Coletivos negros estudantis agem pela construção de uma nova identidade

O Dia da Consciência Negra – comemorado há mais de 30 anos por ativistas, mas que só passou a integrar o calendário nacional em 2003 e só foi oficializado por lei em 2011 – tem sido alvo de comentários e indagações a respeito de sua legitimidade. Entretanto, nos últimos anos, a internet e as redes sociais vêm expondo a necessidade da existência da data ao mostrar que o Brasil não é um país livre do racismo. E muito desta exposição se deve à ação de coletivos estudantis, que são grupos organizados por pessoas que se unem para debater e colocar em prática ações acerca de determinadas causa. Existem, por exemplo, coletivos feministas, LGBT’s, e negros, muitos deles formados em ambiente universitário, onde, geralmente, alunos e professores tendem a discutir e trabalhar temas de cunho social.

Um exemplo disso é o coletivo FaveLab, que teve sua festa de lançamento na última sexta-feira, 17, na Casa Coletiva, em Santa Teresa, no Rio, e contou com a participação de outros grupos negros. “O FaveLab é um laboratório de audiovisual que surgiu depois de encontros de amigos da faculdade, nos quais eram abordadas e discutidas situações vividas na periferia que causaram insatisfação”, explica o estudante de Publicidade Murilo Borges. O universitário também conta que, nesses encontros que originaram o grupo, todos sentiam um grande desejo de mudança. E, como havia estudantes de Publicidade, Jornalismo e Produção Cultural, surgiu a ideia de usar as especificidades e conhecimentos de cada curso, somados às experiências pessoais de cada um, para formar o coletivo.

facebook_1511207438478

[foto: Reprodução do Facebook].

O jovem explica que a missão deles é produzir documentários, vídeos jornalísticos, web TV e rádio, vídeo clipes e filmes por meio do contato direto com as práticas artísticas e culturais da periferia. “A ideia é inserir a comunidade na construção de uma nova identidade periférica, que se distancia da visão hegemônica e negativa que é propagada pelas grandes mídias”, afirma Murilo, reafirmando a descrição do coletivo nas redes sociais: uma fábrica de sonhos.

Aliás, o evento de lançamento ilustrou bem a proposta do grupo, contando com exposições culturais de quadros fotográficos e telas de graffiti de diversos artistas, brechós, afroempreendedorismo e exibição de documentários e vídeos, como o clipe “Ou Some”, da Mamute Produtora, uma das parceiras do FaveLab. “É muito bom ver surgir espaços de reafirmação e valorização da cultura negra, da cultura periférica. Existem muitos grupos que vêm tentando derrubar este conceito de que favela é só pobreza e marginalidade, tem muita coisa boa também”.

E este tipo de movimento tem se propagado e se estabelecido. A estudante Juliana Vicente, 23, afirma que se surpreendeu com a dimensão do trabalho realizado por estes coletivos. “Eu fui à festa de lançamento para saber como era o trabalho que eles fazem, e, confesso que tem muito mais do que eu esperava”, conta. Já a universitária Helen Almeida, 21, destaca a importância de grupos e espaços para debate sociais e ações afirmativas. “Tudo que é feito visando o empoderamento de um grupo, seja de negros, de mulheres, de LGBT’s, vale a pena e deve ser incentivado”.

AÇÕES PARA A CONSCIENTIZAÇÃO

Enquanto muitos ainda questionam a legitimidade do Dia da Consciência Negra, vários grupos, como o “Geledés – Instituto da Mulher Negra”, tem publicado ao longo do mês de novembro uma série de matérias e textos acerca da importância da data. Um dos destaques é o artigo “O Mês da Consciência Negra e a Representatividade na TV”, escrito pela jornalista Ana Cláudia Mielke para o portal Intervozes. “Silêncio dos canais comerciais sobre tema ao longo de novembro reforça importância da comunicação pública para promoção da diversidade racial na mídia”, Mielke escreve no começo do texto.

Até mesmo sites de entretenimento, como o Buzz Feed Brasil, apresentou duas matérias complementares a respeito do tema. Em “21 Pessoas Contam em que Momento Perceberam que eram Negras”, há uma compilação de relatos de pessoas sobre o incidente que fez com que elas percebessem que teriam de lidar com o racismo diariamente. Em uma das histórias, por exemplo, Iris Abrantes conta que, aos cinco anos, na escola particular em que estudava, ouviu a frase “Não brinque com eles! Eles são pretos!”.

Já em “18 Pessoas Contam em que Momento Perceberam que eram Brancas”, foram coletados depoimentos de diversos indivíduos sobre a ocasião em que perceberam o privilégio social que possuem somente por serem brancos. Entre estes relatos, um dos que mais chamam atenção conta como uma mulher branca, que preferiu não se identificar foi pega roubando: “Eu fui detida em flagrante e dentro da viatura os policiais me orientaram a inventar uma desculpa para não ser presa”.


Daniel Deroza – 6º período

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s