Crítica: A forma da água

the-shape-of-water-posterGuillermo del Toro não é nenhum novato em Hollywood. Com um estilo que se aproxima do gótico popularizado por Tim Burton nos anos 80, o cineasta fez carreira com os filmes “Blade I e II”, “Hellboy I e II”, “O labirinto do Fauno”, “Espinha do Diabo” etc. Em todas as obras, o diretor sabia habilmente balancear o tom leve de terror oriundo dos filmes de monstro dos anos 40 e 50 ( com grande influência em sua filmografia)  com alguma crítica social, geralmente destinada ao preconceito com minorias.

Em “A forma da água”, del Toro conta a história de Elisa (Sally Hawkins), uma zeladora muda que trabalha em um laboratório militar em Baltimore nos anos 60, que após se fascinar por uma criatura marinha antropomórfica (Doug Jones) que estava sendo vítima de pesquisa e tortura do agente de segurança Strickland (Michael Shannon) do lugar, desenvolve uma paixão e arrisca a própria vida para retirá-lo de lá.

Repetindo seu estilo de inserir a fantasia em um contexto social crítico, del Toro imerge a trama em pleno período de Guerra Fria, mais precisamente na busca dos americanos em superar os soviéticos na conquista do espaço, aonde a divisão social entre homens e mulheres era extremamente consolidada. É nesse ponto que o roteiro do diretor ganha força e apelo dramático real, aonde cada personagem possui de uma forma ou de outra alguma característica considerada excludente pela sociedade da época. Elementos como o racismo e a homofobia guiam o desenvolvimento de personagens secundários, tornando-os mais do que alívios cômicos e convergindo suas histórias ou problemas pessoais ao foco narrativo central.

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Já na parte central encontra-se o romance entre Elisa e a criatura, que apesar de ser recíproco entre o casal passa a ideia de ser ancorado apenas nos sentimentos de Elisa. Explicando melhor, o fato da criatura não se comunicar verbalmente e depender de uma linguagem de sinais torna-o um elemento passivo no relacionamento que é sempre visivelmente guiado pela vontade de Elisa em sentir-se como parte de algo e como uma pessoa excluída ou subestimada por sua limitação física. A ausência de um dialogo falado entre ambos exibe uma tentativa clara de emular o ar de romance de filmes do cinema mudo, seja pelo casal exótico parecido com o de ” O homem que ri” (1928) ou pelo romance claro ao estilo “Em busca do Ouro” (1925).

Sally Hawkins entrega uma interpretação linda, de uma mulher que começa sem uma perspectiva de futuro e que apenas existe para se tornar alguém capaz de compreender e se entregar a uma criatura e, eventualmente, armar um plano ousado para libertá-lo. Destaque para a sua interpretação construída sem qualquer linha de diálogo, mantendo-se apenas à base da linguagem de sinais e mais a frente para um número de canto e dança que remete aos clássicos musicais da década da primeira metade do século XX, como os filmes de Shirley Temple nos anos 30 ou de Fred Astaire nos anos 40.

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Michael Shannon entrega uma interpretação carregada de raiva velada para contrapor a inocência e o amor do casal protagonista. Carregado de ódio, seu agente Strickland representa todos os defeitos do homem nos anos 60: autoritário, machista, racista, consumista e preconceituoso. Repetindo a construção feita no vilão de ” Labirinto do Fauno”, del Toro não se preocupa em dar uma explicação com base em traumas passados ou alguma característica redentora ao personagem de Shannon, sua presença é cruel por completo, seu interesse pela esposa se baseia no sexo apenas e a única coisa que lhe arranca um sorriso é seu carro novo. Aqui ele é claramente o “verdadeiro monstro da história que existe para mostrar o quanto a humanidade é podre”.

Por fim, ” A forma da água” é basicamente Guillermo del Toro tentando de toda forma voltar ao estilo de narrativa que o consagrou em ” O Labirinto do Fauno”. Jogando no terreno seguro da narrativa fantástica seu foco passa a ser o romance de dois seres que se diferem mas se amam e devem vencer o ódio da sociedade, representado no vilão, para ficarem juntos. As criticas à um mundo regido pela guerra com pouco espaço para o amor, o designer curioso mas não original ( pouco difere de Abe Sapiens em Hellboy) da criatura concentra a magia da história, o vilão unidimensional e a protagonista sonhadora estão todos lá. Entretanto, esse reaproveitamento de um ambiente já conhecido na filmografia do diretor dá margens para indagar o quão profundo ele ainda consegue mergulhar em sua criatividade.


Gustavo Barreto – 7º período

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