionamento. “O presente e o futuro sempre se encontram nas tramas da Glória. Barriga de Aluguel, por exemplo, trouxe para o telespectador algo que, hoje em dia, é muito comum, mas que, no passado, era considerado um absurdo. Em O Clone, o mesmo procedimento se deu. A clonagem humana era um tema pouco conhecido, e ao ser abordado em uma telenovela, aproximou a população de um futuro que não estava tão distante”, explica.

Para Rodolfo Bonvetti, jornalista especializado em televisão e professor de Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, a fantasia mesclada aos temas polêmicos é um fator a ser considerado para o sucesso das novelas da autora. “A Glória tem uma facilidade muito grande em escrever, e em escolher temas polêmicos para traze-los para o dia a dia das pessoas. E, apesar de suas histórias, muitas vezes, parecerem fantasiosas e irem com uma rapidez do Rio de Janeiro para o Egito, a Índia ou os Estados Unidos, são bem escritas e convencem o público a embarcar com ela nas discussões sociais que propõe”, aponta.

Com um estilo singular de escrita, Glória Perez é conhecida por levar à televisão brasileira questões sociais a partir de personagens controversos que, além de entreter, estimulam o público à reflexão sobre si e sobre os outros. Nas tramas que compõem seu vasto currículo, a autora abordou temas como o arrendamento da maternidade, em Barriga de Aluguel, as tradições ciganas, em Explode Coração, o recomeço de uma jovem que é submetida a um transplante de coração, em De Corpo e Alma, além de tantos outros.

Nos últimos anos, no entanto, a autora passou a apostar na cultura estrangeira como abordagem principal de suas tramas, em uma sequência que se iniciou com o Clone (2001), seguida de América (2005), Caminho das Índias (2009) e Salve Jorge (2012). Para Patrícia Miranda, a formação acadêmica da escritora pode ser apontada como uma boa justificativa para essas escolhas. “Graduada e pós-graduada em História, a Glória traz para a televisão o olhar de quem reconhece o que há de histórico e cultural no comportamento e na percepção de mundo de seus personagens, além de propor sempre a perspectiva do outro, das diversas realidades e maneiras de se viver, valorizando a diferença como contraponto”, pontua.

Na visão de Rodolfo Bonvetti, a escolha da Glória pelas culturas de outros países tornou-se um diferencial da autora, contribuindo com o frequente sucesso de seus enredos. “Criar um núcleo forte da novela em um outro país e discutir as semelhanças e as diferenças entre as duas culturas foi uma saída para se destacar dos outros autores. Ela tem a capacidade de colocar as questões sociais a partir do choque entre duas sociedades e fez isso muito bem em O Clone e em O Caminho das Índias”, opina.

Abraçadas pelo público, as tramas invadiram os lares dos brasileiros e promoveram um intercâmbio de valores e costumes. “A partir de, principalmente, Caminho das Índias, o Clone, e Salve Jorge, Glória proporcionou a nós, telespectadores, uma sinergia cultural, mostrando hábitos de países distintos para evidenciar o respeito à forma de se viver de outros povos, além de sugerir um o vínculo regional desse país dentro do Brasil, já que havia personagens estrangeiros vivendo em um núcleo brasileiro”, diz Roberta Botelho, 24 anos, estudante de Administração e fã das novelas da autora.

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Coiotes na fronteira entre Estados Unidos e México / Memória Globo Novelas

Sempre adotando questões contemporâneas e sociais para suas histórias, Glória Perez apostou na imigração clandestina para o enredo principal da novela América. Exibida em 2005, o folhetim levou ao público a história de Sol (Deborah Secco), moradora de Vila Isabel, na zona norte do Rio. Ao crescer ouvindo relatos de pessoas que foram para os Estados Unidos em busca de um bom emprego, tomou a entrada no país como seu objetivo de vida.

Ao longo da trama, o tema da imigração clandestina é desenvolvido por meio das inúmeras dificuldades que a personagem enfrenta para atingir seu objetivo e, finalmente, ingressar nos Estados Unidos. Ao ter o visto de turista negado diversas vezes, a imigrante decide tentar entrar no país de maneira ilegal, atravessando a fronteira entre o território norte-americano e o México. “É uma realidade. A busca pelos Estados Unidos muito se dá pela falta de perspectiva de mercado de trabalho no Brasil. No entanto, devido à política imigratória restritiva do governo estadunidense, muitos brasileiros que não obtêm o visto tentam ingressar ilegalmente no país”, explica Ronaldo Magalhães, professor de Geografia e de Sociologia.

Com o objetivo de levar a realidade de muitos imigrantes representados pela história de Sol, a novela teve uma serie de locações no Brasil e no exterior. De acordo com dados do Memória Globo Novelas, foram gravadas cenas no morro Dona Marta e no mirante Mundo Novo, em Botafogo. Fora do Brasil, América teve gravações na fronteira do Texas com o México, nas cidades de Terlingua, Lajitas e Ghost Town (próxima a El Paso) e no Parque Nacional Big Bend, onde está localizado o canyon Santa Elena.

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Sol durante a infância/ Acervo Memória Globo Novelas

Mas o intercâmbio entre Brasil e Estados Unidos não se restringiu aos personagens nem mesmo a questões geográficas. Para interpretar Sol, a atriz Debora Secco passou por uma experiência de um mês em solo norte-americano, conversando com imigrantes ilegais e entendendo como eram suas vidas por lá. A atriz conheceu pessoas que perderam parentes na travessia e também teve a oportunidade de conversar com dois coiotes mexicanos, conhecidos como guias das travessias ilegais.

A repercussão da temática da novela, no entanto, não teve cem por centro de aproveitamento. Apesar do frequente sucesso que as tramas da Glória alcançam entre o público, América sofreu críticas por ter sido considerada um estímulo à imigração clandestina. Luis Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, saiu em defesa à trama. “Responsabilizar a novela América e/ou a TV Globo por um provável aumento da imigração ilegal nos EUA seria como culpar a janela pela paisagem”, defendeu o diretor, em entrevista à Folha Online, que ainda acrescentou. “A função de uma novela não é estimular ou desestimular a realidade, mas, sim, promover uma reflexão sobre ela”, concluiu.

Sonhos e persistência aliados a uma fé capaz de unir três corações. A 11ª novela de Glória Perez, Salve Jorge, levou aos telespectadores a história de Morena (Nanda Costa), moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que sonhava em dar uma vida melhor à família, e de Théo (Rodrigo Lombardi), cavaleiro do Exército e devoto de São Jorge. Exibida na faixa das 21h na TV Globo, a trama percorreu temas como o tráfico internacional de pessoas, o mito do santo guerreiro e as divergências culturais entre Brasil e Turquia, distribuídos em 179 capítulos exibidos entre outubro de 2012 e maio de 2013.

Os protagonistas da trama foram apresentados ao público no primeiro capítulo, que foi ao ar em 22 de outubro de 2012. Com média de 36 pontos de audiência, as cenas inicias do folhetim fazem uma releitura da ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas do Exército, marcada por intenso tiroteio entre traficantes e militares. Morena, acompanhada da mãe Lucimar (Dira Paes), protege a humilde casa onde mora dos tiros. Ao fim da ocupação, Théo, o capitão da tropa, que sai vitoriosa, finca a bandeira do Brasil e do Rio de Janeiro no alto da comunidade, colocando fim ao tráfico de drogas e à violência na região.

Com baixo índice de ibope ao longo de todo o folhetim, a história de Morena e de Théo não cativou o público da maneira como se esperava. Com uma média de apenas 34 pontos de audiência durante os sete meses de exibição, 36 pontos no primeiro capítulo, e 46 no último, a novela foi considerada um fracasso diante da sequência arrebatadora de sucesso obtido pela autora com América, e principalmente, com O Clone, e Caminho das Índias.

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Reportagem de Lucas Palomo, Marina Magalhães, Thayssa Freitas e Thiago Flores para a disciplina Jornalismo Digital

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