Crítica: Pantera Negra

Filme “Pantera Negra” difere de tudo produzido no gênero de adaptação de HQs até hoje.

MV5BMTg1MTY2MjYzNV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTc4NTMwNDI@._V1_SY1000_CR0,0,674,1000_AL_Criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby para uma edição do “Quarteto Fantástico”, o Pantera Negra foi o primeiro de uma crescente de personagens negros nas HQs. Seu diferencial era que, pela primeira vez, um protagonista afro não só possuiria poderes incríveis, mas também seria o líder de sua própria nação conhecida como Wakanda, cuja a tecnologia seria muito mais avançada do que a das outras nações. Por estar localizada em solo africano, suas histórias não só problematizariam o racismo na sociedade, mas também lidariam com questões geopolíticas, principalmente no que concerne ao papel da África no mundo.

Alguns anos depois, por volta de 1970, surgia um novo movimento cinematográfico nos EUA, que visava quebrar todos os paradigmas cinematográficos e sociais vistos até então: a “Blaxpoitation”. Liderada por cineastas como Jack Hill (“Coffy”, 1973), Gordon Parks (“Shaft”, 1971) e Mario Van Peebles (“Sweet Sweetback´s Baadasssss Song”, 1971) a “Blaxpoitation” tinha como foco a produção de filmes estrelados por elencos majoritariamente afro-americanos e voltados para esse mesmo público. Suas tramas lembravam os clássicos do movimento “Noir” (1945-1958), com seus heróis de moralidade dúbia  tendo que enfrentar os mais depravados criminosos e suas personagens femininas de forte personalidade. No entanto, a “Blaxpoitation” absorveu muito do tempo em que foi criada (os anos 70 representavam o fracasso americano no Vietnã, a epidemia de drogas e a perda de credibilidade do governo) e uma de suas marcas mais famosas era a representação opressora ou pouco confiável de agentes do governo.

O diretor Ryan Coogler, somente com três produções em seu currículo até o momento, demonstra em suas obras ser um adepto de certos elementos da “Blaxpoitation”. Em “Fruitvale Station”, o diretor põe o sistema jurídico e penal americano em discussão, em ” Creed”, Coogler trabalha com o conceito de herói inseguro e que necessita do apoio de mulheres mais fortes do que ele para se erguer. Com “Pantera Negra”, ele decide ir além, não só ao montar um elenco majoritariamente negro pela primeira vez em uma adaptação de HQs, como trabalhar o conceito histórico da pilhagem de países europeus a nações africanas, o sentimento de revanchismo e raiva formada por séculos de crimes raciais, divisas territoriais de tribos africanas e etc.

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O roteiro escrito pelo próprio Coogler e por Joe Cole deixa a todo momento claro que os heróis e vilões têm reservas quanto a se abrir para o mundo, o que os difere são seus meios de lidar com essa abertura. Um lado é guiado pelo anseio de buscar novas relações diplomáticas e sair da obscuridade, enquanto o outro teme que sua cultura e tecnologia possam ser roubadas e acreditam que Wakanda deveria liderar a humanidade através da força.  Há ainda espaço para a discussão sobre os refugiados e uma alfinetada às políticas isolacionistas dos EUA.

Outro detalhe curioso é que o filme “Pantera Negra” parece ter uma forte inspiração em “Rei Leão”. Não só na relação entre o protagonista T´Challa, recém coroado rei, com seu falecido pai mas no drama familiar envolvendo a disputa pelo trono entre ele e seu primo Erik ou na sua relação afetiva com o sábio conselheiro do reino. Entende-se que o clássico da Disney teve um grande peso na construção do roteiro.

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Chadwick Boseman se mostra confortável no papel de protagonista, deixando de lado a sisudez digna do Batman apresentada em “Guerra Civil” aqui ele faz algumas piadas, se envolve em momentos românticos e passa a ideia de ser um rei disposto a proteger seu povo. Já Michael B. Jordan entrega o oposto, com um vilão jovem, egocêntrico e ciente de que pode dominar o mundo com a tecnologia de Wakanda.

Destaque para as atrizes Lupita Nyong’o e Danai Gurira responsáveis pelas personagens Nakia e Okoye, que funcionam como os pilares femininos da trama. Apesar de Nakia ser um interesse amoroso de T`Challa a personagem não necessita dessa dependência para se manter ativa, ambas tem voz própria e linhas narrativas claras que convergem para o desfecho da trama, além de momentos solos em que elas podem e conseguem brilhar sozinhas.

Por fim, “Pantera Negra” não é só uma obra resultante dos tempos atuais como também um tributo a movimentos do passado. A trama conduzida por Ryan Coogler consegue atingir um patamar de equilíbrio não visto no gênero até então onde momentos cômicos combinam harmoniosamente com elementos da cultura africana, com críticas sociais e com cenas de ação e suspense que lembram os antigos filmes do 007, onde o exagero era lei. O elenco é um espetáculo a parte, não só por conter nomes de peso mais por realmente ser uma mudança bem-vinda a um modelo de elenco já massificado.

Sem dúvida, terão aqueles que criticarão o filme por tentar ser militante demais ou “lacrar”, mas ao mesmo tempo deve-se sentir nessa obra um sopro de ar fresco de um produto genuinamente diferente de tudo feito no gênero de adaptação de HQs até então e isso é o mais importante, afinal o cinema sobrevive e existe desde seu nascimento para maravilhar e revolucionar.


Gustavo Barreto – 7º período

 

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