‘Ex-pajé’ divulga manifesto em Berlim

Documentário escrito e dirigido por Luiz Bolognesi (Uma História de Amor e Fúria), “Ex-pajé” estreou sábado, 17 de fevereiro, no Festival Berlim, como parte da mostra Panorama. Na sessão foi divulgado um Manifesto de Povos e Lideranças Indígenas do Brasil que propõe um país com mais tolerância e respeito, e que critica o etnocídio. O filme é um dos finalistas ao prêmio de Melhor Documentário no Festival de Berlim, cujo vencedor será anunciado no sábado, 24 de fevereiro. O longa foi um dos 18 selecionados entre os mais de 100 documentários presentes no festival. O longa “Aeroporto Central”, de Karim Aïnouz, também foi selecionado.

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Assinado por 28 lideranças e 15 organizações indígenas, um dos trechos afirmava: “Hoje atravessamos muitas crises, ecológica, econômica, política, a nossa frágil democracia foi atacada e os territórios indígenas estão sendo invadidos e saqueados. Junto com o ferro e o fogo, vem a conversão racista. Trocam as rezas pela bíblia e as medicinas por aspirinas. Epidemias de depressão provocam os maiores índices de suicídio do mundo manchando de sangue as lindas florestas do Brasil”.

Para o diretor e roteirista Luiz Bolognesi “num momento em que as casas de reza indígenas estão sendo queimadas e os pajés demonizados pela violência evangélica, ter o filme “Ex-Pajé” estreando em Berlim significa levar as vozes dos espíritos da floresta mundo afora através do cinema”.

O longa mostra o drama contemporâneo dos povos indígenas a partir da história de Perpera, um índio Paiter Suruí que viveu até os 20 anos num grupo isolado na floresta onde se tornou pajé. Após o contato com os brancos, um pastor evangélico afirma que os atos e saberes do pajé são coisas do Diabo e Perpera passa a viver um conflito interno. Apesar de se dizer evangélico e se definir como ex-pajé, continua tendo visões dos espíritos da floresta.

Ex-Pajé é uma produção Gullane e Buriti Filmes, com distribuição da Gullane.

Manifesto na íntegra:

“Manifesto dos Povos e Lideranças Indígenas do Brasil

 Mais pajés, menos intolerância

 Mais pajés, mais Céu, mais espíritos, mais floresta, mais vida. Menos ódio. Menos intolerância. Menos racismo. Precisamos superar a impossibilidade de conviver em igualdade nas nossas diferenças, e passar a partilhar o mundo com outros seres vivos, outros viventes, viver e se olhar e se reconhecer no olhar do outro, com reciprocidade, com respeito aos humanos e respeito também aos não-humanos, uns ao lado dos outros, vivendo juntos em nossas diferenças. Existe apenas um planeta, e todos podemos viver nele, livres do peso do racismo e do sexismo. Existem muitos mundos que convivem nas diferentes formas de habitar este planeta.

Durante muitos séculos, os pajés equilibram a vida na Terra. Com seus cantos, rezas, curas e sabedoria, massageiam o Planeta proferindo lindas palavras, as mais belas palavras sagradas. São médicas e médicos, rezadoras e rezadores, curandeiras e curandeiros, sabedores do mundo, com suas próprias ciências e sua filosofia.

Em nome de um deus, homens missionários agrediram nos últimos séculos muitas outras formas de vida. Se nos anos 1970 a própria Igreja admitiu sua violência catequista, esse processo não arrefeceu. Assistimos hoje ao crescimento de novas cruzadas de intolerância, sobretudo de missões protestantes. Se aliam com os inimigos dos povos indígenas para deles extraírem suas almas. O etnocídio que visa esvaziar todos os corpos de suas espiritualidades. O genocídio matou os povos em seus corpos físicos e o etnocídio em seu espírito, sua essência, sua forma de viver, que é a sua cultura.

Alguns leem na Bíblia a mensagem para invadir o mundo inteiro para forçadamente pregar o evangelho para todas as criaturas, entendendo que quem não se converter irá arder no inferno que essa própria religião inventou. Essa corrida colonial provoca ainda hoje, talvez como nunca antes, uma disputa por almas que esconde poder, dinheiro, controle de territórios, mercados de almas.

Hoje atravessamos muitas crises, ecológica, econômica, política, a nossa frágil democracia foi atacada e os territórios indígenas estão sendo invadidos e saqueados. Junto com o ferro e o fogo, vem a conversão racista. Trocam as rezas pela bíblia e as medicinas por aspirinas. Epidemias de depressão provocam os maiores índices de suicídio do mundo manchando de sangue as lindas florestas do Brasil.

Os espíritos da floresta estão bravos, pedindo socorro, pois cada árvore derrubada, cada rio contaminado, faz com que desapareçam. Assim disse um sábio pajé, a floresta é um portal cristalino, e todos nós humanos precisamos dela. Se acabar a floresta, também acabará nosso espírito. Os pajés precisam existir, e para existir, precisam ser respeitados. Antes que seja tarde demais, que o mundo esteja esvaziado de espiritualidade e o Céu caia sobre nossas cabeças!

Basta de etnocídio! Mais pajés! Menos intolerâncias! 

Assinam essa carta manifesto as seguintes organizações e lideranças:

 

Organizações

Associação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira -COIAB /

Associação Aty Guassu Guarani Kayowá

Comissão Yvy Rupa

Conselho dos Povos Indígenas de São Paulo -CEPISP

Federação do Povo Huni Kuî do Acre – FEPHAC

Instituto Maracá

Fórum dos professores indígenas do Estado de São Paulo, FAPISP

Organização Nhandepa Guarani e Huni Kuî

Rádio Yande

Rede de Memória e Museologia Indígena

ARPIN Sul

ARPIN Sudeste

APOINME

FEPIPA

 

Lideranças

Aílton Krenak

Álvaro Tukano

Alberto Terena

Chicão Terena

Davi Yanomami Kopenawa

Daiara Tukano

Denilson Bainawa

Dinaman Tuxá

Ninawa Huni Kuî

Nara Baré

Carlos Papá Mirim Poty

Cristine Takua

Genito Gomes Kayowá

Marcos Tupã

Antonio Carvalho

Júlio Garcia Karai Xiju

Izaque João Kaiowá

Nelson Ribeiro

Marcos Moreira

Mauricio da Silva Gonçalves

Sama Hani Kuî

Sônia Guajajara

Banima Hani Kuí

Davi Popygua

Joana Munduruku

Benício Pitaguary

Paulo Karai

Rosa Pitaguary”

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