Antecipação de escolha no Ensino Médio requer maturidade do aluno

O aluno termina o Ensino Médio, chega ao fim de um ciclo. Mas o fim torna-se começo. O futuro se transforma em presente. E com ele vêm os questionamentos: E agora? O que fazer? Qual caminho seguir? A definição muitas vezes é complexa. Pode ser escolhida baseada apenas nas aptidões ou sofrer influências externas, como dos pais, do mercado de trabalho e da ausência de obstáculos. Com a implementação do Novo Ensino Médio, os alunos sentirão o peso dessa decisão mais cedo, no fim do último ano do Ensino Fundamental. Eles deverão selecionar uma área de conhecimento para se especializar entre Ciências Exatas, Matemática, Linguagens, Ciências Humanas ou Ensino Técnico.

O estudante do 9º ano Jorge Alexandre de Assis, 16 anos, do Colégio Veritas, não se sente preparado para escolher qual área do conhecimento seguir. “Preferiria escolher no último ano, me sentiria mais confiante. Mas se tivesse que decidir hoje, faria Ciências Humanas por ser a área que acho mais fácil”, avalia. Colega de classe de Jorge Alexandre, Marcos Vinícius de Freitas, 16 anos, declara que não acredita estar apto. “Acho que a facilidade que tenho com Humanas e a influência dos meus pais contariam como fatores decisivos para a minha escolha”, confessa.

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Marcos Vinícius (à esquerda) e Jorge Alexandre (à direita) são estudantes que optariam pela área de conhecimento mais fácil [foto: Victor Sena]

Apesar do Novo Ensino Médio prometer ser benéfico aos alunos, com o adiantamento do foco profissional, sua implementação pode não corresponder às expectativas dos estudantes. O professor de História Leonardo da Costa Ferreira, que trabalha há mais de 11 anos em escola pública, acredita que essas transformações não vão oferecer ao aluno todas as opções de direcionamento, como é divulgado. “A lei dá cinco opções formativas, só que cada unidade escolar não está obrigada a oferecer todas. Essas opções vão ser definidas pelos sistemas educacionais, ou seja, a cúpula das secretarias municipais e estaduais de educação que vão impor quais caminhos formativos as unidades escolares específicas públicas vão fornecer”, afirma.

A antecipação da escolha por uma área de conhecimento requer maturidade do aluno e conhecimento prévio sobre o ramo a ser seguido. Atualmente, a definição é tomada no último ano do colegial, e, mesmo assim, é encarada com dificuldade. Há aqueles que se arrependem da escolha inicial e trocam de curso. Olivia Viera, 22 anos, é um exemplo. Ela cursava Biomedicina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) quando optou pelo Direito, após analisar seus objetivos de vida, sua ideologia e o mercado de trabalho. A universitária considera que se fosse estudante do novo modelo de ensino manteria a transferência, mas encontraria maiores dificuldades quanto ao conteúdo de estudo. “Na escola minha área de formação era de professora, com matérias bem mais voltadas para o Direito. Mas, mesmo assim, escolhi Ciências Biológicas”, relata.

As mudanças trazidas pela Lei 13415/17 requerem grande investimento na educação para que sejam aplicadas. O professor Leonardo presume que com sua execução haverá um agravamento do caos na rede pública de ensino. “Há um quadro crônico de falta de professor e uma estrutura precária. Não tem nem papel, xerox e alimentação básica. Com que dinheiro vai ser construída uma oficina de mecânica, por exemplo?”, questiona. Para o professor de História, a lei não é favorável aos alunos: “Parece mais que foi feita para dificultar o acesso dos estudantes de escola pública ao ambiente universitário”.

As escolas privadas também terão dificuldades para se adequar aos critérios da reforma educacional. É o que afirma Vicente Braga, coordenador pedagógico do Colégio Força Máxima: “Com o atual momento instável no país, é impossível aplicar mudanças tão drásticas na educação”. Segundo ele, as escolas de pequeno e médio porte vão correr sérios riscos, podendo até ocasionar a falência. “Elas dificilmente vão ofertar todas as áreas de conhecimento, e isso irá restringir o quantitativo de alunos e a arrecadação financeira”, acredita.

A solução sugerida pelo coordenador seria a realização de testes. “Se na ciência realizamos experimentações, por que não em um projeto tão modificador? Inicialmente, as mudanças deveriam ser implementadas em algumas escolas públicas, servindo de modelo. Se desse certo, as escolas privadas poderiam optar ou não por segui-las”, opina. Ele defende que existem outras alterações de maior relevância a serem realizadas: “As provas por exemplo, são um sistema falho de avaliação da aprendizagem do aluno”.

O estudante, para decidir uma área de profissão, necessita de um direcionamento para que reflita sobre qual caminho seguir. O professor Leonardo argumenta que somente com uma consistente orientação pedagógica, familiar, dos professores e da própria Secretaria de Educação, o aluno vai ter convicção da sua opção. “Muitos deles ainda possuem deficiências do Ensino Fundamental, sem saber ler, escrever e interpretar. Por esse contexto, é difícil acreditar que irão fazer boas escolhas, mas se a capacidade de escolher for bem trabalhada, não tenho dúvidas de que as decisões serão coerentes”, garante.

O apoio familiar também faz diferença depois do Ensino Médio. O estudante de Direito Caio Campos, 24 anos, da Unicarioca, garante que esse foi um dos motivos que o impulsionaram para trocar de curso. “Fazia Matemática na Uerj quando optei pelo Direito, por ser a atuação da minha mãe. Já tinha familiaridade com a disciplina e ainda facilitaria meu ingresso no mercado de trabalho”, relata. Porém, o universitário assegura que se fosse estudante do novo modelo de ensino, não tomaria a mesma decisão. Se eu direcionasse meus estudos para Matemática teria um leque de conhecimento bem restrito, estaria bem mais limitado a escolher um curso relacionado”, confirma.

Mas nem todos recebem essa orientação necessária. O estudante Marcos Vinicius declara que na sua escola não há um direcionamento profissional: “Não tem feiras nem palestras sobre as opções de trabalho”. Além disso, o estudante conta não haver uma discussão ou esclarecimento sobre o novo modelo de ensino: “Nenhum professor conversou com a turma sobre isso”. Outro aluno que passa pela mesma situação é Guilherme Sena, que está no 2º ano do Ensino Médio do Colégio Virgínia Patrick.  O estudante tem incertezas tanto sobre sua escolha profissional quanto sobre sua opinião acerca do Novo Ensino Médio. “Acredito que quanto antes você souber o que quer para o seu futuro, melhor. Mas esse novo modelo de ensino nos deixa cheios de dúvidas e esperanças falsas”, reflete.


 Reportagem de Thais Fernandes para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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