O retorno de gigantes do rock brasileiro

Um recomeço foi marcado para o dia 7 de Maio na histórica casa de shows “Circo Voador”, na mais tradicional zona boêmia do Rio de Janeiro, a Lapa. O Barão Vermelho saiu da garagem e voltou a alçar voo, um tanto arriscado e com princípio de turbulência. A viagem foi bem agitada, mas isso é um bom sinal. Meia-noite é o horário em que, tradicionalmente, a carruagem vira abóbora, mas quando se trata de um show de rock’n’roll é quando a mágica começa.

Foi exatamente nesta hora que a introdução à banda surgiu no telão, e uma versão forte de “Pedra, Flor e Espinho” é iniciada por um riff de Rodrigo Suricato, que subiu ao palco como aquele jogador da base que entra aos 45 minutos do jogo para marcar um gol de bicicleta e dar o título ao clube, acabando com qualquer dúvida sobre a sua escolha. Ele substituiu Roberto Frejat, que esteve à frente da banda por boas três décadas como guitarrista principal e vocal. Suricato trouxe à banda novos arranjos e uma perspectiva mais folk ao blues influenciado pelo Rolling Stones do Barão.

Um bom exemplo de por quê os fãs não poderiam se decepcionar foi o potente início do setlist, similar ao do disco icônico “Barão ao Vivo”, de 1989, em que a banda soava como um grupo de hard rock ao estilo Humble Pie. “Ponto Fraco”, “Carne de Pescoço”, “Pense e Dance” e “Bete Balanço” levaram todos os presentes ao delírio, é o momento rock do show. Após essa catarse, a primeira surpresa foi o hit oitentista “Dignidade”, música que parecia estar esquecida dos sets. Os Barões não esconderam o medo de estarem completos, só que “imperfeitos” – com o perdão da apropriação do refrão da música “Meus Bons Amigos”. Eles sabiam que a missão era dura, já que essa seria mais uma remontagem, com um terceiro frontman oficializado – a figura que é a primeira a atrair os olhares das multidões e do fã mais fiel.

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[foto: Roani Sento Sé/Agência UVA]

Se levar em conta que Suricato não estava assumindo só o posto que foi em outrora de Frejat, mas também de Cazuza, houve uma certa inquietação no ar. O multi-instrumentista teve que provar que estava no lugar certo – para si mesmo e para os fãs. Sem fazer pose, abusou de bons solos de guitarra, pouco semelhantes aos de Frejat, assim como arriscou os vocais na tonalidade original, feitos dignamente. Os outros companheiros de banda, Rodrigo Santos e Fernando Magalhães, iam a todo o momento demonstrar carinho ao novo integrante, assim como Guto Goffi e Maurício Barros – fundadores do Barão. Os dois reforçavam a todo tempo a importância de Suricato estar no posto de vocalista. E, pela reação dos fãs, a apresentação de duas horas poderia ter durado bem mais. Com todo esse background, pela bagagem de seu projeto anterior e pelo apoio a músicos como Erasmo Carlos, Suricato demonstrava em meio a sorrisos e brincadeiras estar tranquilo e feliz de estar ali.

Outros pontos altos da apresentação foram as performances de Maurício Barros, tecladista e um dos primeiros integrantes do Barão Vermelho, tendo seu momento de evidência em ‘’Down In Mim’’, e assumindo os vocais de um lado B que há muito tempo não se ouvia nos repertórios do Barão, o blues “Não Amo Ninguém”. Outro que foi para os vocais foi Rodrigo Santos, o baixista que recentemente esteve em tour com Andy Summers do The Police no lugar de Sting. Ele cantou o hit do último disco de inéditas da banda, a música “Cuidado”, de 2004. Um tradicional rock direto ao ponto, com suas linhas de baixo seguindo precisas e muito bem audíveis em todo o repertório.

É provável que em dado momento surja aquela frase: “O Barão está sendo cover de si mesmo”. A resposta que a banda deu para essa provável impressão de alguns críticos veio através das baladas do set. O blues “Quem Me Olha Só”, uma das surpresas do show, trouxe Suricato na gaita. “Eu Queria Ter Uma Bomba” e “Enquanto Ela Não Chegar” ganharam roupagens novas com guitarras que pouco lembravam as versões presentes no “Balada MTV”, de 1999, fazendo com que elas ficassem atuais ao formato do mercado. “Tão Longe de Tudo” e a icônica “Por Você” também ganharam ar renovado, uma sonoridade mais folk e belos arranjos de Fernando Magalhães e Rodrigo Santos. As duas foram cantadas pela multidão que estava no Circo como se estivessem sendo tocadas pela primeira vez após estourarem nas rádios, como se nunca tivessem sido tocadas ao vivo.

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[foto: Roani Sento Sé/Agência UVA]

Em determinado momento, de surpresa, Guto Goffi anunciou um áudio do percussionista Peninha – falecido em Setembro de 2016 – tocando e introduziu a clássica faixa “Puro Êxtase”, que fez a alegria dos fãs saudosistas. Goffi foi ao microfone antes de mais um bis para homenagear e dedicar o show a três pessoas importantes do Barão Vermelho que partiram: Ezequiel Neves, Cazuza e  Peninha. Frejat também foi lembrado por Rodrigo Santos, que presenteou a banda antes do show com flores – fato contado pelo baixista em uma rede social. Os fãs gritaram o nome do percussionista Peninha durante a apresentação. A presença do músico nas canções fez falta, e, apesar da banda estar reunida no seu formato inicial, havia a sensação de que faltava algo no palco.

O show foi realmente uma celebração que viajou por todas as fases, levando em consideração sons como “Billy Negão”, do primeiro disco, “O Poeta Está Vivo”, do álbum “Na Calada Da Noite”, e “O Tempo Não Para”, de Cazuza, que entrou no setlist da banda no final dos anos 1990. Por sinal, teve mais uma música do saudoso Cazuza que foi tocada com novo arranjo – o clássico “Brasil” apropriadamente recebeu sua versão “baronesca”. Ainda rolou um mix entre “Menina Mimada” e “Declare Guerra”, que são canções imprescindíveis no repertório do grupo. Para o gran finale, como não poderia deixar de ser, a música que fechou o show foi o petardo “Pro Dia Nascer Feliz”, outra canção que tem uma conduta política necessária para a realidade atual do país e um duelo de solos de Suricato e Fernando.

Lula Zeppeliano, fundador do fã-clube brasileiro da banda Led Zeppelin e um dos fãs mais reconhecíveis do Barão Vermelho, falou como foi o encontro dos presentes com os ídolos pós-show. “Conforme o prometido por Guto Goffi, eles não ficaram dentro do camarim. Receberam todos os convidados e mandaram abrir para todos os fãs, amigos, conhecidos da banda. Os Barões atenderam um a um, com fotos, autógrafos e muito carinho”. O sucesso da noite que marcou o retorno do Barão Vermelho aos palcos demonstra que o Brasil estava necessitando de mais uma dose de rock e agradece a volta de uma das maiores bandas do nicho do país.


Roani Sento Sé – 7º Período

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