Crítica: O insulto

MV5BYWRjMWM3Y2ItYWExZi00MzIzLWJiNWEtN2NhOWE2YWExZjA2XkEyXkFqcGdeQXVyMjUzMTYzMDI@._V1_SY1000_CR0,0,674,1000_AL_Existe uma divisão social, política e religiosa que permeia toda a estrutura do Oriente Médio. Um sistema histórico que cataloga cada indivíduo sob uma bandeira de algum povo que fora desapropriado de suas terras e nacionalidade, renegado a ser um refugiado em algum país estrangeiro e, na necessidade de arrumar um emprego para poder garantir a sobrevivência própria e da sua família, acaba sendo visto por olhos preconceituosos daqueles que já vivem no país em questão.

A questão dos refugiados palestinos é um dos mais complicadas e graves problemas enfrentados pelas organizações humanitárias na atualidade, por envolver a logística de alocar milhares de palestinos e lidar com os entraves políticos e conflitos militares travados por Israel, com o apoio dos EUA, e pelo grupo fundamentalista Hamas. Para sobreviver, os palestinos desapropriados de suas terras partem para outras localidades do mundo árabe, dentre elas o Líbano.

É com a premissa de uma convivência instável entre os libaneses e palestinos que o diretor Ziad Doueiri ( do ótimo ” o ataque”) narra a história de Toni Hanna ( Adel Karam), um libanês membro do partido cristão e contrário a presença de palestinos em seu país e que após um incidente envolvendo o mestre de obras Yasser Salameh ( Kamel El Basha) acaba iniciando uma batalha judicial que dividirá o Líbano entre apoiadores da causa palestina e nacionalistas que se sentem prejudicados por um sistema de justiça que parece prezar muito mais pelos estrangeiros do que para eles mesmos.

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Apesar das tensões no Oriente Médio serem a grande questão geopolítica da atualidade existe certo ruído na comunicação quando se aborda essa situação para públicos ocidentais, uma vez que eles não conviveram com todos os acontecimentos. Mirando nisso, Ziad Doueiri acerta em cheio ao focar sua narrativa no drama legal, algo comum em filmes no ocidente, como dominante do meio para o final do filme. O diretor distribui um tempo de tela equilibrado entre as alegações da defesa e da acusação colocando o espectador no lugar dos jurados, como se ambos os advogados estivessem tentando convencer ao próprio público.

Os momentos de trocas de acusações e evidência também possuem a função de expôr o passados dos dois protagonistas, dispensando assim possíveis flashbacks clichês, e dando uma tridimensionalidade necessária à ambos, evitando que o espectador venha a odiar por completo um lado ou defender demais o outro. Outro acerto é intercalar cenas reais de conflitos civis com as pausas entre as sessões do julgamento, mostrando a proporção que aquele evento estava tomando, tanto social quanto midiático.

Outro ponto levantado é a culpa da instabilidade na região ir muito além da política/econômica e pender para a religiosa. Reaproveitando o que realizou em ” o atentado”, Zaid põe em cheque o quão desestabilizadora pode ser a presença do cristianismo em uma terra muçulmana e até onde essa fé deixa de ser fé por si só e se torna massa de manobra para interesses políticos.

” O insulto” surge como o representante do Líbano dentre os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, apresentando uma trama interessante de julgamento criminal ( bebendo claramente de ” The People v. O.J. Simpson”) que consegue evitar de cair no monótono, com uma mensagem atual e importante ( mesmo que infelizmente o público ocidental venha a não absorvê-la como se deve) sobre a inclusão dos refugiados e com atuações fortes do protagonista de Abel Karam e o intérprete do seu advogado, Camille Salameh.


Gustavo Barreto – 7º período

 

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