Dramaturgia em foco

Na última quinta, dia 24, um novo evento começou a agitar a Zona Portuária do Rio. Trata-se da primeira edição da LER – Salão Carioca do Livro, realizada nos Armazéns Dois e Três, no Píer Mauá, no centro da cidade. Os dois primeiros dias da convenção tiveram as atividades focadas na dramaturgia. A LER conta com diversas atrações para agradar a todos os públicos, desde o infantil até os idosos, de frequentadores assíduos de teatro até os fãs mais fanáticos das franquias que povoam o universo Geek. O evento ainda conta com a participação de autores consagrados e novatos, convidados para debates e tarde de autógrafos, além de stands de diversas editoras com livros autografados.

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Hall dos Grandes Autores. [foto: Daniel Deroza/ Agência UVA],

No primeiro dia da convenção, um dos momentos mais esperados pelos presentes era a conversa com a novelista Cláudia Solto, que está escrevendo a próxima novela das sete da Rede Globo, “Pega Ladrão”. A autora falou um pouco sobre a carreira e métodos de trabalho. Cláudia, que estudou teatro na Itália, iniciou o trabalho em televisão, já como roteirista, no começo dos anos 90 escrevendo para o programa cômico “Casseta & Planeta. A escritora admitiu ser noveleira desde criança, mas que o ofício de planejá-las sempre lhe pareceu muito distante.

Porém, segundo Cláudia, após uma experiência em especial, o desejo de escrever para uma das principais formas de entretenimento popular do Brasil surgiu. “Foi quando eu fiz um reality show, que é uma coisa que eu não desejo nem para o meu pior inimigo, porque é de enlouquecer”. Durante 15 anos de trabalho na emissora global, ela passou por quase todo tipo de programa: infantil, comédia, enquetes, realities, auditório, séries dramáticas e sitcoms – a escritora contribuiu em programas de sucesso, como “Sai de Baixo” e “S.O.S – Emergência”.

Até que, em 2007, o novelista Walcyr Carrasco a chamou para ser colaboradora da novela que ele escrevia na época, “Sete Pecados”, que estava sofrendo com a rejeição do público e teve de alterar os rumos da história. Para isso, Carrasco contou o já famoso timing cômico de Cláudia. Após esta primeira relação, a dupla já trabalhou junta em mais duas novelas – “Caras e Bocas”, em 2009, e “Morde e Assopra”, em 2011. E já, com mais experiência no ramo, em 2012, Cláudia resolveu apresentar à Direção de Dramaturgia da Globo uma sinopse original para o horário das sete. Para a alegria de Solto, o argumento foi aprovado e a novela irá ao ar em 2017.

Quando perguntada se as novelas correm algum perigo com a popularização das séries de TV, Cláudia é categórica: não. “Houve um casamento entre a novela e a série. A novela pegou para si algumas características da série, como o dinamismo, e a série pegou algumas características da novela, como o arco dramático, os ganchos. Nas séries dos anos 70, 80, como “As Panteras”, contavam uma história por episódio, os personagens não eram desenvolvidos ao longo de uma temporada. Então, está acontecendo uma troca muito benéfica”.

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Júri do Prêmio Cesgranrio de Teatro no debate. [foto: Daniel Deroza/Agência UVA].

Já no segundo dia do evento, um debate polêmico lotou o espaço Cesgranrio de Roteiro e Dramaturgia. Trata-se da “Discussão Sobre o Panorama Atual do Teatro Carioca, com o Júri do Prêmio Cesgranrio de Teatro, que possui nomes de peso, como a premiada atriz e diretora francesa, naturalizada brasileira, Jacqueline Laurence, e a crítica teatral Tânia Brandão. O principal tema do debate foi a perda de espaço teatrais no Rio de Janeiro. “Antigamente, o Rio tinha 7, 8, grandes teatros. Eu publicava uma média de seis críticas por semana. Hoje em dia, se um jornal pública uma crítica é muito”, afirma Tânia. Uma das questões levantadas pela audiência foi a dificuldade da classe artística se sustentar apenas com teatro.

Para a veterana Jacqueline Laurence, a resposta para esta situação é muito simples. “O teatro se desprofissionalizou. E ele tem que ser profissional. A gente não se organiza mais como se organizava antigamente por um único motivo: onde está o público? ”. Porém a resposta pareceu não agradar a plateia, que rebateu trazendo a discussão o assunto sobre a concentração de salas teatrais no Centro e na Zona Sul, o que desmotiva a população a sair de casa, fazer uma longa viagem para assistir a uma peça. Neste ponto, o debate chegou a um impasse aparentemente sem solução devido a divergência de opiniões.

Já no espaço Jardim Literário, a à triz Beth Goulart, sucesso de crítica e público com a peça “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” participou de uma conversa com o público a partir de seu trabalho na montagem teatral e do bate-papo que ela promove ao fim de cada apresentação, o que, segundo Beth, é essencial. “Eu começo falando da Literatura de Clarice, mas falo também sobre as relações humanas. O teatro é uma arte essencialmente humana. Um encontro de seres humanos que é único e pode ser eterno”.

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Beth Goulart durante palestra. [foto: Daniel Deroza/Agência UVA].

Quando perguntada sobre as viagens realizadas pelo Brasil com a peça, Beth mostrou ter uma opinião bem diferente do corpo de jurados do Prêmio Cesgranrio, que afirmou que os artistas não podem ficar “se despencando” para lugares distantes – o exemplo utilizado no debate foi Bangu – para se apresentar, na opinião do júri, o interesse tem que partir do público.

Já para Beth, que já viajou com sua peça para diversas cidades do interior – se apresentando em clubes devia a falta de uma sala de teatro – afirmou que “o dever do artista é levar a arte até o público. O artista tem que ir aonde o público está”. Como pode-se observar, nas duas ocasiões, a discrepância de opiniões de membros da classe artística e o conservadorismo das gerações mais velhas, mostra que muitos dos problemas enfrentados por ela parecem estar longe de ter uma solução, mas que isso não é motivo para desprestigiar a arte.


Daniel Deroza– 4º Período

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